por Mariana Souto

Amadeus e Maria Antonieta - entre o histórico e o contemporâneo

A retomada de algum personagem ou momento histórico longínquo pelo cinema contemporâneo nos revela mais sobre nosso próprio tempo do que muitas vezes imaginamos. Em primeiro lugar, a própria escolha de determinada figura em detrimento de uma imensa gama de possibilidades já aponta para sua compatibilidade ou interesse para o momento presente. Em segundo, a interpretação que roteirista/diretor conferem a determinado evento passado carrega consigo muito da contemporaneidade, já que o contexto histórico de qualquer ser humano influencia sua visão e apreensão de mundo. Assim, torna-se quase impossível narrar e imprimir na tela uma história antiga sem a mediação do tempo a partir do qual se fala – o presente com seus paradigmas, seus valores, sua ética e até mesmo sua visualidade. Portanto, uma análise de outro tempo é em grande parte um estudo do próprio presente. Nesse sentido, todo filme é um documentário de seu próprio tempo.

 

E isso não acontece apenas com obras que lidam com o passado, mas também com o futuro; diversos filmes futuristas realizados nos anos 60 têm visualidade sessentista, o que é perceptível através dos penteados, maquiagem, figurino, uso de cores, fotografia e direção de arte. Não tratam exatamente do futuro, mas sim da expectativa de um futuro vista a partir de determinado ano. Inevitavelmente, as marcas do que era, na época de realização do filme, o tempo presente estão impressas na tela, pois a concepção que uma pessoa, cercada por determinado contexto, tem de determinada época não pode ser absoluta e a-histórica, mas sim relativa, moldada por sua origem.

 

Alguns ícones do passado são, aos poucos, esquecidos. Outros, por uma conjuntura de fatores, ressurgem. Tais fatores dizem respeito ao presente, uma época que sente necessidade de abordar determinada figura ou fato e mantê-los vivos como oportunidade para reflexão ou para expressar algo de si que lhe é latente.  Assim acontece, por exemplo, com Carlota Joaquina, personagem que morreu há quase 200 anos e que não deixa de ser atual para representar certas características brasileiras de hoje e de sempre: humor, luxúria, ambição, sujeira, corrupção, insatisfação com o país e vontade de ir para outros lugares e países mais “nobres” - sentimento, aliás, bastante típico dos anos 90 e seu deslumbramento com a vida nos Estados Unidos e Europa.

 

Carlota Joaquina chega numa época de baixa auto-estima do povo brasileiro, que sente desgosto e desprezo pelo próprio país após o desastre do governo Collor, sentimento que, como aponta o crítico Pedro Butcher no livro “Cinema Brasileiro Hoje”, é muito forte na personagem da rainha esposa de D. João VI, culminando na famosa frase que fecha o filme “Desta terra, não levo nem o pó!”. Características brasileiras semelhantes foram retomadas em 1969 com Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, adaptando obra seminal de 1928, escrita por Mário de Andrade.

 

Este texto, no entanto, buscará aprofundamento em dois exemplos de biografias históricas bastante sintomáticas do momento em que foram feitos – Amadeus (1984), de Milos Forman, e Maria Antonieta (2006), de Sofia Coppola, curiosamente sobre figuras contemporâneas no século XVIII. Certamente, uma obra de arte não é apenas representação de seu tempo e história, mas uma conjugação complexa entre estes elementos e a expressão de um artista e suas peculiaridades, contendo em si propriedades estéticas potentes e únicas. Nesse texto específico, por questão de foco, houve uma escolha por exercitar o olhar a partir deste primeiro ângulo, inserindo a obra em uma globalidade e buscando sua relação com toda uma teia espaço-temporal.

 

Amadeus

 

O filme de Milos Forman é uma biografia de Mozart, compositor que viveu de 1756 a 1791. Fugindo do tratamento sério e que se pretende fiel no que toca à reconstrução de época e de fatos históricos que são típicos de muitos filmes situados nesse período, o diretor tcheco constrói o personagem de Wolfang Amadeus Mozart como uma figura excêntrica, exagerada e vulgar. Ainda que se tenha notícia da ousadia e do exagero do músico, o personagem em Amadeus é marcado constantemente pelo superlativo. É provável que Milos Forman (e o roteirista Peter Shaffer, que também escreveu a peça na qual se baseia o filme) tenha se interessado por essa característica original do músico para acentuá-la ainda mais na representação fílmica.

