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por Mariana Souto
Abril Despedaçado
Sei que o filme já saiu há 6 anos, todo mundo já deve ter comentado, críticas devem ter pipocado na época do lançamento e que está mais em tempo de falar de Walter Salles e seus projetos em andamento, como Linha de Passe ou On the Road. Talvez até mesmo voltar a questionar Água Negra. Tudo bem. Mas o que eu posso fazer se pensando nos filmes que vi essa semana, na escolha por um tema para a 13ª edição do Filmes Polvo, nenhum me inspirou tanto quanto ele? Resolvi correr o risco de chover no molhado, torcendo para que isso não aconteça, até porque o filme é bem árido (e com a irresistível piada infame toda a justificativa para escrever esse texto vai ralo abaixo. Ops, mais uma).
É inevitável que a elaboração da questão do tempo e do ciclo salte aos olhos. As atuações são irrepreensíveis. A linguagem é a clássica das clássicas. Mas por que ainda assim sinto tanta necessidade de falar sobre Abril Despedaçado? Para começar, o talento plástico de Walter Salles hipnotiza a cada plano - a maneira como enquadra, a composição dos planos e a articulação entre fotografia e direção de arte; tudo sempre muito bem composto, mas com propriedade, acompanhando os personagens e o roteiro. Ao falar de estética, não usei o termo “hipnotiza” por acaso, já que muito da trama usa também de símbolos hipnóticos, dessa vez factuais, como relógios, pêndulos e tudo o mais que marca tempo, mesmo que figurativamente – o balanço em seu movimento de vai e vem, a bolandeira que roda para moer a cana, a moça do circo que gira em torno da corda. Tudo conspira para que se passe a idéia do eixo a que aquelas pessoas estão presas - as guerras entre famílias, o ódio e a vingança que se mantêm mais por tradição do que por qualquer outro motivo. E na cultura do olho por olho, o patriarca da família rival já perdeu dois.
A cultura da região de Riacho das Almas, que secou e só deixou as almas, perpetua-se como numa engrenagem já programada há muitos e longínquos anos. A tradição é carregada pelas gerações como um peso nos ombros em dias de sol quente ou como os bois que puxam a bolandeira sem consciência de suas ações. Cada membro da família se insere de uma forma na engrenagem – Pacu leva a cana, Tonho a mói e a mãe tira o bagaço – sob o comando do pai, que marca o ritmo sonoro do ciclo com seus gritos repetidos de “iá iá , vamo meu boi, vamo meu cavaco, iá iá, vamo meu boi, vamo meu cavaco”. Nos cafundós do sertão em 1910, faz-se aquilo que a tradição dita e não se ousa questionar.
Na imensidão dos planos quase sempre abertos de Walter Salles, o homem é pequeno diante de seus costumes, integrado ao ambiente rural, diminuído frente ao espaço e as condições de sua terra. Tonho está preso e diminuto naquela paisagem com tudo o que vem no pacote: a seca, a miséria, a cultura, o trabalho árduo. O jovem, próximo da fila a ser executado pela guerra de famílias, é de alguma forma diferente de seus parentes, até mesmo fugindo do biotipo nordestino. Selecionado propositalmente ou não, fato é que Rodrigo Santoro tem a altura dos outros membros da família somados e traços que mostram sua diferença em relação aos demais, talvez numa antecipação de seu comportamento que produz uma ruptura. No entanto, seu tamanho e força diante da imensidão do espaço e do tempo, representado nos enquadramentos amplos do sertão, não fazem nem cosquinha em toda aquela arcaica estrutura social.
Arcaica como sinônimo de antiga, mas não necessariamente primitiva. Abril Despedaçado é baseado em livro homônimo de Ismail Kadaré, cuja trama se passa numa paisagem de neve na Albânia entre as famílias Berisha e Kryeqyq, mas que provavelmente teve como ponto de partida a tragédia grega. Walter Salles se apropriou de uma história albanesa para falar do sertão, mas que teria aplicações em diversas culturas. As questões envolvidas podem ser vistas também na base da estrutura da máfia italiana, com suas famílias rivais e vingativas que vão exterminando filho de lá por filho de cá ao longo das gerações. Vingança e o fardo das tradições são questões tão universais que mesmo tratadas na particularidade de uma região distante provocam forte identificação.
