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por Mariana Souto
A Vida é um Milagre: a bagunça de Emir Kusturica
Enquanto atravesso o habitual dilema de como iniciar o texto, chacoalho ao som imaginário da música contagiante do curta Blue Gypsy, de Emir Kusturica, que acabo de rever no DVD de Crianças Invisíveis. A trilha, aliás, pode ser um bom ponto de partida para abordar o trabalho do diretor bósnio.
Além de cineasta, Kusturica é também músico junto com sua The No Smoking Orchestra. A utilização da música em seus filmes tem função muito maior do que simples ambientação e pontuação. Ela estimula os personagens, é sinônimo de energia e vitalidade entre os meninos presos de Blue Gypsy e é tão indispensável no longa Underground que a própria banda fica em cena, seguindo os personagens por todo lugar a ponto de incomodá-los. A música é também um dos elementos responsáveis pela construção de um certo tumulto nas ações - traço estilístico central em suas obras.
Em muitas cenas, mistura-se a música exaltada com vários personagens falando ao mesmo tempo, animais zanzando, explosões de guerra, coisas caindo do teto e gente tropeçando. O efeito confuso gerado é semelhante ao de uma pintura de Pieter Bruegel (foto), em que tanta coisa acontece que não se sabe ao certo para onde direcionar o olhar. A montagem alternada de A Vida é um Milagre em vários momentos ressalta a simultaneidade de acontecimentos. Não por acaso, Shakespeare é citado várias vezes, numa alusão a algumas de suas tramas rocambolescas (principalmente as de comédia), mas neste caso ao invés de Muito Barulho por Nada, faz-se estardalhaço por tudo. Qualquer coisa é motivo para atirar para cima, gritar e dançar.
Como se não bastasse tamanha confusão, a câmera ainda passeia e faz movimentos arrojados, sendo mais um estímulo para o espectador prestar atenção. Ou pode ser que funcione mais como um direcionador de olhar, o que em teoria facilitaria a apreensão do filme. Contudo, em nenhuma das duas hipóteses deixa de ser um participante bastante ativo. Em A Vida é um Milagre, a câmera entra na sala em que a banda ensaia e é tanta bagunça no ambiente que ela parece oscilar e ir de um ponto a outro para achar um lugar confortável e assim poder observar.
Toda a confusão presente nos filmes de Kusturica faz sentido se pensada de acordo com algumas dimensões de seu contexto: sua origem iugoslava e seu pertencimento a uma geração que exala a contemporaneidade. Proveniente de uma região de eterno conflito e convívio de múltiplas etnias, culturas e religiões - quase nunca de forma harmoniosa – acaba utilizando-se dessa bagunça como recurso artístico, fazendo uso do cinema para simbolizar as vidas que precisam prosseguir em meio a guerras e discórdias. Em vários de seus filmes, Kusturica aborda a guerra, com maior ou menor ênfase. Se em Underground ela é central e em Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios importante, em A Vida é um Milagre funciona mais como pano de fundo para as relações entre os personagens. Não se fala de política, mas retrata-se o seu impacto na vida das pessoas. Como um dos personagens diz a Luka “essa não é a sua guerra particular, é de outros”. Para quem está numa guerra civil em que um dos motivos é o exacerbado nacionalismo dos habitantes, os personagens estão muito preocupados com o amor, com o futebol e com o canto.
As múltiplas preocupações são integrantes da vida de praticamente toda pessoa na pós-modernidade. Atualmente, as pessoas se dividem em exigências domésticas, sociais, profissionais, financeiras, políticas, conjugais e mais tantas outras. Não que isso não houvesse antigamente, mas nas últimas décadas a correria está acentuada, o trânsito é caótico e os prazos são para ontem. As pessoas passam roupa, vêem o jornal, dão bronca no cachorro, atendem telefonemas de negócios, ficam de olho na panela e colocam o filho para fazer o dever – tudo ao mesmo tempo. E até as crianças tentam se organizar em meio a compromissos de escola, reforço, inglês, natação, balé, computador.
