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por Mariana Souto
Os Incompreendidos, a Criança e o Movimento
A inocência perdida (ou se perdendo) é tema de inúmeros filmes cujos protagonistas são crianças. A Língua das Mariposas, Cinema Paradiso, O Garoto, O Império do Sol e Filhos do Paraíso são exemplos de longas em que o personagem começa ingênuo, puro e infantil e, ao atravessar percalços variados - mortes, responsabilidades, guerras ou outros contextos de conflitos sociais - caminha em direção a uma vida adulta mais amarga e rude do que a que conhecia em seus tenros anos. Entretanto, poucos são os filmes que desde o início carregam em si uma visão da infância com características de malícia e perspicácia e não como uma fase totalmente angelical a ser corrompida.
Em Os Incompreendidos, Valentin, Pequena Miss Sunshine e Sleepers, somos apresentados a crianças espertas e vívidas, mas que também não chegam a ser mini-adultos - outro extremo encontrado nos filmes com Dakota Fanning e Haley Joel Osment. Tais atores mirins costumam interpretar papéis de crianças com discurso e postura de gente grande, muitas vezes mais responsáveis e maduros do que seus próprios pais, caso de Uma Lição de Amor e A Corrente do Bem. Dakota e Haley Joel são bem articulados, do tipo que dão entrevistas em programas de TV com desenvoltura, vocabulário formal e simpatia, como se tivessem vários anos a mais. São cute-cute apenas pelo tamanho P, que se torna interessante para o público no contraste com essa suposta inteligência, e não pela inocência ou ar infantil. Já os exemplos citados são de crianças reais, com vontades de criança, limitações de criança e molecagens de criança, por vezes ultrapassando os limites da bagunça e passeando nos terrenos da crueldade – sabe-se como elas podem ser cruéis, sem que isso implique necessariamente desvios de caráter. Nesses filmes, os pequenos pregam peças, matam aula, pintam o sete, experimentam bebida, mas também fazem cara de cachorro pidão ao ver sorvete, ficam felizes ao ganhar um caminhãozinho, brincam e gostam do afago da mãe.
Nessa perspectiva de leveza e molecagem de rua, François Truffaut filma Os Incompreendidos, uma obra com muitos traços autobiográficos; ele mesmo confessa que matou diversas aulas para ir ao cinema e que passou certo tempo em um reformatório. Talvez por isso seu roteiro soe tão próximo de uma real infância/pré-adolescência; sem auréolas e nem a presença do discurso adultificado dos dois loiros atores mirins. Obviamente, os roteiristas de filmes com crianças são adultos e escrever no linguajar de pessoas tão distantes de sua faixa etária não é tarefa das mais simples. Assim, provavelmente por ser um filme parcialmente autobiográfico, essa tonalidade de verossimilhança tenha fluído com mais facilidade.
Antoine Doinel, o protagonista e alter-ego (que aparece em filmes posteriores do Truffaut), é um menino cuidado de forma desleixada pelos pais, que já planejam, com oito meses de antecedência, como farão para se livrar dele nas férias. Antoine faz gozações com o professor em sala de aula e vagabundeia pelas ruas de Paris com seus amigos. É vítima da negligência dos pais, de um sistema de educação antiquado, mas também tem lá seus pecados e vive metendo os pés pelas mãos. Mata aula, passa trotes, desobedece, rouba dinheiro dos pais, foge de casa. Quando o professor lhe pergunta o motivo de sua ausência da aula, ele se vê sem saída e fala que a mãe morreu. Tal atitude ilustra o típico pensamento infantil, pouco eficiente em medir conseqüências. É evidente que o professor descobriria que Antoine estava mentindo e a punição seria rigorosa, mas isso tinha peso menor do que escapar da encrenca momentânea.
O protagonista de A Língua das Mariposas quando é flagrado em local indevido, sai correndo quando ouve a pergunta “o que você faz aqui, Moncho?”, como se correndo ficasse invisível e a pessoa se esquecesse do fato para sempre. Se fugir o livra do constrangimento da hora, nada mais importa. Crianças e adolescentes costumam ter esse tipo de raciocínio imediatista e por essas e outras precisam ser educados, para que não entrem em apuros buscando satisfações imediatas e nem joguem a vida no ralo só brincando e esquecendo que estudar, tomar banho e escovar os dentes é importante.
