por Mariana Souto

O Ninho Vazio, As Leis de Família e O Abraço Partido – impressões sobre o cinema de Daniel Burman

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Em determinado momento de As Leis de Família, Perelman pai e Perelman filho conversam sentados no balanço de um parque. O enquadramento fecha-se aos poucos no pai enquanto este ouve o filho falando, sempre com a mesma expressão contida. A conversa é trivial e aparentemente não há nada ali. Ao mesmo tempo, a cena é carregada de significado e de uma emoção sutil. Daniel Burman utiliza de pequenos detalhes em situações corriqueiras que evidenciam a presença latente de um vazio, de uma crise que não se localiza num primeiro plano de apreensão, ainda que a sensação de falta ou de que algo não está bem, à revelia do que se vê, encontre dificuldades para ser descrita verbal ou mesmo visualmente.

 

O texto, propositalmente corriqueiro, é um grande índice das relações entre os personagens e, em sua simplicidade, reflete as dificuldades de expressão entre os mesmos. Um simples “Melhorou da gripe?” “Sim, chupei balas de mel” transmitem, além de naturalismo e proximidade do espectador com os personagens, a sensação de afeto. Os protagonistas de O Abraço Partido, As Leis de Família e O Ninho Vazio, os únicos filmes de Daniel Burman lançados comercialmente no Brasil, são homens com dificuldades de manifestação de sentimentos na linguagem oral, mas capazes de gerar empatia com o público através de gestos, expressões e até mesmo de seu mau humor.

 

O cinema de Daniel Burman é um cinema de entrelinhas; sutilezas dão o tom destes três filmes em que as relações dos personagens com os mais simples objetos são expressivas. A ambientação realizada pela direção de arte é cuidadosa ao compor espaços de forma discreta, quase invisível, reforçando o realismo das histórias. O escritório entulhado ao lado de uma sala vazia, enfeites comprados para agradar Norita e objetos presenteados de vários clientes dizem tanto sobre o advogado Bernardo Perelman quanto a própria narração de As Leis de Família. Cada loja da galeria em que se passa O Abraço Partido conta muito sobre seus proprietários. Os quartos dos filhos de Leonardo, em O Ninho Vazio, traçam o perfil de seus ocupantes, mesmo que eles quase não apareçam durante o filme.

 

Daniel Burman procura trabalhar os objetos como representantes de algum tipo de sentimento constante nos personagens, colocando-os na ação de forma sutil. Alguns são motivo de humor, outros possibilidades metafóricas, poéticas ou conectivas. São objetos que aparecem como detalhes em meio a toda uma composição e não são “explorados” em prol de um determinado efeito, seja cômico, interpretativo ou outro. Sugerem algumas leituras, mas não as entregam de forma determinista ou única. Como exemplo, indico uma possível percepção a partir de três objetos de presença marcante em O Ninho Vazio: o livro do genro, o cachecol esvoaçante da jovem dentista e o aviãozinho de controle remoto. Todos têm em comum a cor vermelha e podem ser relacionados ao momento de crise em que se encontra Leonardo, suas aspirações, suas dificuldades.

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Há vários elementos em O Ninho Vazio que dizem respeito à liberdade do ar, ao flutuante, muitas vezes num sentido próximo do de suspensão. Além do aeroplano e do cachecol da dentista que balança em câmera lenta ao vento, Leonardo e Martha bóiam nas águas salgadas do Mar Morto, numa das principais – e mais líricas – cenas do filme. Outras cenas se passam dentro de elevadores, mais uma expressão da suspensão, mas utilizada pelo filme com outros sentidos: ao entrar lá, Leonardo parece dar vazão às suas fantasias, como se estivesse em um lugar diferente da realidade, em um limbo existencial.

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Esses pequenos detalhes que remetem ao flutuar se relacionam com o próprio roteiro de Daniel Burman, que pressupõe uma narrativa pautada na suspensão; após a introdução, em que vemos Leonardo e Martha em um jantar, há um descolamento da trama para um tempo suspenso, um purgatório de acontecimentos. Esse mundo paralelo imaginativo do protagonista chega ao fim num momento em que conflui com o mundo real e, a partir daí, a trama retoma seu curso – provavelmente alterado pelos eventos fantasiosos. O Ninho Vazio é uma pausa no tempo para imaginar os vários “se”. Leonardo tem necessidade da suspensão, dessa fuga que lhe traz um respiro. Existe um embate, um desencaixe entre a vida ideal e a vida real em que ambas se influenciam, se interpelam, se cotejam. Desse confronto, cria-se uma terceira instância, a ficção – ou a vida ficcionalizada.

