por Mariana Souto

Um Tigre de Papel, de Luis Ospina

por Mariana Souto

 

Ao apresentar a sessão, o diretor Luis Ospina fala que seu filme joga com os limites entre verdade e mentira. Interessante ele ter usado essas palavras e não “real e ficção” pois, de fato, Um tigre de papel pode ser descrito como uma mentira extremamente bem contada. Assim, pode ser considerado filho do gênero do mockumentary, sendo irmão de Zellig, Borat ou da série The Office, por exemplo, e apenas primo distante de filmes como Jogo de Cena e Santiago, esses sim filmes que trabalham mais especificamente com os limites do real e da ficção.

 

Luis Ospina prega uma peça no público de forma tão bem arquitetada que foi possível ver espectadores ao fim da sessão perguntando-lhe se Pedro Manrique Figueroa era mesmo uma pessoa muito conhecida na Colômbia. Dá para imaginar a diversão do roteirista/diretor escrevendo toda a história, convencendo pessoas importantes a participar dando depoimentos fictícios e, finalmente, rindo secretamente na platéia enquanto percebia o envolvimento do público com a história de Figueroa.

 

Mas não se trata de uma simples brincadeira, já que a história de Figueroa se mistura com a própria história da Colômbia. Ospina utiliza seu personagem fictício para abordar todo um contexto político e histórico dos anos 30 até a atualidade e o faz com conhecimento de causa. Pedro Manrique Figueroa é uma espécie de Forrest Gump, Wally da história – atravessou diversos momentos importantes não só de sua nação mas do mundo. E concretizou sua vivência e seu olhar para os fenômenos e personagens históricos através de seu trabalho artístico com colagens. O próprio filme, nesse sentido, é uma colagem, a reunião de diversas épocas, pessoas, pensamentos e lugares numa obra só.

 

Em Um Tigre de Papel a tela é, muitas vezes, um emaranhado de informações. Cada pessoa fala em uma língua diferente, um letreiro na tela diz quem é essa pessoa e qual sua profissão, um outro letreiro diz onde o depoimento foi filmado, logo vem uma imagem de arquivo, mistura-se preto e branco com cor, vozes em off, letras na tela, animações – e assim o próprio filme de Luis Ospina se torna uma colagem. Seu título remete ao falso, a um ser imponente que na verdade é feito de matéria frágil – o que vale tanto para o imperialismo dos EUA como para a figura construída em torno de Figueroa. Ironia é que ele tenha se envolvido em falsificação de dinheiro.

 

Figueroa foi tão fantástico e tão versátil que em algum ponto do filme os mais céticos começam a desconfiar de sua veracidade, sobretudo porque não há registro dele – ninguém tem fotos e quando ele aparece em vídeo está fantasiado. Ainda que comece a ficar improvável, sua existência não deixa de ser possível; alguns documentários entusiastas tratam com a mesma idolatria e perplexidade figuras reais, como Vinícius. Esses elementos, no entanto, são menos furos de construção e mais pistas da falsidade e contêm humor em si mesmos, potencializando a diversão do filme.

 

Filmes citados

Borat (idem, 2006/ Larry Charles)

Jogo de Cena (idem, 2007/ Eduardo Coutinho)

Santiago (idem, 2007/ João Moreira Salles)

Um tigre de papel (Um tigre de papel, 2007/ Luis Ospina)

Vinícius (idem, 2005/ Miguel Faria Jr)

Zelig (idem, 1983/ Woody Allen)