por Mariana Souto

Beleza Americana e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

O cinema é o palco do grandioso. Por sua própria natureza de numeroso público ao redor do mundo, telões, quantidade de pessoas na produção e cifras envolvidas é visto como gigantesco espetáculo. Épicos, guerras, trágicos romances, fantasia, ficções científicas e efeitos especiais dão ao cinema a tonalidade do enorme, maior do que o próprio homem.

O grande público costuma assistir aos grandes amores, grandes acontecimentos, grandes guerras, grandes tragédias, grandes viagens, tudo sempre acompanhado de grandes reviravoltas, grandes obstáculos e grandes conflitos. Nos romances e comédias românticas, as pessoas se conhecem de jeitos mágicos, atravessam quinhentos empecilhos, se separam devido a um terrível mal entendido ou a alguém de absurdo mau caráter e se reencontram num magnífico desfecho, ajudadas pelas mais improváveis coincidências. Dificilmente retrata-se um casal que se conhece num boteco, sai algumas vezes, começa a namorar, casa e tem um par de filhos – não gêmeos.

A dimensão do extraordinário marca presença na maioria dos filmes feitos para o grande público, que não apenas é afetado durante a sessão, mas muitas vezes molda suas expectativas a partir do que assimila do cinema, sofrendo as conseqüências disso no seu dia-a-dia. A indústria cinematográfica acaba associando a imagem do ideal de vida e felicidade com o marcante, o sublime, o fantástico. Sendo assim, quem não tem o reconhecimento que o Tom Cruise alcança no final, uma namorada sósia da Scarlett Johansson e nem o cotidiano do Pierce Brosnan sente que tem algo de errado consigo e com sua vida, que enxerga como medíocre, por mais feliz que seja, se considerada fora desses referenciais. O ideal da grandiosidade faz com que muitas pessoas considerem a felicidade algo inalcançável, mesmo que já a tenham, porém em formato não hollywoodiano.

Embora a existência da beleza e do esplendor da arte mereça orações de gratidão ao universo, comparar-se com os personagens das telas é receita para a frustração. Essa comparação, entretanto, quase nunca é feita conscientemente, mas vinda de parâmetros já assimilados em cada indivíduo do que é uma vida que valha a pena ser vivida, tamanha a incrustação do cinema em nossa sociedade.

Em alguns momentos, contudo, filmes de sucesso apontam para a vida simples e seus pequenos momentos de felicidade – concepção muito mais próxima da existência da maioria de nós, mortais. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Beleza Americana fazem isso, mas sem perder em fascínio; pelo contrário. Ambos, apesar de abordagens diversas, ressaltam o valor de instantes corriqueiros ao tornar uma vivência mundana mais poética e nobre. Beleza Americana critica justamente a promoção da imagem bem-sucedida, do sucesso e do destaque em detrimento da própria vida. Angela (Mena Suvari) opina que “não há nada pior do que ser comum”. A garota, loira, sexy e popular, representa o ideal norte-americano, mas a seleção de uma atriz bonita, sim, mas que provoca algum estranhamento quando olhada mais de perto faz parte das intenções do diretor Sam Mendes de refletir as ambigüidades desse discurso.

Lester (Kevin Spacey) e Carolyn (Annette Benning) são desajustados oprimidos pela pressão de terem que ser os melhores, vencedores. O que encontramos de mais próximo à leveza está justamente nos personagens que buscam a simplicidade – Ricky (Wes Bentley) e Jane (Thora Birch). O rapaz tem como passatempo filmar a beleza com que se depara no dia-a-dia. Captura a imagem de um saco plástico e folhas bailando ao vento, minutos antes de uma tempestade, visão que o leva às lágrimas tamanha sua poesia. Interessa-se por Jane, a garota com cara de adolescente normal, cabelo escuro preso, mesmo que Angela, sua amiga, seja mais atraente para a maioria dos americanos. Esse sentimento de estarrecimento diante de um mundo de maravilhas é acentuado pela música dos créditos finais – a melancólica Because, dos Beatles:

“Because the world is round, it turns me on
Because the wind is high, it blows my mind
Because the sky is blue, it makes me cry”


Em meio à podridão, mentira e cinismo daquela sociedade (e de tantas outras), a verdade é encontrada no singelo. A beleza é revista no pequeno da vida, já que o grande quase nunca é acessível – ou é, mas por meios corruptos. Os detalhes são simbolizados em Beleza Americana pelo vermelho, cor que sempre aparece em alguma parte do enquadramento, embelezando o ambiente. A cor adquire força em momentos decisivos, como a paixão de Lester por Angela envolta em rosas, sentimento que impulsiona sua vida e o faz tentar ser uma pessoa melhor e mais saudável, e o assassinato do mesmo, desta vez com a tonalidade do trágico.

