por Mariana Souto

Morangos silvestres e Desconstruindo Harry

Alguns eventos marcantes na vida de um ser humano, como o nascimento de um filho, uma demissão ou o recebimento de um prêmio ou título honorário provocam um intenso processo de auto-avaliação. Em Morangos Silvestres, o professor Isak Borg faz uma viagem em direção à Catedral de Lund, onde será feita uma cerimônia em sua homenagem pelos 50 anos de medicina. Nessa trajetória, ele percorre algumas fases de sua vida, relembrando momentos, visitando a mãe idosa e se deparando com personagens que remetem a algumas fases de sua existência.

A viagem de Isak surge como metáfora para o caminho percorrido em sua própria vida, um processo de auto-análise necessário para o professor, que assim decide fazê-la longamente de carro - e não de avião, como havia sido planejado - para vivenciar mais a fundo cada etapa dessa jornada de imersão no passado, experimentando novamente cada um dos sentimentos de culpa, pavor, ciúmes, nostalgia e remorso, sendo que muitos deles misturados. No caminho, Borg visita um local onde passou sua infância e adolescência e se depara, mais tarde, com três jovens caroneiros, que também o remetem à sua juventude, sendo que Sara, uma dos três, é idêntica a uma moça que foi sua namorada. Encontra-se também com um casal que se relaciona com extrema hostilidade, fazendo com que se recorde de sua falecida esposa.

Todos esses eventos levam o protagonista a recapitular seu longo percurso até os 78 anos de idade, suscitando traumas e culpas pelo passado. O professor passa por uma espécie de purgatório, angustiado por não saber se seu comportamento foi digno do céu ou do inferno. Com a proximidade da morte, é atormentado por sonhos absurdos que funcionam como alegoria para sua tortura mental já que, apesar da idade, sente-se como um menino na sala de aula diante de um rígido professor, aguardando por sua avaliação. Porém, o que está em jogo não são suas habilidades matemáticas, mas sua própria vida – seus feitos, relacionamentos e atitudes.

Também entre o céu e o inferno está Harry Block, personagem de Woody Allen em Desconstruindo Harry, filme de 1997. Embora pertença a uma cultura e um contexto completamente diversos e tenha um tom predominantemente cômico, Allen é assumidamente fã de Ingmar Bergman. Influenciado temática e filosoficamente por ele na maioria de suas obras no que diz respeito ao trato de culpa, morte e existência de Deus e inspirado de forma mais direta nas mais intimistas e de maior peso dramático como Interiores e A Outra, baseia seu roteiro na mesma premissa do diretor sueco – um escritor faz uma viagem para uma cerimônia em sua homenagem na universidade na qual estudou. A abordagem, próxima do ano 2000 e no contexto americano, de um assunto retratado em um filme de 1957 por um cineasta da península escandinava revela como o discurso de Bergman sobre a humanidade é universal e tem o poder de repercutir e se comunicar com pessoas tão diferentes, mesmo 40 anos depois.

Se Bergman utiliza de alegorias expressando a culpa de Isak, ora em formato de sonho, ora em formato de visões, Allen as utiliza quase sempre de forma difusa com a realidade. O professor Isak sonha consigo mesmo em um caixão, representando seu temor pela proximidade da morte e as dúvidas levantadas na avaliação do valor de toda uma vida. Sonha com relógios, que também marcam sua preocupação com o tempo e as dimensões desordenadas de passado, presente e um futuro que talvez não chegue a existir. Acordado, passeia por sua casa antiga, assiste a cenas entre sua família e até interage com personagens do passado. Mesmo ocorridas em um passado distante, as sensações evocadas são tão fortes e vívidas que lhe parecem reais; consciente, inconsciente, sonho e alucinação se mesclam a todo momento. Já em Desconstruindo Harry, uma cena realista é seguida por uma de Harry descendo ao inferno, local montado com ares de fantasia pela direção de arte, com fotografia avermelhada, fogo e tridentes. No filme de Woody Allen, a fantasia tem função de piada e escracho decorrentes de uma situação real patética. Se Bergman é elegante e profundo na utilização de metáforas e alegorias do estado mental de seu personagem, Allen praticamente arma um circo para falar de suas confusões, usando o recurso de artificialidade para acentuar a neurose e o ridículo de Harry. A própria trama sugere tal mistura de ficção e realidade, já que o escritor usa elementos de sua vida para o desenvolvimento de seus romances - o que lhe causa muitos problemas, pois seus conhecidos estão sempre insatisfeitos com a forma pela qual são retratados.

Harry imprime nos livros sua percepção sobre os fatos e pessoas que o cercam. Com visão artística, deforma sua realidade tornando-a objeto de espetáculo. Como ele mesmo diz, “nossas vidas consistem de como nós escolhemos distorcê-la”. Seu imenso potencial artístico consegue render-lhe frutos na arte, mas de nada o ajuda na vida pessoal, sempre conturbada. Entretanto, se não fosse uma vida tão rica em conflitos e tormentos, talvez não tivesse um interessante material bruto para sua arte. Como se sabe, Woody Allen não é uma pessoa de muita paz na esfera privada, mas alcançou muito sucesso profissional, o que leva o público a crer que quando fala de Harry, está falando de si mesmo. A dimensão autobiográfica de Desconstruindo Harry não é lá bem um segredo, já que ele mesmo diz “sou eu, levemente disfarçado”.

