por Mariana Souto

Sem Controle

por Mariana Souto


Não tenho nada contra a apropriação brasileira de gêneros que não são muito filmados no cinema nacional e que geralmente são associados a outros países, como os EUA. Não penso que ao fazer isso seríamos ‘colonizados’ culturalmente e acho que podemos sim nos expressar através de filmes de suspense e ação, que não são exclusividade americana. Mas é um assunto a ser estudado o fato de que quase nunca essa apropriação dá certo por aqui.

Sem Controle começa como um drama de um diretor de teatro em uma crise após o fracasso de seu último espetáculo. Além do grande investimento financeiro e emocional, Danilo se identificava pessoalmente com a peça, que trazia Motta Coqueiro como personagem principal - um homem vítima de uma injustiça e o último a ser condenado à pena de morte no Brasil.

Depois de passar por uma crise nervosa, Danilo vai parar num hospital psiquiátrico e lá acaba oferecendo uma oficina de teatro para os pacientes. Juntos, eles montam novamente a peça O Último Enforcado. A partir daí, realidade e ficção se misturam num roteiro que abusa da perversão de uma personagem somada à falta de discernimento de todos os demais. Os personagens da clínica são quase sempre estereotipados e em seus pequenos momentos na tela, já demonstram algum maneirismo, tique ou sintoma aflorado.

A situação se agrava a partir de um momento chave: a revelação de Aline, com quem Danilo estava tendo um caso, de que também é uma paciente. A cena é pontuada pelo grave da trilha e a partir daí o filme adquire um clima pesado de revelação e reviravolta. Aline, que até então era a única a não ter a loucura estampada no rosto, passa a ter olhares maquiavélicos e poses autistas. A câmera, na mão desde o início, se rende por completo à loucura, assim como a montagem à excessiva fragmentação, com cortes breves e constantes.

Do plano mirabolante dos pacientes em diante, o filme perde sua verossimilhança - que já não andava bem das pernas - e vira uma caça às bruxas no meio da mata atlântica, com ares de A Vila e O Sacrifício, ambos filmes de perseguição e isolamento. A falta de lógica e a impossibilidade daquelas pessoas de terem armado algo tão profissional de um dia para o outro tira a atenção do que está para acontecer. Nesses momentos finais, direção de arte e figurino – que poderiam ser considerados bonitos isoladamente - assim como as locações muito apropriadas para a peça do Motta Coqueiro, acabam sendo falhas ao invés de acertos por não se adequarem à proposta narrativa e conceitual do amadorismo do teatro e da impulsividade daquelas pessoas.

Mesmo quando os personagens não estão ensaiando, alguns diálogos soam teatrais e não têm boa fluência. O texto muitas vezes se pretende poético e cheio de brincadeiras de linguagem até interessantes, mas que causam certa estranheza e sensação de deslocamento do universo que o filme tenta construir.

Se o suspense ou thriller não funciona em Sem Controle, não é por falta de recursos técnicos. A fotografia e a direção de arte fazem um filme bonito plasticamente, com as lembranças do personagem granuladas e belas cores. O filme de Cris D’amato parte de uma premissa interessante que lida com a necessidade que muitas pessoas têm de reviver e atuar um trauma para que se consiga elaborá-lo, mas se perde em alguns percalços do caminho, sobretudo no tratamento estereotipado dado aos personagens e nos exageros do ato final.

*Visto na 1ª Mostra CineBH.

Filmes Citados:

Sem Controle (idem, 2007/ Cris D’amato)

A Vila (The Village, 2004/ M. Night Shyamalan)

O Sacrifício (The Wicker Man, 2006/ Neil LaBute)