Esses temas talvez sejam tão universais porque ultrapassam as diferenças entre governos, países ou nações. E daí a grandiosidade do filme - algumas vezes confundida com pretensão - que fala de um jovem do sertão, mas aborda uma dimensão essencial das tradições humanas que determinam, e muitas vezes condenam, a vida de tanta gente em tantas culturas. Esses acontecimentos se dão de acordo com códigos não escritos, leis informais e subentendidas de cada comunidade e atravessam gerações, transmitidos pela oralidade. O código de Abril Despedaçado estabelece condições para a honra das famílias. Segundo essa lógica, o caminho para se alcançar ou recuperar a honra perdida é matar. A cultura obriga o indivíduo a ser assassino, mas também se redimir e consentir ser assassinado. A honra acaba por ser uma instância maior do que o indivíduo, do que o grupo e do que vida ou morte. E todos fazem com que essa ideologia se perpetue, não importa sua funcionalidade ou preço.
No sertão de Walter Salles, apesar dos costumes e do ódio há muito estabelecidos, alguns elementos surgem no sentido de uma quebra em direção à liberdade. Pacu, ao ler um livro, imagina a história de uma sereia e de tão absorto esquece de levar a cana para moer – seus sonhos o deixam afastado de alimentar a engrenagem que move toda aquela organização familiar e social. E eis que na paisagem árida surge Clara, moça dos olhos verdes, cor de mar, que enxerga além do sépia e do horizonte conhecido por Tonho e Pacu. No chão de terra batida, a jovem do circo anda leve de perna de pau e fica um pouco mais próxima do céu. A direção de arte que vinha trabalhando tons variados de rapadura agora se ilumina com as cores diversas - de céu, de mar, de amor, de alegria - do espetáculo e do livro de Clara.
A moça artista traz também a magia do circo e a possibilidade de viajar a outras terras, mas sobretudo o sentimento do amor, raro para Tonho, que tinha sua vida conduzida pelo ódio, ainda que alheio e imposto. A Clara sereia, nas fantasias de Pacu, vem do mar e das águas que nunca se lembram de visitar o sertão, nem em formato de chuva. Ao mesmo tempo, cospe fogo em rajadas e seduz com luminosidade potente a platéia do vilarejo, que passa a noite nas penumbras das velas.
Clara é um prenúncio do que está por vir. A trégua entre as famílias vai terminar com a chegada da lua cheia – mais um ciclo – e Tonho está condenado à morte. O pai, símbolo da geração passada e transmissor dos costumes, lhe diz para calar a boca, mas Tonho não quer se calar. Ele conhece o amor, conhece a chuva e se livra da tarja preta em seu braço, que registrava a morte anunciada. Está dividido entre a tradição da honra e a vontade de viver e ser livre para decidir. Com a ajuda do acaso e do azar (ou sorte), surge espaço para o desabrochar de uma subjetividade oprimida por uma lógica que não era a dela e que não lhe fazia sentido. A ruptura de um ciclo custa uma vida e subverte toda uma ordem, mas traz a oportunidade de renovação, de liberdade de escolha, de encontro com o mar aberto e todo um oceano de possibilidades.
Com a ruptura de um abril despedaçado, Tonho tem a possibilidade de ver maio chegar. O personagem libera-se de um eixo que o mantinha preso, de um caminhar em círculos, de um movimento pendular eterno e, ainda que essas metáforas sejam muito claras para um público já “treinado”, o efeito é de beleza impactante e verdade apaixonada. É possível sentir a vontade de imersão e vivência numa lógica talvez estranha às cidades ou aos tempos atuais. E essa é mais uma justificativa para esse texto – manter viva a memória de um filme e não deixar que logo ele, que fala tanto da dimensão do tempo, fique perdido no passado.
Filmes Citados
Abril Despedaçado (idem, 2001/ Walter Salles)
Água Negra (Dark Water, 2005/ Walter Salles)
Linha de Passe (idem, 2008/ Walter Salles e Daniela Thomas)







