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por Mariana Souto
Pecados Íntimos
Relógios. Uma reportagem dá início a Pecados Íntimos. Uma jornalista fala sobre a saída de Ronnie da cadeia, homem que cometeu um atentado moral exibindo-se para crianças, e que agora está em condicional na pacata cidade americana, assustando a comunidade. Todos ali são especialistas em apontar o dedo e em sentar no próprio rabo para falar do dos demais.
Todd Field dá alguns indícios de que se refere à hipócrita sociedade americana (com bandeiras do país que aparecem em alguns planos e discutindo a paranóia, característica bem típica de lá), mas no fundo está mesmo é falando do ser humano. Revela a dimensão do quão contraditório, trágico e patético é ser um desses e mostra o eterno conflito interno causado pelas tentativas de deixar de ser assim. Sarah é bem casada, tem uma filha, dinheiro, tempo, mora bem, mas é infeliz. Brad é bem casado, tem um filho, tempo, mora bem, mas é infeliz. Nada explica a infelicidade de quem tem tudo para ser satisfeito com a vida. Pode-se ter tudo e mesmo assim se entristecer, o que causa ainda maior depressão, devido a confusão e a impotência diante de sentimentos inexplicáveis. “Devia ser feliz, mas não sou. O que há de errado comigo?”. Falta algo. Falta vida. E ainda se sofre o julgamento de quem não entende como isso poderia acontecer.
Ronnie, diagnosticado com um transtorno psicossexual, não consegue lutar contra seus instintos, mesmo sabendo que precisa evitá-los. O solitário personagem sai num encontro com uma moça que parece sua alma gêmea e salvação, com quem poderia dividir algo doce*, mas põe tudo a perder devido a sua impossibilidade de censurar vontades. Masturba-se na frente dela, mostrando que mais triste do que a prisão de grades em que estava antes é sua prisão interior. E tudo ainda faz parte de um ciclo: quem abusa sexualmente de crianças gera pessoas que podem crescer desequilibradas e por aí vai.
Larry é obcecado por Ronnie - ronda sua casa, distribui panfletos difamando-o e quer a todo custo proteger as crianças do que considera uma ameaça. Não consegue se livrar da dor de ter matado um menino de 13 anos por engano (e paranóia), quando era policial, e parece querer expurgar sua culpa salvando todos os jovens do planeta. Está preso a seu trauma passado, que afeta toda sua vida e do qual não consegue se liberar.
A maioria dos personagens tem vidas infelizes, condenados a suas próprias prisões. Mesmo os que parecem normais, felizes e até modelos sociais, quando olhados abaixo da superfície, são aberrações maiores do que os assumidamente perdidos. O que difere Sarah, Brad, Ronnie e Larry dos demais (o marido de Sarah, as esposas do parque) é uma inquietação, a recusa de uma vida miserável e a busca por ser diferente, por se sentir vivo. Independente do resultado, nesse caso o ditado popular se aplica bem: o que vale é a intenção. Como Sarah fala na reunião do livro Madame Bovary, há algo de maravilhoso na luta rumo à felicidade, mesmo que não se chegue a ela.
Os personagens aparentemente normais, aqueles que julgam os outros, se mostram um tanto quanto estranhos e contraditórios. Criticam o pervertido por se exibir para crianças, quando uma das esposas do parque conta que seu irmão fazia o mesmo para ela, que nunca reagiu, mostrando uma conivência e até mesmo uma satisfação com as atitudes dele. Condenam a infidelidade de Sarah, quando o que mais sentem é inveja por ela estar com o homem de seus sonhos. O marido de Sarah considera um absurdo que um pedófilo esteja à solta, quando freqüenta um site pornográfico em que Slutty Kate, como fetiche, se veste de colegial. Julgam coisas que não fazem de forma muito diferente na intimidade e projetam suas perversões e desejos mórbidos nas figuras mais expostas na sociedade – caso de Ronnie.
Para aprofundar nas esquisitices dos personagens e na temática do ilusório, o diretor faz uso de artifícios que sugerem jogos de aparências. Em frente ao espelho, Brad sorri e por um momento pensamos que ele está feliz, quando percebemos que na verdade está abrindo a boca para escovar os dentes. Vários diálogos parecem ir numa direção suspeita quando logo mais revelam suas intenções verdadeiras. Larry fala a Brad: “Você está ótimo. Tem feito exercícios? Os meninos vão adorar saber disso”, numa insinuação de homossexualidade que depois é desmentida quando percebemos que os meninos são os companheiros do time de futebol que gostariam de receber um jogador em forma. Mais tarde, novas insinuações embaralham tudo isso e colocam outras pulgas na orelha do espectador. Sarah vive numa casa de outras pessoas, decorada por outras pessoas. Seu lar é de aparências. Todo o filme possui alternância de foco, cada hora escolhendo um personagem para dar destaque e conhecer a fundo, revelando suas excentricidades e incoerências. A direção se mostra hábil nas transições e passagens de tempo. Todd Field brinca com as aparências, utilizando-se de insinuações tanto visuais quanto narrativas, para sempre deixar uma atmosfera de dúvida e perturbação, o que me remete aos sombrios filmes de David Lynch e ao seriado Desperate Housewives.
