por Mariana Souto

Como eu festejei o fim do mundo, de Catalin Mitulescu*

por Mariana Souto



Um personagem que se chama Lalalilu não pode ter outro destino que não ser fofo. A aura de fofura é tanta que se espalha por seus amigos e por toda a escola. O diretor romeno Catalin Mitulescu cria uma galeria de personagens excêntricos, com toques do universo de Fellini e Kusturica, mas ao mesmo tempo incrivelmente realistas. À semelhança deste último, o filme tem uma atmosfera que exala leste europeu, com seus personagens sujos, desbocados e festeiros, em passagens pontuadas por momentos de humor.


A câmera passeia pelos personagens principais, mas registra também os rostos daqueles que estão por ali, sem falas, fazendo uma humilde figuração e teoricamente sem relevância para a história. No entanto, essas faces provocam identificação imediata com o cotidiano de qualquer ser humano e criam uma ambientação verossímil para a trama, próxima do espectador. Apesar de esquisitinhos, os alunos da escola têm cara de alunos de escola. Os vizinhos têm cara de vizinhos. As crianças têm cara de crianças.


Não só a aparência é de gente de verdade – em contraposição a atores maquiados – mas as atuações são espontâneas, sobretudo entre os meninos. Lalalilu é um garoto que desfruta de sua infância ao mesmo tempo em que fica ansioso para perder os dentes de leite e virar gente grande. Os jovens de Como eu festejei o fim do mundo praticam seus discursos e seu canto para depois se apresentarem, Eva e Andrei praticam permanecer na água fria para mais tarde conseguirem atravessar o Danúbio, assim como crianças e adolescentes praticam para um dia serem adultos.


Enquanto Lali vive a difícil passagem da infância para a adolescência, Eva faz a transição desta para a idade adulta. Ambos têm na cumplicidade da relação um suporte para realizar a travessia, encontrando no outro um apoio importante para poder amadurecer.


A mistura entre os personagens centrais no meio dos figurantes remete à elaboração da questão de indivíduos anônimos no meio da história e da política – a queda do ditador Ceausescu na Romênia em 1989. O roteiro centra-se em uma família vivendo os impactos desse evento histórico, mas poderia falar de muitas outras pessoas que passaram por aquele mesmo fato. Mitulescu escolheu os irmãos Eva e Lalalilu como seu microcosmo no meio de uma multidão de personagens possíveis. Mesmo que a todo momento influenciados por decisões políticas de pessoas externas àquele convívio e por regimes de poder, que aparecem desde em brincadeiras inocentes até na relação com a direção da escola, os valores humanos predominam e o que de fato importa mesmo é a vivência daquelas pessoas com seus próximos – relações de amizades, amor, família e cumplicidade.


Filme Citado:

Como eu festejei o fim do mundo (Cum mi-am petrecut sfarsitul lumii, 2006/Catalin Mitulescu)

*Texto escrito para o Indie 2007.