Como integrante desse comportamento imediatista, a fuga é uma das top 10 soluções de problemas mais cogitadas pelas crianças. Nada mais simples e inconseqüente do que abandonar o barco. Muitas vezes os planos de sumiço são tão refletidos e analisados quanto enfiar a cabeça no buraco ou se esconder debaixo da cama deixando os pés para fora – como faz Antoine. Crianças dificilmente pensam em mudar estruturalmente uma situação. Se estão gostando, querem ficar até tarde. Se não gostam, puxam a barra da saia da mãe para ir embora. O raciocínio tem uma espécie de lógica espacial – para acabar com um elemento aversivo, deve-se ficar longe dele e se possível fechar os olhos, pois quem sabe assim o mundo deixe de existir.
Os Incompreendidos trabalha essa questão espacial em vários níveis: o raciocínio da criança e sua leveza de passear por todos os cantos; a noção do próprio ser humano e dos locais onde ele é feliz, onde se diverte e onde se refugia; e abstraindo a questão para o próprio cinema, relacionando-se com as inovações de mobilidade que a nouvelle vague* procura trazer. O movimento francês teve como uma de suas idéias principais a leveza do fazer cinematográfico, filmando nas ruas, com câmeras móveis em contraposição a um cinema clássico de estúdio e quase sempre fixo no espaço. Os Incompreendidos é leve como Antoine Doinel e passeia alegremente pelas ruas de Paris, como que gostando de ser livre, feliz por estar fora de seu lar que mais parece um cubículo. Truffaut se diverte deixando de lado as limitações que o estúdio e a câmera fixa impõem aos realizadores, assim como Doinel só desfruta de momentos de felicidade quando está na rua, longe de seu apartamento apertado.
Para reforçar a idéia da rua como espaço de felicidade do menino em oposição ao seu lar e escola hostis, a trilha sonora marca as cenas externas com uma música alegre e saltitante. Já nas internas, quase nunca há trilha e nas poucas vezes em que aparece, ela é triste e melancólica. Antoine e seus pais quase que se revezam para caber no apartamento e o garoto dorme praticamente na cozinha, obstruindo a porta. Na sala de aula, ele vive sendo expulso ou mantido no cantinho, de castigo. Truffaut mostra que na família e no colégio o personagem não tem lugar, literalmente. E depois de tantos problemas, acaba parando enjaulado numa delegacia, passando para o camburão e, por fim, recluso em um reformatório. Antoine não é querido em nenhum lugar, sempre tratado como batata quente. Ele foge de casa, foge da aula, foge do reformatório em direção às ruas e ao cinema, lugares em que pode se sentir livre e exercitar sua fantasia e imaginação, sendo seu destino último o mar, símbolo máximo de liberdade e imensidão.
O primeiro longa de Truffaut fala sobre o aprisionamento do jovem em relação às suas obrigações, angústias e rejeições sofridas. Como um dos filmes ícones da nouvelle vague, combina bem seu conteúdo de liberdade e movimentação com o afastamento da fixidez da forma. Tanto a técnica quanto a trama buscam um local de satisfação, de alegria e de vivacidade, porém parece que não encontra nada disso em um só lugar, mas em diversos e, sobretudo, no movimento - com duplo sentido.
* Movimento artístico do cinema francês nos anos 60 marcado por uma vontade de transgressão das regras do cinema da época. Os autores mais expressivos são François Truffaut e Jean-Luc Godard.
Filmes Citados:
Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, 1988/ Giuseppe Tornatore)
A Corrente do Bem (Pay it Forward, 2000/ Mimi Leder)
Filhos do Paraíso (Bacheha-Ye aseman, 1997/ Majid Majidi)
O Garoto (The Kid, 1921/ Charles Chaplin)
O Império do Sol (Empire of the Sun, 1987/ Steven Spielberg)
Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, 1959 / François Truffaut)
Uma Lição de Amor (I am Sam, 2001/ Jessie Nelson)
A Língua das Mariposas (La Lengua de las Mariposas, 1999/ José Luis Cuerda)
Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006/ Jonathan Dayton e Valerie Faris)
Valentin (Valentín, 2002/ Alejandro Agresti)







