por Mariana Souto

Se eu fosse você 1 e 2




Em uma comédia em que marido e mulher trocam de corpos, as causas do fenômeno são o de menos; o que importa é ver as conseqüências para um e outro, as confusões e os apertos pelos quais passam. Não se espera uma causa verossímil e nem que o filme se atenha muito a explicações. Mas ser algo secundário não significa que deva ser levado com desleixo. Em Se eu fosse você 2, a explicação se resume a uma introdução confusa sobre como o aquecimento global afeta a vida das pessoas somada à cena em que, mais tarde, o casal sofre a troca simplesmente porque fala simultaneamente uma frase – a que dá nome ao filme - no elevador. E destroca quando a filha, em seu casamento, joga o buquê, que bate no lustre do salão, aparentemente se energiza e cai nas mãos de Cláudio e Helena ao mesmo tempo. A não ser que o lustre fosse encantado, as causas são ridículas e incoerentes.

No primeiro filme, a explicação girava em torno do raro alinhamento entre a Terra com Marte e Vênus – planetas que remetem ao masculino e feminino, respectivamente – somada a uma certa superstição de duas pessoas falando a mesma coisa ao mesmo tempo: “Se eu fosse você!”. Da mesma forma, o casal destroca seus corpos quando os planetas se desalinham. Já que se trata de uma premissa fantasiosa, é perfeitamente possível aceitar a justificativa dos planetas, mas a do buquê foi simplesmente preguiçosa; é quase chamar o público de burro. 

Não só as explicações para o fenômeno da troca parecem fruto de desleixo; boa parte do roteiro do filme parece ter sido pautado na preguiça de pensar e na sensação de que qualquer furo passaria batido para um público considerado pouco exigente ou pouco inteligente. Em Se eu fosse você 2, o motivo para o divórcio de Helena e Cláudio não transmite a menor coerência. Sabemos como as coisas caminham hoje em dia, mas anos de casamento rompidos por uma viagem de férias cancelada pelo marido? Com esse motivo tão mal elaborado, toda a nossa compreensão é abalada nos vários momentos em que Cláudio quer reatar e Helena se recusa.

Imagino a reunião de produtores e diretor para a discussão de Se eu fosse você numa grande mesa, elencando temas a serem abordados a partir da premissa troca de sexos para que depois o roteiro fosse desenvolvido. A lista deve ter ficado assim: 

Universo Feminino

Universo Masculino

menstruação

preocupação com o trabalho e as finanças

compras

futebol

depilação

ódio à sogra

dieta

whisky

salão de beleza

imprudência no trânsito

  

Depois, na minha imaginação, devem ter resolvido adicionar uns personagens para complementar: a secretária gostosa, o adolescente bobão, os amigos que contam piada suja, as amigas que fofocam. Pronto! Escreve um roteiro aí, a gente produz em um mês e filmamos em outro.

Para o Se eu fosse você 2, as mesmas pessoas se sentaram, pegaram a lista antiga e pensaram no que mais poderiam acrescentar. Compras a gente repete, futebol a gente mantém a cena da Helena fazendo embaixadinha porque aquela foi legal e expande um pouco. Hum, que tal gravidez? Podemos falar de traição também, mas claro, sem manchar a honra do casal, afinal Helena e Cláudio se amam e são boas pessoas.

 

A impressão é a de que tudo foi rodado às pressas, talvez para que o lançamento caísse nas férias, aumentando, assim, a bilheteria. Muitas cenas foram rodadas com duas câmeras ao mesmo tempo, uma coisa bastante comum na TV e a correria de seus capítulos diários de novela, mas um luxo para nosso cinema. Na cena de apresentação do coral, no primeiro filme, 4 câmeras foram usadas. Nada contra o cinema de interesse estritamente comercial, feito com bons recursos; o problema é que a pressa aqui transparece. Já que a lógica é a do produto, pelo menos que seja de qualidade, mas a falta de cuidado com elementos essenciais como câmera, enquadramentos e montagem salta aos olhos. E, falando em interesses comerciais, a relação com os patrocinadores parece um tanto esquisita.

 

Se eu fosse você 2 conta com um merchandising descarado, de uma forma que sugere uma imposição contratual dentro da obra, interferência que pode soar negativa para a própria empresa. A Sky, uma das patrocinadoras do filme, além da já suficiente grande cartela nos créditos iniciais, se coloca dentro do filme incisivamente, tanto estampada na tela da TV de Cláudio como na boca dos personagens. Redecard, outra patrocinadora, aparece duas ou três vezes nos pagamentos que o personagem faz. Em Se eu fosse você 1, os patrocinadores eram apresentados de forma um pouco mais discreta. Aproveitando-se de que o protagonista Cláudio trabalha com publicidade, colocaram quadros de anúncios dessas empresas nas paredes de sua agência. A incoerência é que no filme a agência é considerada pequena, uma “agenciazinha”, como diz o sócio Marcos, e está à beira da falência.

