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por Mariana Souto
Annie Hall e ABC do Amor: O Frescor e as Trapalhadas do Amor
O título barango, repetitivo e rimando consigo mesmo é proposital, pois como diria Fernando Pessoa em “Todas as cartas de amor...”, muitas vezes falar desse sentimento soa ridículo. Não raramente os apaixonados se mostram tolos e derretidos em situações românticas. A paixão inspira a cafonice no íntimo do ser humano quando este fala de quem se ama.
Por mais racionais, intelectuais e experientes que as pessoas sejam, quando se trata de amor, freqüentemente são ridículas. Alvy Singer (Woody Allen) abraça seu lado patético em Annie Hall, ainda que já tivesse passado por dois casamentos e uma crise de meia-idade quando conhece a personagem título. As trapalhadas e baranguices aparecem não só nos momentos de romance e amor consolidado, mas também nos de conquista. Diane Keaton é atrapalhada ao se aproximar do comediante Alvy, como ilustrado na cena em que ele oferece carona a ela, que pergunta:
- Ah, quero, você tem carro?
- Não, pensei em dividirmos um táxi.
- Ah, não, eu tenho carro! Quer uma carona? Vou para o centro.
- Eu vou para a parte alta...
- Eu também!
Se de carro as pessoas já são ridículas, não poderia ser diferente na fase do patinete, ao descobrirem o amor pela primeira vez. ABC do Amor retrata esse momento de descoberta por parte do garoto Gabe, que passa a enxergar sua colega de caratê Rosemary com outros olhos e a perceber batidas aceleradas em seu coração (“Que diabos é isso? Quem é essa criatura impressionante diante de mim?”). Gabe se atrapalha a todo momento com esse sentimento novo e com as tentativas de decifrar o significado das reações das meninas – suas inimigas até pouco tempo atrás. Sua mente elétrica oscila entre pensamentos como “Ela é uma garota. Eu deveria desprezar garotas, não me sentir nervoso e perder a voz ao lado de uma” ou “Por que ela não veio à aula? Ela não quer me ver? Ela me odeia. Ela veio! Está aqui. Ela me ama. Um momento. O que foi aquilo? Foi um sorriso? Ela está zangada comigo? Por que estaria? Eu apenas a beijei. Por que diabos a beijei? No que eu estava pensando?”. Essa luta interna entre pensamentos contraditórios foi acentuada pelos diretores ao separar as vozes em duas caixas de som, transmitindo a sensação (inconsciente no espectador) de uma discussão entre dois lados opostos de uma mesma pessoa.
Outros recursos são usados cinematograficamente, tanto pela dupla Mark Levin e Jennifer Flackett (casados) como por Woody Allen para ressaltar essa confusão, mas ao mesmo tempo vivacidade provocada pelo amor e a infância e potencializada pela imaginação fértil e neurótica dos personagens Gabe e Alvy. Em ambos os filmes, há cenas de uma espécie de realismo fantástico, por exemplo na sala de aula. Woody Allen aparece, velho como é, sentado em sua pequena carteira ao lado das crianças defendendo-se da professora. Também na sala de aula, os meninos de ABC do amor esguicham vômito, de forma artificial e bem-humorada, nas meninas. Uma cortina de ferro, concreta (criada por computação gráfica), divide meninos de meninas. Se Gabe recorre ao ninja da televisão, Mike Chat, em soluções mirabolantes para situações difíceis, Alvy tira o teórico Marshall McLuhan de trás da pilastra para fazer calar um tagarela pretensioso que o incomoda na fila do cinema. Ambos utilizam de recursos artificiais e surreais com o objetivo de dar conta de um mundo real no qual se sentem perdidos e confusos. E parecem acreditar que as complicações de suas mentes simplificariam seus problemas quando pontuam, após alguma cena fantástica, “ah, como se a vida fosse simples assim”.
Gabe conta que antes da entrada de Rosemary em sua vida, ele era feliz. Agora, sente-se perdido e atormentado. Alvy parece completamente sem controle sobre suas emoções diante de Annie. A paixão provoca rebuliços tanto na infância pacata de Gabe, quanto na vida de Alvy, apoiada na racionalidade. Devido ao nervosismo que sentem, protagonizam as mais diversas trapalhadas. Esse frescor de sensações em Alvy - velho como é - provocado por Annie é concretizado pela maneira desvairada com que a cantora dirige seu fusca, deixando o comediante sem fôlego e aterrorizado. Estar apaixonado e ter Annie em sua vida é como sentir os riscos e as emoções de andar de carona com um motorista descontrolado e imprudente.
Já a trajetória do menino Gabe é simbolizada por suas andanças de patinete pela cidade. O título original de ABC do Amor, aliás, é Little Manhattan (os tradutores tanto de ABC quanto de Noivo neurótico, noiva nervosa se deixaram levar pelo tema e souberam ser bem ridículos), cidade-ícone de Woody Allen e com especial relevância em Annie Hall. Nesse filme, Woody Allen contrapõe a segurança intelectual e claustrofóbica de Nova Iorque à ensolarada e fútil Los Angeles, cidade para a qual Annie se muda quando eles se separam. De forma semelhante, Gabe perde a garota Rosemary quando esta sai de seu território conhecido de Manhattan para um acampamento fora de Nova Iorque. As cidades, em ambos os longas, figuram como peças importantes na construção de um cenário familiar, que passa segurança ao protagonista e representa um certo domínio sobre sua própria vida.
Ambos mostram também como não importa se o território de ação é conhecido e nem a idade que se tem quando a questão é o amor. E não há como falar “quando a questão é o amor” sem ser essencialmente ridículo. Pois quando se fala de amor, se é ridículo. Também se pode ser dramático, desesperado e patético. Gabe descobre que o amor não dura para sempre e chora compulsivamente gritando “Rosemaaaaary!!” E tanto Gabe quanto Alvy concordam em suas opiniões sobre o tema: Woody Allen conta a seguinte anedota: “Um cara vai ao psiquiatra e fala “Doutor, meu irmão é louco, ele acha que é um frango”. Ao que o médico pergunta “Por que não o interna?” “Eu o faria, mas preciso dos ovos”. Finaliza dizendo que os relacionamentos são assim, loucos, irracionais, mas precisamos dos ovos. Já Gabe diz: “O amor é um negócio horroroso e terrível praticado por todos. Vai partir seu coração e te deixar na pior. O que sobra pra você no final? Nada além de algumas incríveis lembranças que não se esquecem”. Ou seja, quando os ovos acabarem, nos resta lembrar das gostosas omeletes de que um dia já desfrutamos. (Eu avisei que seria ridícula)
Filmes Citados
ABC do Amor (Little Manhattan, 2005/ Mark Levin e Jennifer Flackett)
Noivo neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977/ Woody Allen)







