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- À procura da felicidade e Ladrões de bicicleta

por Mariana Souto
À procura da felicidade e Ladrões de bicicleta
Ao sair da sessão de À procura da felicidade, tive vontade de rever Ladrões de Bicicleta para confirmar minha impressão de que ambos têm muito em comum, mas com diferenças marcantes que remetem a seus contextos históricos e aos países onde se desenvolvem.
A bicicleta, símbolo de subsistência para Antonio Ricci, transforma-se, na cultura americana de Chris Gardner, em um medidor de densidade óssea um pouco mais eficiente do que o raio-X, mas com o dobro do preço. Meio de transporte barato e instrumento de trabalho para um, luxo altamente especializado para outro. Os objetos, em ambas as histórias, significam mais do que eles mesmos; apontam para uma vida menos sofrida e o conforto da família e sua perda, portanto, vem com o grande peso dramático da dignidade diante de um filho. No neo-realismo italiano, conturbado período de pobreza pós-guerra, a trama também é econômica, sendo seu pivô a luta de Ricci para recuperar a bicicleta perdida por um único roubo. Já no atual filme americano (ainda que ambientado na década de 80), Gardner perde seu aparato de venda 3 vezes, sofre 2 despejos, recebe 3 multas de trânsito, é atropelado, briga 100% das vezes que a esposa aparece em cena, é preso e passa por um sem número de situações de desesperança e constrangimento. E como desgraça pouca é bobagem, ainda perde o sapato.
Contudo, minha desconfiança em relação ao exagero de À procura da felicidade teve de ser amenizada pela lembrança de que era baseado na trajetória de uma pessoa real e, sendo assim, tudo aquilo tinha mesmo acontecido, por mais que as probabilidades se rebelem. Não que não seja possível acusar uma biografia de manipulação, mas a gente procura dar um desconto. Por curiosidade, resolvi então pesquisar a vida do Chris Gardner original, o azarado que virou rico corretor da bolsa e inspirou o filme. No longa, ele era um bravo sofredor, oprimido por uma esposa histérica que só sabia cobrar seu sucesso, aparentemente impossibilitado de obter maiores rendimentos por falta de formação profissional, condenado a vender um medidor de densidade óssea de que nenhum hospital precisava. Ao que parece*, Chris traía a mulher (inclusive sendo acusado de bater nela), tinha formação na área médica pela Marinha e era um militante bastante informado da causa negra. Teve realmente dificuldades financeiras e ficou desabrigado, mas os problemas que, no filme, aparecem como uma boiada, se diluíram ao longo de anos de vida.
Será que não exageraram na licença poética numa tentativa de causar maior impacto com o retrato da busca pelo sonho americano? Pintaram o sujeito como um ingênuo pobre coitado apenas para que sua ascensão social fosse ainda maior do que se estivesse no patamar de cidadão comum e com isso mostrar que qualquer um (mesmo) pode virar milionário se tiver perseverança. Existe um abismo entre uma pessoa com formação e condições razoáveis e outra em ambiente inóspito, sem alicerces, criticado sem intervalo por uma megera e com uma nuvem negra pairando sobre sua cabeça quando se trata de subir na vida. Seu crescimento continua sendo admirável, mas em outras proporções.
Bem mais realista, Ladrões de Bicicleta mostra as agruras de um homem e seu filho na busca pela bicicleta que usava em seu trabalho de colador de cartazes. Se em À procura da felicidade, Gardner consegue recuperar seu objeto, aqui isso não acontece. E muito se extrai das posições de um filme e de um diretor através do destino que dá a seus personagens. Com simplicidade, Vittorio De Sica mostra a tentativa de um homem de resgatar sua dignidade em tempos difíceis. Trata da situação de um indivíduo em particular, mas sempre remetendo a um coletivo. Em vários momentos, percebe-se o destaque dado, ainda que sutil, aos semelhantes de Ricci. Se ele opta por perder o sono em troca de trabalho, vendendo sua roupa de cama, percebemos que várias outras pessoas estão em situação parecida quando observamos o número de lençóis estocados na casa de penhor. O próprio final aponta um personagem que se perde na multidão e reflete a condição de toda uma população.
Ao contrário, À procura da felicidade procura sempre o individual. Não é trabalhado um contexto para a situação de Gardner, que vence os obstáculos por merecimento e esforço pessoal, reflexo de uma sociedade competitiva que coloca responsabilidades em cima de cada sujeito. E a culpabilização do indivíduo acaba por eximir autoridades, nação, governo – ou seja, o grupo. O cruel discurso de que “se você se esforçar vai conseguir” deixa de lado as evidências de que simplesmente não há espaço para todos, por melhores que sejam. Chris competia em sua empresa por uma vaga em 20. Ele venceu, mas e os outros 19? Nenhum era bom? Nenhum se esforçou? E os outros que sequer tiveram a chance de concorrer entre os 20 por não conseguirem agendar entrevistas? O filme olha para o vencedor e esquece que para cada Chris, não apenas 19, mas milhões ficam de fora. E passa a impressão de que tudo é possível, só depende de você - apontando o dedo para a sua cara e sorrindo.
Por essa lógica, também é fraqueza sua se seus ombros não agüentam o peso do seu contexto. E sendo assim, o perfeito protagonista não se corrompe em momento algum, apesar de que o Chris real provavelmente não tenha sido assim. Já De Sica mostra com humanidade o ponto a que um (bom) ser humano pode chegar diante de tantas circunstâncias desfavoráveis. Num ato ao mesmo tempo de entrega dos pontos e ingenuidade, Ricci rouba uma bicicleta, tamanho é seu desespero. Em outro momento, perde a paciência com o filho. E nada disso o torna menor diante dos olhos do público; apenas humano.
Tendo como ponto de convergência pai e filho em meio a dificuldades financeiras, À procura da felicidade e Ladrões de bicicleta - um envolvente conto de fadas americano e um duro e triste filme do neo-realismo italiano - permitem olhares interessantes que revelam muito de suas origens, propostas de cinema e formas de ver a vida, as pessoas e a sociedade.
Filmes citados:
À procura da felicidade (The Pursuit of Hapyness, 2006/Gabriele Muccino)
Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette, 1948/Vittorio De Sica)
* Segundo as páginas www.wikipedia.org/wiki/Chris_Gardner e www.chrisgardnermedia.com