Tanto Morangos Silvestres como Desconstruindo Harry parecem filmes com toques autobiográficos, de diretores avaliando sua carreira e seu real mérito diante de tamanha repercussão e premiações no mundo cinematográfico. Isak, personagem de Bergman, não coloca em xeque seu merecimento profissional, mas suas posturas pessoais, seu egoísmo e sua indiferença. Sabe-se solitário e responsável por isolar pessoas à sua volta. O plano inicial do filme mostra o professor de costas para a câmera, reservado em sua individualidade e entretido em sua escrita. Já Harry, de Woody Allen, questiona sua maturidade, fidelidade e suas mentiras, mas também sua capacidade criativa, já que passa por um bloqueio.

Ao lidar com a falta de idéias para novas produções, muitos escritores e cineastas acabam encontrando arte em seu próprio processo de inspiração e construção de uma obra. Tal fenômeno pode ser visto também nos casos de Federico Fellini em 8 ½, dos irmãos Coen em Barton Fink ou de François Truffaut em Noite Americana, por exemplo. Harry Block (de sobrenome sugestivo), após sua jornada tanto de deslocamento físico quanto emocional, redescobre a inspiração perdida em sua própria vida. O mesmo pode ser considerado sobre Woody Allen em relação ao filme, possivelmente escrito em um momento de reflexão sobre sua profissão, o material para criação e as questões éticas envolvidas no uso desse material, por ser proveniente de sua vida e de pessoas do seu convívio. Uma coisa é a coragem de se expor para milhões de pessoas e outra bem diferente é levar seus conhecidos junto.

À parte de especulações sobre o que a obra de cada diretor revela sobre sua personalidade, é fato que Morangos Silvestres e Desconstruindo Harry lidam com a solidão. Ambos mostram homens de sucesso profissional, reconhecidos pela comunidade, mas que encontram dificuldade para conseguir um mísero acompanhante na viagem para receber o título. Isak vive sozinho com sua empregada, que se recusa a participar de sua jornada de carro. Quem o acompanha é a nora, que não disfarça o fato de não gostar dele e está interessada apenas em chegar ao destino e encontrar-se com o marido. Os caroneiros, tanto os três jovens como o casal hostil, estão ali mais por força das circunstâncias do que por laços emocionais com o médico. Harry só consegue companhia pagando uma prostituta e seqüestrando seu filho. Pede a um amigo que não via há tempos que o acompanhe, mas este nega. Aparece no último minuto só para morrer e estragar a já azarada viagem.

O caminho de Isak e Harry é percorrido também pela câmera, que se desloca mais do que corta. Bergman costuma dar fluência à trama e às relações entre os personagens movimentando a câmera de um para outro, fugindo do habitual plano/contraplano. Trabalha com atores tão talentosos e se dedica tanto à direção de elenco que parece não poder deixar de lado nenhuma ação ou reação de um diálogo. Como num processo de descoberta, a câmera revela aos poucos, mostrando primeiro um personagem e depois abrangendo o interlocutor através de movimentos horizontais e de zoom out. Woody Allen se apropria dessa opção de linguagem cinematográfica de Bergman ao fazer Desconstruindo Harry, já que seu personagem, apesar da idade e da aparente estabilidade profissional, também está se descobrindo e descobrindo o mundo. Contudo, usa também de cortes rápidos (jump cut), que quebram a ação em pedacinhos, escolha que encontra justificativa numa fala do fechamento do filme - “vivia uma vida fragmentada, disjuntada” - referindo-se ao seu tempo confuso e perdido.

Por fim, a viagem para receber o título honorário acaba sendo apenas uma oportunidade para uma intensa reflexão pessoal. No caso de Bergman, este processo assume contornos existenciais, de imersão com profundidade em sua essência em um momento em que a morte está próxima, ameaçadora. No caso de Allen, a trajetória visa ao amadurecimento de um homem de meia-idade, com perspectivas de mudanças a partir de uma reelaboração. Isak percebe suas falhas e sua arrogância no trato com as outras pessoas, passando agora a ser mais humilde, grato e a procurar contato com os demais, o que pode ser visto em sua mudança de atitude em relação à empregada. No fim, ele propõe que se chamem pelo primeiro nome, depois de décadas de relacionamento. Harry agora é mais consciente de suas escolhas e entende as conseqüências de suas traições e mentiras.

Assim como o título honorário de Isak, a morte de Bergman também traz a necessidade de avaliação e de reflexão sobre sua obra e legado. Assistindo a Morangos Silvestres, é possível ver seu impacto em filmes e cineastas atuais, o que indica uma pequena parte da repercussão de sua arte, que é muito maior e mais profunda do que as apropriações contemporâneas e tem sua relevância no cinema, e mesmo no mundo, assegurada independente delas.

Filmes Citados:
8 ½ (idem, 1963/ Federico Fellini)
A Outra (Another Woman, 1988/ Woody Allen)
Barton Fink (idem, 1991/ irmãos Coen)
Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, 1997/ Woody Allen)
Interiores (Interiors, 1978/ Woody Allen)
Morangos Silvestres (Smultronstället, 1957/ Ingmar Bergman)
Noite Americana (La nuit américaine, 1973 / François Truffaut)