Mesmo não usando de um discurso direto sobre a contemporaneidade nem sobre a política, Kusturica mostra como ambas influenciam e invadem a vida das pessoas. Até dentro de casa, a guerra causa um impacto que chega a ser literal - a casa treme e o telhado começa a ruir. E se a jornalista internacional, parte do mundo contemporâneo globalizado, pergunta ao filho “Milos, você está preparado para morrer pela liberdade da Bósnia?”, ele arrota no microfone, demonstrando seu pouco caso. Mas ainda que se jogue pela janela a TV que noticia os bombardeios, o conflito continua a acontecer.
A guerra invade e atropela a família de Luka tal qual o trem que passa por cima de seu terreno. O protagonista procura viver em sua casa, num mundo isolado dos demais e fechando os olhos para a possibilidade de eclosão do conflito. Encara a vida como se fosse a maquete que construiu, onde pode brincar de Deus (ou de prefeito), manipular tudo ao seu redor e viver feliz. A esposa faz o alerta - “você chama isso de vida?”. O diretor aproveita para também dar o recado: não, seu filme também não é a vida. Em uma fala de Underground, deixa claro que “a verdade só existe na vida real. A arte é uma mentira”.
Kusturica faz seus filmes como quem monta uma maquete, um simulacro de realidade. Mistura a realidade de guerra e sofrimento com fantasia - faz camas voarem, espetáculos de ciganos, coreografias no presídio, caravana de casamento trombar com uma de velório, garotos sonâmbulos andando pela cidade sonâmbulos e uma mula apaixonada tentando suicídio na linha do trem. Em alguns momentos usa fumaça em cena para ressaltar o clima onírico, como na partida de futebol de A Vida é um Milagre. Apesar da contradição, a utilização do irreal se torna um artifício que afirma ainda mais a dureza da realidade já que o humor é sua forma de enxergar o absurdo do mundo. A saída cômica para o que na verdade é trágico não diminui a percepção do real como fonte de dificuldades e talvez atinja o espectador de forma mais eficaz, pois assim sente empatia pelo que vê e se identifica com as pessoas. Se para o menino a vida é tão dura com a família, foge para dentro da prisão. Se para o casal a vida é tão dura na Bósnia, sonham em morar com pingüins na Austrália.
Seja pingüim, mula, peru ou cachorro, em quase toda cena de Kusturica há um animal e, citando os de sua filmografia em retrospecto, já é possível montar um zoológico. O roteiro traz uma humanização dos animais ao conferir-lhes sentimentos de gente e participação na narrativa. Funcionam também como metáfora para o lado indomável e emocional do ser humano, sobretudo o de cultura bósnia/sérvia. A natureza e o instinto dos personagens interferem em suas atividades e em seu juízo. O trem que traz o progresso e a civilização precisa seguir seu trilho, mas encontra obstáculo na mula que empaca, que se apaixona loucamente e que sofre. A natureza animal e incontrolável está sempre no caminho do ser humano - e muitas vezes as imposições da sociedade contemporânea, das normas sociais e da tecnologia são sentidas como atropelo.
Numa análise de algumas das obras de Emir Kusturica, é possível perceber sua visão de homem e de mundo. O diretor enxerga no indivíduo contemporâneo uma forte resiliência, já que mesmo em meio a condições adversas de guerra ou outras dificuldades, demonstra a capacidade de trabalhar, festejar, amar, se relacionar e sobreviver no meio de um turbilhão. Seu personagem Luka dirige o carro, segura o guarda-chuva e toca flauta simultaneamente – como quem consegue conduzir a vida, se proteger dos percalços e ainda fazer arte. A retratação da mais do que atual habilidade de “se virar” e dar conta de um mundo confuso e conflituoso talvez explique um pouco de seu sucesso e repercussão (com duas Palmas de Ouro em Cannes, entre outros prêmios) nos anos 80 e 90.
Filmes Citados:
A Vida é um Milagre (Zivot je cudo, 2004/ Emir Kusturica)
Crianças Invisíveis (All the Invisible Children, 2005/ Mehdi Charef, Emir Kusturica, Spike Lee, Kátia Lund, Jordan Scott, Rodley Scott, Stefano Veneruso, John Woo)
Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios (Otac na sluzbenom putu, 1985/ Emir Kusturica)
Underground (idem, 1995/ Emir Kusturica)








