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por Mariana Souto
Quando um homem é homem
Quando um homem é homem, ele doma uma megera. Essa é a idéia por trás do filme de Andrew V. McLaglen, estrelado por John Wayne e Maureen O’Hara. Wayne encarna McLintock, o típico machão americano de western - fazendeiro, rico, viril, honrado e respeitado por toda a comunidade - e o título em português ressalta a mensagem transmitida de que todas essas características constituem um Homem, com H maiúsculo.
McLintock é casado com Katherine (o mesmo nome da protagonista de A Megera Domada, de Shakespeare. Se Wayne se chamasse Petruchio seria forçar demais a barra), mas esta quer o divórcio e a guarda de sua filha Becky. A esposa é desobediente e geniosa com o marido - discute, contraria e fica irritada com possíveis infidelidades. Como um machão reage nessas circunstâncias de “humilhação” perante a comunidade? Porrada na mulher! A famosa cena final de Quando um homem é homem é exatamente isso: McLintock corre atrás da mulher exposta em situação ridícula (com roupa de baixo e calçola rasgada – além de que nenhuma pessoa, fora das Olimpíadas, fica chique correndo...), com toda a cidade atrás dele presenciando o ato, pega Kate, a coloca no colo e lhe dá palmadas na bunda. Apesar do conteúdo machista, a cena é envolvida em um clima de humor e se torna graciosa, típica de uma comédia romântica em que o casal finge se odiar e trocar farpas, mas na verdade se ama.
Talvez nem valha a pena analisar a misoginia presente no longa, sobretudo se pensarmos em seu contexto de realização no ano de 1963 e sendo um de seus envolvidos, John Wayne, um símbolo do conservadorismo americano. Contrariamente, o filme apresenta uma visão consciente e liberal em relação aos índios, geralmente vilões do gênero do faroeste. Aqui, McLintock tenta defendê-los, mostrando-os como pacíficos e amigos dos brancos e até revelando como os últimos protagonizam situações injustas contra os nativos. Quando uma moça da região some, logo colocam a culpa nos índios e é McLintock quem salva um deles do enforcamento. Logo mais, descobrem que a moça havia simplesmente saído para um passeio com seu namorado – branco.
Essas contradições no trato a temas polêmicos são encontradas, de forma variada, em qualquer ser humano. Como já havia explicitado no texto desta coluna sobre Crash – No limite, pessoas podem ser preconceituosas contra determinado grupo étnico e completamente abertas em relação a outra ““minoria”” e vice-versa – com ênfase nas aspas já que chamar 50% da população mundial de minoria é até matematicamente ridículo. Entretanto, mais do que no ser humano, preconceitos específicos podem ser encontrados em sociedades - já que o grupo fortalece a identidade de seus indivíduos diferenciando-os dos demais - e, em especial, na norte-americana. Tais contradições se ampliam nessa nação, que mistura seu lado tradicional e conservador com um impulso cosmopolita e hospitaleiro. Historicamente, os EUA foram formados por populações provenientes de diversas partes do mundo, e se orgulham disso. Ao mesmo tempo, são conhecidos (principalmente no sul e meio-oeste) como um dos países de maior preconceito, segregação racial e intolerância. Na própria persona ultra-americana de John Wayne convivem essas duas facetas: uma rude, bronca e conservadora com outra permeada pela ponderação e a aceitação. Ao mesmo tempo em que toma decisões irracionais e parte para a agressão física (como na seqüência de briga na lama), é considerado um conselheiro da cidade e seus conterrâneos ouvem respeitosamente sua opinião cuidadosa. Esse traço pode ser visto também nos momentos em que McLintock presta depoimento na audiência dos índios e na cena ao ar livre em que aconselha a filha.
Assim, o avanço no tratamento da questão com os índios não equivale a uma abertura para o progresso no relacionamento entre homens e mulheres. Por mais que se tente contextualizar a época e por mais envolvido que se esteja com a trama cômica e simpática, como ignorar uma cena em que o marido resolve seus problemas batendo na mulher? Em que uma mulher de opiniões e vontades próprias recebe a lição de moral de obediência e passividade diante do marido e da sociedade inteira? Shakespeare tem a desculpa do século XVI. Mas 1963... sei não.
A moral da história é de que não se deve contrariar o marido, nem querer se separar dele, sob pena de palmadas - figurativamente ou não. As relações de agressão física em relacionamentos amorosos foram discutidas no texto sobre Secretária e Nelson Rodrigues, em contexto atual, porém totalmente diferenciado desse. Lá, todos os envolvidos gostavam de sadomasoquismo e estavam dispostos a essa prática, situação totalmente diversa de uma pessoa querer bater e a outra fugir de apanhar.
O filme traz elementos interessantes, como a questão mencionada sobre os índios, atuações, diálogos e o humor. Mas este muitas vezes recai sobre as mulheres de forma pouco elegante (mas engraçada, não nego), como na cena em que McLintock apresenta sua linda funcionária “essa é a comida, oops, a cozinheira”. Na vida pessoal, Wayne foi casado três vezes, mas tem casos extraconjugais conhecidos publicamente, sendo um de três anos com Marlene Dietrich. Penso comigo “é ficção, é 1963, se passa nos cafundós dos EUA, não tente analisar profundamente filmes com proposta de serem puro entretenimento, não difame John Wayne”, mas é mais forte do que eu. E a concepção de homem que o filme propõe está tão exposta que não se pode menosprezá-la. Wayne faz um progresso com os índios, mas um desfavor às mulheres. Quem sabe não ficaria quite com uma mulher índia?
Filmes Citados:
Crash – No limite (Crash, 2004/ Paul Haggis)
Quando um Homem é Homem (McLintock!, 1963/ Andrew V. McLaglen)
Secretária (Secretary, 2002/ Steven Shainberg)