 

O registro desses eventos se dá, da mesma forma, por uma câmera flutuante. O Ninho Vazio tem uma estética de câmera na mão suave; não é fixa no tripé e nem balança bruscamente. Pode-se dizer que existe uma instabilidade sustentada, que oscila com certo amparo, amortecida, já que a suspensão acontece da perspectiva confortável de quem não está vivenciando aqueles momentos. Estes são imaginados por Leonardo a partir do conforto do sofá, mas com certa dose de angústia e apreensão. Esta opção estética se difere dos dois trabalhos anteriores de Burman. Em As Leis de Família, a câmera permanece quase sempre fixa, no tripé, com movimentos lentos de aproximação, como se imergisse aos poucos na rotina e nas relações de Ariel Perelman. Grande parte dos planos deste longa de 2006 são realizados dessa maneira.

 

O Abraço Partido segue a opção da câmera na mão trepidante e movimentos bruscos de zoom in e out que dizem respeito a uma situação de crise menos sutil do que nos outros filmes; aqui ela é mais aflorada, talvez relacionada à juventude do protagonista e seus rompantes sexuais com a moça loira da lan house, seu desejo urgente de sair do país ou um sentimento forte de rancor com o abandono do pai. Em vários planos, acompanhamos Ariel correndo desembestado pelas ruas, dando vazão a uma energia e a um vigor juvenis, misturados também com uma boa quantidade de ira e vontade de fuga.


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Entre os três filmes citados, O Abraço Partido parece ser o que mais trata da crise econômica argentina, mesmo que sutilmente. Alguns dos comerciantes da galeria passam por dificuldades financeiras, assim como o irmão de Ariel, que trabalha com importações e precisa lidar com o dólar. Há também uma questão de identidade nacional fortemente presente, já que o personagem, por fuga de sua própria realidade ou por falta de identificação com seu país natal, sonha em se mudar para a Europa e ser polonês. A própria galeria parece um mosaico da história argentina, com imigrantes de origens diferentes em cada parte – uma loja de coreanos, outra de italianos, etc. O Abraço Partido lida com os dilemas de se abandonar a pátria em uma época de crise, seja ela pessoal ou nacional.

 

Se estéticas diferentes no uso da câmera perpassam O Abraço Partido, As Leis de Família e O Ninho Vazio, algumas questões temáticas os tornam próximos. Em todos, as relações familiares são centrais, mas com atenção especial para as que ocorrem entre pais e filhos. Existe até uma – coincidente ou não – continuidade cronológica: em O Abraço Partido, o protagonista é um jovem solteiro com sentimentos rancorosos em relação ao pai. Em As Leis de Família o protagonista tenta conciliar suas questões com o pai, advogado de sucesso que lhe passa o bastão, com suas novas responsabilidades com o filho de 2 anos de idade. Já em O Ninho Vazio, o protagonista é o pai que precisa lidar com o fato de que os filhos saíram de casa.

 

Em As Leis de Família, esse difícil entremeio entre ser filho e ao mesmo tempo ser pai é tamanho que Ariel se vê espremido entre os aniversários de um e de outro. Para ele mesmo, não há festa. O personagem se define pelo espaço que há entre estas duas figuras – se espelha no pai, se projeta no filho. Nessa medida, é um filme sobre o passar do tempo e o passar de gerações. Como centro de interesse, para Daniel Burman, está o homem e a forma como o sexo masculino se relaciona com a família. Ainda que os filmes sejam afetuosos e delicados, Burman aborda a figura masculina em seu mau humor, teimosia e em sua resistência em lidar com sentimentos e conflitos. Há, em Leonardo, personagem de O Ninho Vazio, uma aparente amargura que o torna ranzinza, anti-social e intolerante, características que brigam com sua ternura e carinho. Nesse sentido, se parece com a persona de Jack Nicholson, sobretudo em Melhor é impossível – são ambos personagens mal humorados e sistemáticos que se rendem, aos poucos, à sua própria natureza terna, muitas vezes evocada pela presença do feminino ou pelo amor. Assemelha-se, também, aos personagens construídos por Domingos de Oliveira, mas sem sua típica prolixidade.

 

Mais do que nos personagens, a ternura está no olhar de Daniel Burman. Ternura esta que não implica ingenuidade, já que o diretor argentino demonstra uma madura visão de mundo e de ser humano. É compreensivo e crítico ao mesmo tempo, delicado e sagaz, específico e abrangente. Trata de questões corriqueiras como família, casamento, profissão e conflito de gerações de uma forma sensata, inteligente e ao mesmo tempo apaixonada por aquilo que vê, acolhendo tudo o que esses temas evocam tanto de grandioso como de trivial. Há, nos filmes de Burman, um profundo respeito pelo pequeno, pelo homem de classe média em seus problemas, interrogações, desejos, estreitezas de espírito ou grandezas de caráter, que resulta num cinema emotivo, singelo e elegante sem cair na pieguice.

 

Filmes Citados:

O Abraço Partido (El abrazo partido, 2004/ Daniel Burman)

As Leis de Família (Derecho de família, 2006/ Daniel Burman)

O Ninho Vazio (El Nido Vacío, 2008/ Daniel Burman)

Melhor é Impossível (As good as it gets, 1997/ James L. Brooks)