 

Pensar no filme à luz de seu contexto histórico/social/cultural é procurar apreendê-lo para além de si mesmo enquanto produto finalizado. A visão que temos sobre determinada obra se enriquece e ganha outras nuances quando em diálogo com seu tempo. Assim, podemos dizer que Amadeus não é o retrato fiel de Mozart, mas uma representação de Mozart construída por determinado diretor, muito influenciada pelo momento em que estava – os anos 80*.

 

A extravagância e o excesso são características peculiares dessa década, expressas no comportamento, na cultura e nas artes em geral. Assim, buscamos Mozart por possuir essas características. E, ao representá-lo, o revestimos com mais dessas características. Resultado: o acúmulo do próprio excesso. Mas trata-se aqui de um acúmulo interessante em seu efeito artístico, elucidativo de várias questões.

 

O excesso em Mozart se dá a ver em diferentes aspectos, desde a genialidade musical até a vaidade e o hedonismo. Em duas cenas do filme o vemos sendo criticado por suas composições terem “notas demais”. Sua risada é marcante e excessiva, debochada. Suas apresentações são performáticas, espetaculares, como na cena em que toca piano de cabeça para baixo e mãos trocadas. As festas que freqüenta são barulhentas, vulgares.

 

O Mozart de Milos Forman é tão superlativo que chega a extrapolar as possibilidades humanas e flertar com o divino. Salieri, o músico mediano, não tem vez. Nos anos 80, celebra-se o excesso. O músico rival constantemente coloca Mozart como abençoado, em estreita relação com Deus (o próprio nome Amadeus ressalta essa qualidade). É interessante perceber como essa forte admiração à figura de Mozart dialoga com a valorização do corpo, do prazer, da sensualidade e até do vulgar que marca a década de 80. Em ambos os casos, a divindade está no mundano, cultua-se o que é terreno.

 

A construção do personagem também se dá por uma via característica dos anos 80: o ícone pop. A vaidade de Mozart é demonstrada por suas roupas e penteados extravagantes. Em determinada cena, ele experimenta três perucas, sendo duas delas excêntricas: uma cor de rosa, outra com fios curtos e arrepiados. Os tecidos de seus trajes são mais brilhantes e de cores mais fortes que os usados pelos demais personagens. Sua aparência, obviamente guardadas as devidas proporções, parece a de um ídolo de glam rock ou punk rock, talvez David Bowie ou Billy Idol. A retomada de Mozart em tempos de “endeusamento” de Madonna e Michael Jackson e da eleição de uma celebridade (o ator Ronald Reagan) para presidente certamente não soa como acaso.

 

amadeus

 


Com isso, não se quer dizer que o tratamento impresso a Mozart por Milos Forman em Amadeus se dê de forma superficial, banalizada ou exaltada – pelo contrário. Aqui apenas se contextualiza a obra, procurando identificar elementos que a inserem em seu tempo. As proximidades de Amadeus com o universo pop não o diminuem; Milos Forman foi feliz ao abordar a convivência próxima do divino com o mundano, do fútil com o profundo, do vulgar com o genial e seus entrelaçamentos. Mozart era superlativo em todos os sentidos: tanto as mais nobres quanto as mais baixas características humanas coexistiam nele.

 

Maria Antonieta

 

O filme de Sofia Coppola retrata a garota austríaca de 14 anos que se casa com Luís XVI (então Luís Augusto) em 1774 e se torna a rainha da França. Trata-se de uma concepção bastante subjetiva da personagem, filtrada pelo olhar da jovem diretora. Assim como Milos Forman, Coppola e equipe também se distanciam do tratamento predominante encontrado nos filmes de época, desde a construção do personagem, passando pela narrativa até sua estética.