A confusão entre o real e o ilusório permeia todo o filme. O tom jornalístico, que começa na reportagem inicial, advém não só da presença do narrador, como de seu tom de contador de histórias de discos de vinil, do fato de Kathy, esposa de Brad, fazer documentários e da alusão a obras literárias, deixando o filme com um pé na ficção e outro na realidade. Pecados Íntimos se assume puramente ficcional, com momentos de muito formalismo (a apresentação de Kathy, olhando para a câmera em fundo branco é um exemplo) e corre o risco de criar um distanciamento com o espectador. Sabe-se que aquilo é um conto, uma fábula. De outro lado, passa tanta força, desespero e verdade em suas questões que me envolveu de tal forma que tudo que eu pensava antes do fechamento era “vamos todos dar as mãos e pular num precipício de uma vez!”. Faltando 10 minutos para acabar a sessão, eu queria pedir a faca emprestada a Ronnie.
Além da faca e da castração do personagem, muitas das ações dos miseráveis personagens de Pecados Íntimos são altamente simbólicas, principalmente se analisadas à luz da psicanálise. O uso do chapéu pelo filho de Brad e Kathy é um forte exemplo. Se com o pai ele preserva a infantilidade através do chapéu de Bobo da Corte, quando a mãe chega ele é o Rei - sua majestade, o bebê. Kathy o deixa dormir no meio da cama de casal, reforçando o edipiano triângulo amoroso. Sempre cobre o menino de elogios e repete o quanto ele é perfeito.
Na planejada fuga entre Brad e Sarah, esta sente o pavor de quase perder a filha e se dá conta do que está fazendo. É tomada por um sentimento maternal que parece nunca ter tido. Encontra a menina debaixo de um poste, na luz – a família agora está em foco. Descobre felicidade em sua própria vida. Já Brad desiste de fugir e abandonar a vida que tinha, pois encontra outro meio de fuga e transcende, à sua forma. Em seu salto de skate, tenta voar, ser livre e alcançar lugares antes nunca visitados; faz algo que sempre quis e se sente vivo. Vai mais longe e assim sente que pode voltar para casa e para a família. Tais atitudes podem ser interpretadas também de modo contrário, anunciando um final moralista, que deixa de lado os valores transgressores e feministas que apontava no início. Várias leituras são possíveis, mas ainda acredito no otimismo e no objetivo maior de liberdade e felicidade, que podem ser encontradas em revolucionários atos de mobilização ou redescobertas dentro de sua própria casa.
O ex-policial Larry também encontra sua oportunidade de quebrar o ciclo. Salva o pervertido a quem atacava, se redime e assim pode dar a vida a alguém, ao invés de tirá-la, como vinha acontecendo. Ronnie é acompanhado pelo áudio dos relógios de casa durante todo o filme. Quando sua mãe morre e ele lê o bilhete deixado (“por favor, seja um bom garoto”), surta com a pressão colocada sobre si e por sua atual impossibilidade de respondê-la. Destrói os relógios da casa como forma de parar o tempo. Quer quebrar a repetição, a prisão. E a narração finaliza dizendo que não podemos mudar o passado, mas sim o futuro. E este tem de começar em algum lugar. Seja a partir do foco na filha, vôos no asfalto, salvando uma vida ou quebrando o tempo, enfim, partindo ciclos que pareciam intermináveis e se desfazendo de prisões que pareciam asfixiantes.
Apesar do impacto e do sentimento de desespero provocados pela maior parte do filme, o final traz um otimismo que me fez lembrar da beleza do ser humano e de que talvez sejamos todos milagres mesmo, como acredita a mãe de Ronnie. Ainda que por meios tortuosos, há gente que quer crescer, ser feliz, ter contato com o outro, ultrapassar limites. Durante o filme há também pequenos momentos que inspiram liberdade, ressaltados pela trilha, com fotografia estourada e dilatados pela câmera lenta. Por fim, pensei que não estamos todos presos - a traumas, ao passado, à personalidade. Como Ronnie, estamos em condicional. É possível sair. E mesmo que não se consiga, como Brad ao se espatifar no chão com a tentativa de vôo, vale a pena tentar.
Filme Citado:
Pecados Íntimos (Little Children, 2006/ Todd Field)
Seriado Citado:
Desperate Housewives
Livro Citado:
Madame Bovary (Gustave Flaubert, 1857)







