por Mariana Souto

Secretária, Nelson Rodrigues e critérios de normalidade

Nelson Rodrigues, duramente criticado nas décadas de 40 e 50, ouviu a seguinte pergunta de seu amigo Manuel Bandeira: “Mas Nelson, por que você não faz uma peça em que os personagens sejam assim como todo mundo?”, ao que respondeu “mas meu caro Bandeira, eles são como todo mundo.” Os personagens do dramaturgo, de grande conhecimento público, são em maior ou menor grau pervertidos sexualmente, desequilibrados, fogosos, contraditórios, agressivos, insanos. Em filmes como O Casamento, Toda Nudez Será Castigada e Dama do Lotação é possível encontrar todo tipo de gente, pertencentes na maioria das vezes à classe média ou alta, o que gerava (e ainda gera) certo desconforto nos espectadores desses estratos sociais. Tal público costuma relegar perversões, sexualidade aflorada e as sujeiras do universo às classes baixas, diferindo de seu nível pretensamente mais elevado, de pessoas racionais, contidas e “normais”.

Estabelecer critérios de normalidade é sempre uma tarefa delicada. Se já é difícil saber quem somos, avaliar como são os outros deveria ser mais complexo ainda. O cinema, ainda que estilizado, fantasioso e irreal, é um bom meio de se tentar conhecer a realidade de outras pessoas – ou de si mesmo.

Julgar outrem é uma atitude que implica uma certa superioridade e normalidade da parte de quem o faz. Como é senso comum que “ninguém é perfeito”, julgamentos são quase sempre frágeis e hipócritas. De outro lado, somos capazes de perceber quando alguém se afasta muito dos padrões vigentes ou comete atos de prejuízo aos demais ou a si próprio – e então talvez comecemos a ter critérios um pouco mais válidos para avaliação.

Secretária, de Steven Shainberg, aborda a história de amor sadomasoquista entre uma secretária e seu chefe. Entretanto, o faz de maneira tão verdadeira e íntima que se exime de julgamentos e encara a questão como uma forma de se relacionar entre duas pessoas que se gostam. Lee Holloway é uma jovem que faz cortes em sua própria pele quando passa por alguma situação de angústia ou tristeza. Após sair de uma internação em hospital psiquiátrico, faz um curso de datilografia e consegue um emprego no escritório do advogado E. Edward Grey, que abusa de seu poder em relação à funcionária, por sua vez submissa. Eles desenvolvem uma relação de dominador/dominado que satisfaz a ambos. O filme centra-se mais em uma forma alternativa de amor, no autoconhecimento e em “ser quem você é” do que no sadomasoquismo, mas não deixa de levantar questões sobre relacionamentos e perversão.

Quando analisamos o tema profundamente, descobrimos algumas informações e motivações importantes sobre o sadismo e o masoquismo e vemos que não se trata de uma preferência pessoal ou de um simples modo de vida, mas de uma característica que se articula com o contexto e a história de vida de cada pessoa. Lee se sente anestesiada em seu mundo. Sua casa e os lugares que freqüenta são falsos, distantes de sua verdade. A direção de arte e o figurino trabalham com essa concepção construindo um visual de cores artificiais e vibrantes, quase um mundo da Barbie, plastificado como as sandálias da Melissa. As cores predominantes são os infantis rosa-choque e roxo. Sua mãe, irmã e amigas são todas loiras, muito diferentes dela, morena.

Outro elemento bastante utilizado no filme é a água, significando sua submersão num mundo turvo e de pouco impacto - a jovem aparece em cenas na banheira e quando se desfaz de sua caixinha com material cortante, joga-a no rio. Lee se corta no intuito de buscar sensações, de sentir-se viva. Como lê em seu livro de auto-ajuda (ou auto-sabotagem, para alguns) Como revelar-se dominador/submisso: “se pudermos vivenciar plenamente a dor, assim como o prazer, teremos uma vida mais profunda e significativa”. Outra interpretação para o comportamento de Lee é o de fuga de situações dolorosas, por mais contraditório que isso pareça. Sempre que se sente triste ela se corta, tornando esse mal palpável e dando vazão a algo que estava preso dentro dela. A dor física costuma ser mais fácil de lidar do que a emocional e tira a atenção desta última.

