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por Mariana Souto
Cocais, A cidade reinventada*
por Mariana Souto
Ao fazer um filme sobre psicóticos, corre-se o grande risco de esbarrar em alguma forma de estereotipia. Isso pode acontecer tanto por uma visão esquemática do diretor sobre o assunto como pelo próprio objeto filmado, que muitas vezes carrega, de fato, a estereotipia como um de seus sintomas. Cocais, A Cidade Reinventada, a princípio, se enquadra na segunda opção, mas aos poucos percebe-se que talvez não seja bem assim.
O documentário registra diversos momentos da diretora na cidade e os variados programas culturais desenvolvidos com os psicóticos. Vemos alguns personagens falando para a câmera e outros entretidos em suas atividades. Entretanto, na maioria das vezes a câmera é fator ativo no registro e por vezes distrai as pessoas filmadas daquilo que estavam fazendo, causando uma certa paralisação, ainda que sorridente. A câmera de Inês Cardoso às vezes é sentida como invasiva, incômoda e, mesmo que no fim das contas seja para o bem, não deixa de causar uma perturbação.
A câmera cola nos rostos, analisa suas rugas, ronda o sujeito para tentar extrair algo dele. Em muitos momentos, passa a impressão de que, acima das pessoas, seu interesse é o tique, o dissonante. O fato de a maioria dos falantes trazerem em si algum tipo de loucura facilmente perceptível leva a crer que “a visão esquemática” do diretor está, sim, presente em Cocais, mesmo que não seja algo consciente. O resultado pende para esse lado provavelmente devido ao trabalho de montagem, com a seleção quase que exclusiva de comportamentos que chamem atenção. Em uma cena, assistimos a várias pessoas dançando, e a câmera se dirige justamente àquela que destoa do grupo, que se move de maneira não usual. O curta gera ambigüidades se nos questionarmos por que motivo devemos olhar para essa determinada pessoa, dentre todas as outras. A câmera de Inês parece irremediavelmente atraída por tudo o que é saliente, seja um louco, um sapateador frenético, ovelhas passando entre camas.
Em Cocais, A Cidade Reinventada, não há a naturalidade do tratamento a toda e qualquer pessoa, não importando seu diagnóstico. É um filme que, apesar de poético em sua forma artística e com algumas imagens de grande apuro estético (como a do cinema), não busca a sutileza, o cuidado. Gera até mesmo a impressão de que a equipe entrou na cidade para sacudi-la, tanto que a afirmação orgulhosa da reinvenção e do movimento provocados a partir do trabalho é estampada em toda parte: na tela ao fim do filme, na sinopse e também no próprio título.
*Visto no 10º Festival Internacional de Curtas de BH.
Filmes Citados:
Cocais, a Cidade Reinventada (idem, 2008/ Inês Cardoso)








