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por Mariana Souto
Marcas da Vida - a imagem e a palavra
A contemporaneidade, sob várias formas, é o que está essencialmente em pauta em Marcas da Vida. A vigilância e a imagem estão em discussão nesse filme metalingüístico que parece um Janela Indiscreta da pós-modernidade, remetendo também ao mais recente Caché. Em todos eles, há em comum o olhar e o voyeurismo tão presentes na sociedade atual e a ampliação dessa temática para o próprio cinema, que também é imagem, aparências, parcialidade e subjetividade por ser montagem de pedaços do real, e janela para a vida alheia.
Kate trabalha como vigilante policial assistindo a telas de imagens captadas por câmeras espalhadas em uma região de Glasgow. Em dado momento, reconhece um homem de seu passado, ex-presidiário, e passa a segui-lo, não só pelas gravações, mas aproximando-se dele. Isso é toda a informação que o público recebe durante mais de uma hora de filme, além de indícios soltos como uma aliança na mão de Kate, uma foto de criança e a menção a enterros. Em alguns momentos, chega a ser ridículo o mistério criado pelo roteiro, que inventa situações para que as informações sejam ditas em pedaços. Um personagem está dizendo algo quando seu cachorro sai e ele vai junto, deixando uma frase crucial pela metade. O casal que se relaciona com Kate usa mais reticências do que palavras: “Isso foi logo depois de...”. Em Marcas da Vida, o que parece valer é a imagem e para isso, a diretora Andrea Arnold brinca de esconde-esconde com o público. Nessa parte do filme, a forma prevalece sobre o conteúdo e o deixa obscuro, como se reservado para mais tarde.
Ao contrário do público, a protagonista sabe tudo o que se passa e age de acordo com motivações ignoradas pelo espectador, que tenta fazer a montagem de um filme em sua cabeça, assim como Kate edita a realidade através da seleção de cenas em suas telinhas. Em sua vida vazia e perdida há 10 anos, ela vive através da imagem da vida alheia, como se acompanhasse capítulos de uma novela ou do Big Brother. Discute-se o poder de ilusão da imagem e sua relação com o real, já que o próprio filme insinua coisas que não correspondem à sua realidade. Kate desconfia das imagens do ex-presidiário e acaba perdendo o momento de um crime de garotas insuspeitas – meninas de 14 anos esfaqueiam uma colega.
Em geral, as informações recebidas pela visão são consideradas mais verdadeiras do que as demais e trazem consigo uma roupagem de credibilidade quase cega. Se nos é apresentada a imagem de um ex-presidiário em atitude suspeita e dúbia, seremos sugestionados a pensar que ele está de fato envolvido em algo ilícito. Se vemos imagens de meninas adolescentes correndo, aparentemente de forma ingênua, a tendência é pensar que estão brincando e se divertindo. Contudo, Clyde não estava agindo fora da lei, mas as garotas sim, ao contrário do que Kate pensava. Nesse caso, a diretora Andréa Arnold nos mostra na prática o poder de direcionamento da imagem e do seu potencial ludibriador. A própria Kate forja uma situação de estupro e a encena para a câmera. Mesmo sem ter acesso ao fato em si, as imagens de partes soltas de um evento são como peças de um quebra-cabeça - ou planos de um filme - montadas de acordo com deduções, mas também com inclinações pessoais. Unem-se a imagem da câmera de rua de Kate fugindo do apartamento de Clyde, a roupa rasgada, o rosto machucado e o corpo com sinais de relação sexual e equivale-se a estupro, mesmo que isso não tenha ocorrido. Nesse longa, a soma das partes é maior do que o todo.
Em muitos outros momentos, Marcas da Vida brinca com ilusões; coisas que parecem caminhar para um lado e vão para outro ou personagens que pretendem certa atitude, mas realizam outra. Stevie finge que vai jogar a namorada da janela, e não o faz, o que assusta a garota inglesa. Como acontece também no evento do estupro, além da sugestão visual, a paranóia moderna ocidental é determinante para o andamento de Marcas da Vida. Na contemporaneidade, um pequeno indício já alarma uma sociedade inteira e considera-se certo o que na verdade é dúbio. Todos são culpados até que se prove o contrário.
Com a discussão de temas relevantes como a privacidade, o papel da imagem e a falsidade das aparências, parece que os personagens perdem em importância para o espectador, que não os conhece e assim não consegue criar laços e desenvolver uma identificação. Talvez por isso às vezes o filme seja sentido como indigesto. Marcas da Vida parece uma obra feita para se levantar questões e discutir a imagem na contemporaneidade (e se assim for, eu caí direitinho) num veículo metalingüístico, que por sua vez também usa da imagem e está sujeito às suas características e falhas. Entretanto, o carisma que falta aos personagens é encontrado na fotografia e na trilha sonora (qualquer filme que use bem Radiohead merece crédito de simpatia). Não só o tema e a trilha, como a linguagem cinematográfica utilizam do contemporâneo, com traços da estética pós-moderna, por vezes lembrando o estilo de filmagem de videoclipe. A urbanidade aparece nos tons de verde e azul neon, na câmera na mão e na luz negra tão popular em festas dos anos 90 e 2000.
No decorrer do filme, o conteúdo da trama finalmente se faz acessível ao espectador e, se antes parece que o que importa é só a imagem, no desfecho vê-se a importância da palavra. A obsessão de Kate por Clyde se revela luto pela perda de pessoas queridas (nesse ponto do filme já era bem previsível) e pela culpa. A trama só se resolve – e o filme também – quando as coisas são finalmente ditas, desembuchadas, quando a palavra toma o lugar do silêncio e se sobressai em relação à imagem. Kate sente necessidade de falar sobre o ocorrido e procura Clyde para que este lhe conte sua versão da história, em detalhes. Se antes ela fugia de qualquer menção ao evento que destruiu sua vida, agora ela precisa falar e ouvir sobre ele.
Quando o sujeito consegue transformar sua dor em palavra é sinal de que está deixando a fase de sofrimento, em que tudo é tão intenso que sequer se pode descrever, para uma etapa de maior leveza no trato com o passado. A elaboração do luto da personagem só se dá pela lavação de roupa suja. E o que parecia um filme contido e discreto começa a virar melodrama latino. Isto não é dito de forma pejorativa, já que é interessante ver um povo frio e reservado se expressar e a catarse acontecer. Entretanto, Andrea Arnold comete alguns excessos dramáticos no desfecho do filme e chega aos limites do piegas ao usar um pássaro verde como metáfora para a esperança e para a chance de vida nova que se abre para a protagonista. Se Kate demora dez anos, Marcas da Vida leva vinte minutos para terminar e finalmente respirar livre de traumas e do peso do passado. Por fim, a forma e a visão deixam de prevalecer de maneira tão díspar em relação ao conteúdo e a palavra que, de tão menosprezados num momento em que eram necessários (para Kate, não necessariamente para o filme), irrompem com força duplicada e exigem seu lugar num filme que se pretende discutir a realidade, palco dessa dualidade que se alterna de forma constante.
Filme Citado:
Marcas da Vida (Red Road, 2006/ Andréa Arnold)