 

Tanto o primeiro como o segundo filme se apóiam basicamente numa premissa com potencial cômico e no desempenho de seus atores experientes e carismáticos. Nesse sentido, Tony Ramos se destaca e é dos principais motivos do riso do público. Mas ainda que sua atuação não caia na caricatura, a sensação é a de que ele representa simplesmente uma mulher bem feminina, e não Helena, personagem de Glória Pires. Cláudio se envolve em atitudes e comportamentos que Helena nunca teria. Pelo pouco que conhecemos de sua verdadeira esposa no início do filme, dificilmente ela entraria numa piscina e faria movimentos de nado sincronizado, como acontece no SEFV 1.

 

Parece que marcar as diferenças de forma muito exata entre homem e mulher foi a forma que Daniel Filho viu de seu filme funcionar comicamente e ressaltar a troca. Se eu fosse você é um desfavor no que tange a questões de gênero em sua insistência em apenas reforçar estereótipos, nunca discuti-los e muito menos quebrá-los. Ambos os filmes giram em torno do típico feminino e do típico masculino, sem meio-termo, rosa-choque e azul-anil, marcas da logo criada para o filme, cores aliás bastante utilizadas por sua direção de arte.

 

Não há nenhum tipo de nuance no filme: homens são azuis, mulheres são rosa. E é isso. A única ambigüidade é se chocolate é o doce que deve ser evitado para não engordar ou se é o tom da tintura do cabelo – piada fraca entre Helena e sua amiga no salão. Uma montagem paralela reforça a oposição entre esta cena em que as mulheres conversam sobre estética e outra em que Cláudio luta uma arte marcial berrando grosso com um amigo.

 

Vivinha, a mãe de Helena, em determinado momento diz “Mulher foi feita para fazer compra”, ao que a filha responde “Mamãe, você acabou de defender uma pérola do pensamento machista”. A verdade é que o filme inteiro é uma pérola do pensamento machista e sem o menor resquício de visão crítica - aliás, devido a uma visão igualmente estereotipada dos homens, consegue ser tanto machista como feminista de botequim ao mesmo tempo. Em outra cena, a personagem de Lavínia Vlasak comenta com Helena que elas só se encontram em função dos eventos dos maridos, e ambas riem e fica tudo por isso mesmo, como se o filme de fato acreditasse que o valor da mulher é nada mais do que ser o apoio do marido. Afinal, por trás de um grande homem, sempre existe uma grande mulher.



Helena reclama que Cláudio não lhe dá crédito e só a vê como uma mulherzinha quando na verdade quem faz isso, antes de qualquer um, é o próprio filme. Mas se o filme é depreciativo para a mulher, também não é muito generoso com o homem, sempre representado como figura tosca ou agressiva. E nem com o amor, com o casamento, com o trabalho, com a amizade, com a família – nada escapa da futilidade e da superficialidade. Se a filha Bia se casa grávida aos 18 anos, o que importa ao filme é a decoração da cerimônia e a vestimenta dos convidados. Quando Helena se deita no divã do terapeuta para falar de seus problemas, Daniel Filho faz um plano bem fechado em sua boca, afinal, mulheres falam demais, não é?

 

Se eu fosse você apenas finge que vai provocar uma reflexão sobre a valorização do sexo oposto, com o reconhecimento das dificuldades que cada um enfrenta, para na verdade mostrar que Cláudio e Helena tiraram suas funções trocadas de letra. O final do primeiro filme é de longe mais constrangedor, com a apresentação da 9ª sinfonia de Beethoven do coral de Helena transformada em funk (afinal, Daniel Filho deve pensar que o espectador popular é incapaz de apreciar música erudita), mas o casamento típico de final de novela com todos os atores do segundo filme dançando coreografias também não passa batido.

 

Assim como a batida funk da música erudita, Se eu fosse você utiliza vários recursos para uma pretensa dinamização da narrativa. Montagem rápida com telas divididas, trilha sonora de academia, gruas e tomadas aéreas aparecem sem muita função narrativa, a não ser tornar o filme mais palatável e divertido para um público que se supõe de baixo nível cultural. Que os cineastas e produtores nacionais subestimem o público e lhes ofereçam verdadeiras bombas disfarçadas em um padrão de qualidade já é bastante preocupante. Mas o mais alarmante é que o público as aceite de bom grado, como parece ser o caso.

 

Filmes citados

Se eu fosse você (idem, Daniel Filho / 2006)

Se eu fosse você 2 (idem, Daniel Filho / 2009)