De alguma forma, Lee extrai prazer da dor e de ser subjugada, o que parece estar atrelado a um alívio de expurgação de culpa. Sempre que comete erros de datilografia, Sr. Grey a penaliza, e ela então se sente bem. Ele passa a bater nela, que assim abandona sua maneira de extravasar pelo corte, que já não é mais necessária. Já o advogado gosta de ser o chefe e de exercer seu poder sobre a secretária, por quem é atraído. Um gosta de dominar e o outro de ser dominado e assim unem seus sintomas num relacionamento que parece estranho ao olhar externo, mas é funcional e vívido. Se antes Lee vivia em um mundo falso e plastificado, encontra no escritório do Sr. Grey (cujo nome soa como cor*) um mundo de madeira, plantas, verde e outros elementos que remetem ao natural, às sensações verdadeiras. Com o amor dele, a secretária se sente viva.

Se essa é sua forma de amor, se ambos estão dispostos e se assim são felizes, onde está o problema? Será essa uma questão de puro livre-arbítrio? A situação se complexifica dependendo de nosso ponto de vista. Se encararmos esses dois personagens como doentes e pessoas mentalmente vulneráveis, talvez não estejam em condições de decidir por si e alguma entidade maior – a psiquiatria, a psicanálise, a religião, etc - deve cuidar do que não é um gosto pessoal, uma forma de satisfação e sim um sintoma de uma enfermidade (vide caso daquele canibal alemão em 2001). Afinal, é uma prática que põe em risco a integridade física do sujeito.

A psicanálise, por exemplo, prova-se certa em tantos aspectos que fica difícil contestar sua visão. A relação entre Lee e Sr. Grey é pautada por componentes infantis. Os erros circulados em caneta vermelha pelo advogado, o chocolate quente, o milkshake e o próprio ato de apanhar remetem ao universo infantil e à regressão. A roteirista Erin Cressilda Wilson conta que para uma das cenas em que Sr. Grey dava bronca em Lee, precisava de várias falas sádicas e ligou para sua mãe. Os exemplos fluíram de sua boca e assim ela escreveu a cena.

Depois desse parêntese, voltamos à pergunta sobre o livre-arbítrio: sendo ou não patológico ou descrito pela psicanálise, quem somos nós para decidir o que é melhor para outra pessoa? E mesmo que essa pessoa se ponha em risco, não teria ela direito sobre seu corpo e sua vida? Um dos critérios usados pela psicologia é: a pessoa está em sofrimento e/ou coloca outras em sofrimento? Nesse caso, não, mais ou menos e sim. Não, pois o sofrimento dos personagens advém da censura, do fato de não poderem revelar sua personalidade e seu desejo para a sociedade e não de gostarem de sadomasoquismo em si. Pelo contrário, este é gerador de alívio e satisfação. Mais ou menos, pois há sofrimento, mas este é desejado (cada um tem seus padrões para a felicidade) e sem esse sofrimento, aí sim haveria sofrimento. E sim, pois é fato que há sofrimento físico e agressividade, mesmo que não seja assim interpretado pelos participantes.

Após o nó que dei em minha própria cabeça, penso que todos somos sádicos ou masoquistas, de uma forma ou de outra. Quantas pessoas insistem em relacionamentos que as fazem sofrer, em que são traídas ou mal tratadas? Quantas têm algum tipo de prazer vendo o outro se dar mal? Quantas pessoas se sabotam de alguma forma no campo profissional? Quantas acabam anulando suas próprias opiniões em prol das outras? E fazem coisas que não querem só para agradá-las? Quantas se envolvem em comportamentos autodestrutivos, seja fumar, usar drogas, comer demais, mesmo com proibições médicas? Quando eu terminar todas essas perguntas, a resposta vai chegar ao número de habitantes do planeta. Maldita pulsão de morte**.

Estariam o cinema e o teatro exagerando nas perversões ou apenas retratando o mundo, que não conhecemos a fundo por não termos acesso à intimidade de outras pessoas? Se todos somos sádicos ou masoquistas ou pervertidos de alguma forma, a questão acaba sendo quantitativa. Alguns são menos, outros mais e outros ainda em proporções rodriguianas. É interessante perceber as reações do público: uns ficam indignados, outros fingem que não é com eles, outros ainda encaram com naturalidade. E o estarrecimento diante das perversões retratadas na arte não costuma ser proporcional à normalidade, para o conforto de Nelson Rodrigues. Se é que existe mesmo uma.


*Grey = gray = cinza em inglês
** Freud descreveu duas pulsões contrárias que convivem no ser humano: a pulsão que visa à preservação da vida (ou Eros), e a pulsão de morte, uma moção agressiva (ou Tanatos).

Filmes Citados:
O Casamento (idem, 1975/ Arnaldo Jabor)
A Dama do Lotação (idem, 1978/ Neville d’Almeida)
Secretária (Secretary, 2002/ Steve Shainberg)
Toda Nudez Será Castigada (idem, 1973/ Arnaldo Jabor)