 

O olhar de Sofia Coppola sobre esta figura histórica acaba dizendo muito sobre a contemporaneidade, sobretudo sobre a juventude e seu estar no mundo. Maria Antonieta é vista como uma jovem despreparada para a vida e suas responsabilidades e que se vê em um lugar de precocidade. Talvez a idade com que se casou ou se tornou rainha não seja tão díspar do que acontecia com outras moças da época, mas o que conta nesse processo é sua relação com o atual, o impacto para quem assiste hoje. O fato de Antonieta ser uma jovem sem condições de lidar com seus fardos, insegura e deslocada em seu ambiente comunica muito sobre nosso atual estado de coisas.

 

O deslocamento e o sentimento de não pertença são fundamentais em Maria Antonieta; na verdade são fundamentais também na filmografia de Coppola, muitas vezes vistos no “ser estrangeiro” de Encontros e Desencontros e seu trabalho com o foco. A rainha francesa é também uma estrangeira, já que vem da sombria Áustria e em todo momento a vemos deslocada no meio da pompa da corte, com algum personagem lhe explicando como se dão determinados rituais e formalidades. O uso do focado/desfocado também se faz presente nesse filme, ressaltando essa qualidade – o personagem afastado, desprendido, diferente do seu redor.

 

A trilha sonora é mais um elemento que reforça o deslocamento, como se personagem e ambientação se estranhassem. Sofia Coppola utiliza músicas contemporâneas, geralmente indie rock, para pontuar as cenas produzindo um efeito de aparente incompatibilidade entre audição e visão, um desajuste. É interessante perceber como, na verdade, a trilha se harmoniza com o filme pois é funcional para a proposta da diretora e assim um possível incômodo inicial se dissolve em prol de um efeito comunicativo. Curiosamente, as músicas que se originam do interior da cena (como instrumentistas presentes tocando para o casal real em suas refeições) são eruditas, ajustadas no tempo, enquanto a trilha colocada “artificialmente” é contemporânea, como um olhar posterior, externo, da diretora sobre os eventos ocorridos.

 

A própria inserção do gênero do rock sinaliza o diálogo com o universo jovem contemporâneo, o questionamento e a insatisfação que lhes são peculiares. A música e o rock, especificamente, também são referências usadas na composição de toda a atmosfera de Maria Antonieta. O clima dos anos 80, revisitado pelo estilo indie nos anos 2000, reverberam sua decadência e melancolia no filme da cineasta. Algumas referências se dão de forma indireta, por exemplo pelo prisma romântico e excêntrico pelo qual se olha para o século XVIII e para o próprio século, ou de forma direta, como a brincadeira do tênis All Star no meio dos sapatos antigos. No making of, é relatado que a referência usada para a construção do Conde Fersen, amante da rainha e figura que recebe seu fascínio, era Adam Ant, astro punk cujo auge se deu nos anos 80.

 

 O comportamento festeiro e por vezes inconsequente de Maria Antonieta e sua nobre trupe soam como uma resposta ao ócio, outro traço fundamental ao se falar da juventude contemporânea. O tédio e a falta de sentido de vida que a afligem são combatidos com álcool, guloseimas e diversão. Sofia Coppola alterna cenas de profundo tédio (como a da rainha em um pequeno barco no Petit Trianon) e cenas de intensa movimentação e festa, como se uma coisa fosse complementar à outra, talvez não necessariamente numa relação de causalidade, mas ambas imbricadas e relacionadas a extremos de uma mesma alienação.

 

Maria Antonieta é uma adolescente festeira não muito diferente das que vemos hoje em dia. Por ser um personagem de época, ela é quase uma desculpa para a estilização e a glamourização da condição dos jovens dos anos 2000. Nas celebrações, como na cena do baile de máscaras, com um pouco de abstração vemos uma turma contemporânea numa festa à fantasia, se divertindo com os trajes e a pompa. A atuação de Kirsten Dunst reforça essa impressão por ser clean, natural, despojada. O elenco não fala com sotaque.

