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por Mariana Souto
Linha de Passe
Há em Linha de Passe, mais novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas, um forte anseio de falar sobre a realidade brasileira através da história de vida de alguns personagens, mas que por vezes esbarra numa tentativa totalizante. O microcosmo de uma família relativamente numerosa (para os dias de hoje) parece querer retratar traços de todo o Brasil – um irmão representa a paixão pelo futebol, outro a fé na igreja evangélica, o terceiro nos remete a questões raciais e de abandono e o quarto à criminalidade.
Evidentemente as coisas não são tão simples assim e a enumeração acima foi uma exposição reducionista, mas a seleção de quatro personagens com características tão diversas não deixa de fornecer aos diretores a possibilidade de estudar um panorama - pela raiz da palavra, “visão do todo” -, de pensar o país, suas nuances e suas diversas esferas de forma mais ampla. Em entrevista ao livro Cinema Brasileiro 1995-2005 – Ensaios sobre uma década, Walter Salles fala que “... os filmes que mais me interessam, ontem e hoje, não são só sobre personagens e sim sobre como os personagens são transformados pela realidade social e política que os cerca”.
A tentativa totalizante de Linha de Passe, no entanto, se configura menos como uma vontade de explicar e mais de discutir os vários problemas que podemos listar a respeito do Brasil. A ampliação do micro para o macro se faz visível no momento em que Dario, na fila para o teste do futebol, diz seu nome e posição e ouvimos vários jovens fazerem o mesmo, como se ele fosse apenas um no meio de milhares ou milhões. Essa estratégia, também utilizada em Central do Brasil com personagens e seus nomes, já foi abordada em textos da Revista Cinética aqui e aqui. Como o próprio título sinaliza, a montagem do filme passa de um personagem a outro, num contínuo caminhar aparentemente sem rumo, num cansaço insistente de uma rotina problemática que não se dissolve, somente acumula e intensifica sensações. Walter Salles e Daniela Thomas orquestram as andanças dos irmãos e sua mãe Cleuza de forma a construir um estado de suspensão e expectativa que culmina num clímax simultâneo para todos os personagens.
As ações vão se acumulando, os problemas ruminando, a narrativa se esgarçando e tudo chega num ponto limite, até que alguém finalmente desentope a pia da casa e todo aquele líquido sujo deságua pelos canos. Desgraça escoa para todo lado. Mas uma desgraça calculada e orquestrada que revela uma certa artificialidade, um pênalti preparado de antemão para ser perdido. De alguma forma, esse direcionamento que leva tudo para o brejo remete a Crash – no limite, guardadas as devidas proporções, até porque para me referir a Crash a palavra mais apropriada não seria “direcionamento” e sim “manipulação” – e ainda assim a comparação não é elogiosa. Aqui as coisas se invertem: a desgraça é o apogeu e a queda é um decrescente não de satisfação mas de tensão, rumo à calmaria, ao alívio.
Walter Salles e Daniela Thomas também usaram do seguinte percurso no longa O Primeiro Dia: 1) manobra dos caminhos dos personagens, 2) fundo do poço, 3) liberdade para possível redenção. Neste, Maria (Fernanda Torres), abandonada pelo marido, é salva de uma tentativa de suicídio por João (Luiz Carlos Vasconcelos), e passa por um processo catártico de virada de ano, fogos de artifício e batismo no mar para logo ver João assassinado. No final, Maria abre as cortinas da casa, olha pela janela e se deixa iluminar pela luz do dia até que o branco estoure a tela.
O arco dramático de Maria é muito semelhante ao da família de Linha de Passe. Se Walter Salles fizesse um gráfico, suas mãos desenhariam de forma bastante firme e determinada o trajeto de todos os personagens, com seus altos e baixos. Logo mais, faria uma linha de trajeto descendente íngrime até quase encontrar o eixo x. Em seguida, quando a linha começasse a esboçar uma subida, a tinta da caneta de Walter Salles acabaria - ou talvez ele se cansasse de desenhar. Maria começa a cair quando seu marido a deixa e sua descida íngrime, seu fundo do poço, é a tentativa de suicídio que se agrava com o assassinato de João. A retomada em direção ao alto do gráfico surge com a calmaria, o dia seguinte, a luz que vem da janela. A partir desse momento, Maria está livre (tanto das tragédias como das vontades do diretor) para traçar seu próprio trajeto, usando sua própria caneta.
Os diretores, ao mesmo tempo em que conduzem os personagens para determinadas situações, também deixam algumas possibilidades abertas. Passam uma rasteira, mas os ajudam a levantar e dessa vez escolher o próprio caminho, que não é revelado, pois o que importa é a ruptura que provoca a mudança, a saída por uma via tangente. Afinal, o caminho, a simples persistência de andar seja para onde for, parece ser um ponto fundamental para Salles (e Thomas em alguns casos). Central do Brasil é um road movie mais evidente pela distância do trajeto, mas Linha de Passe não deixa de sê-lo. Nas palavras do diretor, “Linha de Passe fala de quatro irmãos que tentam quebrar o apartheid social brasileiro de quatro formas diferentes. Esses personagens estão todos em movimento dentro da cidade de São Paulo, o que faz do filme um road movie urbano”.
Até mesmo o curta integrante de Paris, te amo é centrado no percurso, no trânsito de uma jovem mãe que se desloca pela cidade para cuidar do filho de outra pessoa. Terra Estrangeira retrata uma jornada para o velho continente, os tropeços do exílio. Já Abril Despedaçado parece abordar o impedimento de percurso, aprisionado em um ciclo interminável, mas que o personagem de Rodrigo Santoro acaba quebrando ao sair da aridez para encontrar o mar – mais uma vez o sofrimento e a prisão que no final se abrem para as possibilidades. Diante da multiplicidade de novas vias, os personagens assumem seu próprio traçado – ou seu próprio volante, no caso de Reginaldo de Linha de Passe – soltando-se das amarras com a liberdade de decidir que caminho tomar e para onde ir.

Filmes citados
Abril Despedaçado (idem, 2001/ Walter Salles)
Central do Brasil (idem, 1998/ Walter Salles)
Linha de Passe (idem, 2008/ Walter Salles e Daniela Thomas)
Paris, te amo (Paris, je t’aime, 2006/ vários)
O Primeiro Dia (idem, 1998/ Walter Salles e Daniela Thomas)
Terra Estrangeira (idem, 1996/ Walter Salles e Daniela Thomas)