Vermelho também é a cor predominante de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, seguida pelo verde. As cores, muito estilizadas como todo o trabalho da direção de arte, ressaltam a condição de fábula e fantasia da história. A trama de Amélie passa sempre pelo pequeno, mas de forma tão bela e poética que se torna grandiosa. Os personagens são definidos a partir de seus detalhes, manias e gostos, que realmente se configuram como diferenciais entre as pessoas, contrapondo com a tradicional definição que passa pelos grandes feitos, ou pela profissão, idade, origem ou classe social. Assim como no filme de Sam Mendes, a verdade está no detalhe e no simples. Muitas vezes, conhece-se mais uma pessoa através de informações como “não gosta quando recebe olhares de desprezo para suas sandálias e gosta de desmontar, limpar e reorganizar sua caixa de ferramentas” do que por “Raphaël Poulain, 61 anos, médico”.

A narração inicia o filme com o detalhe: “em 3 de setembro de 1973, às 18:28:31, uma mosca califorídea, capaz de 14.670 batidas de asa por minuto pousou na rua Saint Vicent, em Montmartre”. A figura do narrador, também presente em Beleza Americana e aparentemente inspirado no de Jules e Jim, sugere que o divisor de águas para Amélie será a morte da princesa Diana, fato que tomou enormes proporções na época. Entretanto, revela em seguida que na verdade é o encontro de uma caixinha enferrujada dentro de um azulejo em seu banheiro. Uma pequena caixa, com figurinha de jogador de futebol e carrinhos, que simboliza toda uma infância. A protagonista entrega a caixa ao dono provocando uma significativa mudança em sua vida. A partir daí, passa a ajudar outras pessoas através de pequenos atos.

Todo o filme é cheio de pequenas anedotas (a história da criança que pegou o velotrol e foi achada na Alemanha, o vídeo do homem de perna de pau dançando), reunidas pelo diretor Jean-Pierre Jeunet ao longo de anos, que compõem um todo bonito e bem costurado. Assim como os pequenos momentos compõem uma vida, as miúdas estamparias compõem os papéis de parede, os vários cigarros compõem a vitrine da hipocondríaca Georgette, os grãos coloridos compõem um saco de cereais, as fotos 3x4 compõem um álbum, as bolinhas de gude compõem uma humilhação. O Fabuloso Destino é um filme em que o pequeno e o grande convivem de forma harmoniosa, em que se percebe o esmero no trato a cada detalhe e em que cada quinquilharia tem um significado. Os créditos iniciais são associados com sutileza a ações de Amélie criança: a menina usando lentes com “direção de fotografia”, cortando bonequinhos enfileirados com “montagem” (trabalho parecido foi feito em Delicatessen, do mesmo diretor). Amélie é uma menina de vida simples, mas por outro lado é ativa na ação de se envolver em reviravoltas e confusões. A história poderia ser banal (a estética, nunca) se a própria personagem não a inventasse e colocasse tantos obstáculos para sua felicidade. Até para um simples beijo, o casal dá rodeios e rodeios. Formulam todas as hipóteses - de fantasma a louco - sobre um homem que é simplesmente o técnico da máquina de fotos 3x4. Provavelmente a vida seria muito mais leve e feliz se não fôssemos criaturas tão complexas. A gente adora complicar - transformar algo pequeno em grande e cinematográfico - e esse é tanto um problema quanto uma graça da vida. O extraordinário é fabuloso, mas não deve ser entendido como única via de felicidade, já que a simplicidade tem suas formas de ser igualmente sublime.

Filmes Citados:
Beleza Americana (American Beauty, 1999/ Sam Mendes)
Delicatessen (idem, 1991/Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro)
Jules e Jim (Jules et Jim, 1962/ François Truffaut)
O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, 2001/ Jean-Pierre Jeunet)