 

Além de revelar, nas entrelinhas, muito sobre o jovem de hoje, Maria Antonieta manifesta-se especialmente sobre a mulher. Diz um pouco sobre sua condição diante de homens inseguros, perdidos, que se confundem sobre seu próprio lugar a partir da emancipação e de uma reconfiguração do poder feminino. O filme trata da perspectiva da personagem a partir dela mesma, ou seja, da visão da própria Maria Antonieta e talvez por isso tenha uma estética absolutamente feminina. Cores como rosa e vermelho são usadas sem parcimônia, assim como guloseimas variadas são parte integrante da arte e da composição dos ambientes, criando todo um “conceito do confeito”, com o perdão da rima. Uma das personagens refere-se à rainha dessa forma: “Ela parece uma fatia de bolo”.

 

bolo

 


Talvez tudo isso denote um pouco a forma como a própria Maria Antonieta de Sofia Coppola via o mundo, como se a vida e o sofrimento não existissem além do seu mundo de fartura e beleza – até que a revolução chegasse. Coppola problematiza a famosa frase “se eles não têm pão, que comam brioches” e lhe dá um estatuto de boato, fofoca, mas nem por isso Maria Antonieta consegue se livrar da alienação e da futilidade. Mas, segundo Coppola, essas características convivem com outras tantas e não são necessariamente contrárias à profundidade: “Você é considerado superficial e tolo se se interessa por moda, mas eu acho que você pode ser profundo e ainda assim interessado em frivolidades”. Oscar Wilde tem uma frase que complementa o tema: “somente as pessoas superficiais não julgam pela aparência”. Maria Antonieta tem nuances, contradições e recebe um tratamento delicado e respeitoso da diretora, ao mesmo tempo em que não é poupada da abordagem de suas falhas.

 

O filme trabalha a composição visual a partir do presente, como se aquele momento estivesse sendo de fato vivenciado, e não rememorado ou visto de forma longínqua. Não há uso de sépia; não se vê marrom, bege nem tons similares. Estamos diante de uma foto que ainda não desbotou. O filme se afasta das tonalidades comumente usadas no período, como azuis, negros e vermelhos fechados. A paleta de cores abrange os tons pastéis e o surpreendente magenta ou rosa-choque, que inclusive compõe a arte dos créditos e a concepção visual da divulgação. Muitas vezes se usa câmera na mão.

 

doces

 


Tanto Sofia Coppola como Milos Forman tratam do registro do passado com complexidade, numa imbricada relação entre os tempos e a forma como se relacionam e se influenciam. Abordam até mesmo a subjetividade e a impossível parcialidade ao lidar com o histórico em traços semelhantes: em ambos os filmes há uma forte disparidade entre imagem e som. Tanto em Amadeus como em Maria Antonieta, muitas vezes assistimos a uma cena e ouvimos vozes de personagens, ora nem identificados, comentando sobre o que se passa de forma opinativa. Enquanto vemos Maria Antonieta andando pelo palácio ou envolvida em outras atividades, sussurros em off fazem comentários e fofocas sobre ela. O mesmo acontece em Amadeus, sejam murmúrios de intrigas, diálogos abafados, reverberações de falas de outras cenas e até mesmo músicas prontas quando o personagem ainda está na fase de composição, muitas vezes ouvimos essas vozes e sons que tecem interpretações a partir das cenas.

 

Seja por serem figuras importantes e polêmicas, alvo de muita atenção e curiosidade, ou pelo fato de sofrerem uma elaboração externa que se transforma com o passar do tempo, tais recursos que promovem um descolamento entre imagem e som parecem atentar para a questão da construção coletiva e histórica do personagem. Mozart e Maria Antonieta são seres de domínio público, que passam por um efeito de telefone sem fio, deformação, projeção, desfiguração. Se atravessam anos, décadas ou séculos é porque a história e a arte os mantêm vivos e talvez suas personas digam algo não somente sobre um tempo, mas sobre o ser humano ou sobre a própria humanidade.

 

* A peça de Peter Shaffer data de 1979 e, portanto, não se situa exatamente na década de 80, mas às suas vésperas. No presente texto, contudo, foi construída uma argumentação focada no filme, até mesmo por não termos tido acesso à representação teatral.

 

Filmes Citados:

Amadeus (idem, 1984/ Milos Forman)

Carlota Joaquina – Princesa do Brazil (idem, 1995/ Carla Camurati)

Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006/ Sofia Coppola)