por Mariana Souto

12 Homens e uma Sentença e O que você faria?

Adaptações de peças para o cinema muitas vezes são vistas com desconfiança por cinéfilos que têm o seguinte raciocínio: filmes que trazem uma linguagem predominantemente teatral, sem especificidades da sétima arte, não merecem o título e o status de Cinema. A primeira impressão é a de que este tipo de filme se centra mais na dramaturgia, no diálogo e na construção de personagem enquanto elementos como câmera, enquadramentos e montagem são relegados a segundo plano. Será mesmo?

Há grande variação entre cineastas, sendo que alguns apenas filmam a encenação do texto da maneira mais convencional possível e outros se apropriam dele criativamente. Há variações também entre as peças, que podem inspirar mais ou menos dificuldade em sua transposição para o cinema. Contudo, alguns exemplos nos mostram como certos diretores lidam com o drama em uma articulação cinematográfica. 12 homens e uma sentença e O que você faria? são exemplos de filmes bem-sucedidos nesse sentido, mas a chave da questão aqui é seu manejo da linguagem fílmica de forma imperceptível – pelo menos conscientemente – para o espectador médio, que pode pensar se tratar de um simples registro de um ótimo texto através da câmera, sendo o roteiro o fator que merece todos os louros por ele ter gostado do filme.

Não há problema algum, portanto, em um filme se centrar completamente na dramaturgia, mas este simplesmente não é o caso dos citados. Trata-se aqui de observar o que há de cinematográfico que geralmente não transparece ao analisarmos uma obra que se destaca primeiramente pelo texto e pelas atuações.

12 homens e uma sentença (1957) e O que você faria? (2005) se situam quase que inteiramente numa mesma locação, sendo que o primeiro mostra o processo de decisão de um júri sobre um caso de assassinato e o segundo, uma seleção de candidatos a um alto cargo numa moderna empresa. Ambos são permeados pelos conflitos e tensões que se acentuam entre os personagens ao longo do filme. Enquanto o longa de Sidney Lumet retrata doze indivíduos diante de uma instância maior e poderosa que é o Estado, o de Marcelo Piñeyro gira em torno de sete executivos diante da instituição que exerce maior controle atualmente - a Corporação. Assim, cada filme serve como reflexo de seu tempo; seja nos anos 50 ou 2000, os longas mostram as complexas relações do indivíduo com instâncias superiores que o controlam, dominam e moldam suas atitudes e comportamentos.

Nos dois filmes, a manipulação é ponto central – tanto da instituição para com os indivíduos, como deles entre si e, de forma mais ampla, do diretor em relação aos personagens e ao público. Em 12 homens, um jurado tenta convencer os outros onze de que o réu pode ser inocente, usando para isso de suas observações perspicazes e da linguagem verbal. Lumet também tem lá seus recursos, mas dessa vez visuais, para também convencer o público da opinião do jurado nº8 e do que se configura como o discurso do filme como um todo.

Sidney Lumet aponta para a fragilidade do senso comum fazendo um exercício de manipulação inconsciente do espectador. Além do discurso dos personagens tentando provar seu ponto de vista, a direção usa de recursos cinematográficos para acentuar a mensagem passada. Quando algum jurado faz comentários preconceituosos sobre o réu de origem pobre e estrangeira tais como “sabem como essa gente mente! E não precisam de motivo pra matar alguém. Ficam bêbados, todos eles. Ninguém os está culpando, é o modo como eles são, por natureza. Violentos! Não tem um que preste” a câmera se afasta aos poucos. Já quando algum jurado faz algum discurso emocionado sobre como os preconceitos obscurecem a verdade ou lembrando o fato de que não se pode condenar alguém até que se prove culpado, a câmera se aproxima dele aos poucos, como que tentando envolver o espectador para ouvir com atenção aquele argumento.

Recursos como esse podem ser vistos também na angulação da câmera quando o jurado 8 confronta a fragilidade e parcialidade da opinião do colega que, assim como o réu, também não se lembra dos atores do filme que viu. Nessa cena, o primeiro é visto de baixo para cima, o que lhe confere uma aparência de forte e convincente, enquanto o outro é visto no nível dos olhos.

Lumet utiliza outros artifícios audiovisuais para alimentar a tensão da trama, que aumenta progressivamente. No início, quando os personagens chegam à sala, há um longo plano-sequência, com a câmera passeando pelo ambiente de personagem a personagem. Mais adiante no filme, as cenas são mais decupadas e a montagem se torna mais ágil, com mais cortes. Do início para o fim, os planos vão de mais abertos até closes bem próximos. Para comunicar sua idéia central de aprisionamento dos homens, o diretor fez uso de lentes cada vez mais longas (primeiro de 28 a 40mm e depois com 50mm, 70mm e 100mm), tornando a sala cada vez menor. Além disso, rodou o primeiro terço do longa acima do nível dos olhos e o último terço abaixo. O teto começava a aparecer, oprimindo os personagens. Na tomada final - uma externa dos jurados deixando o tribunal - usou uma lente grande-angular, acima do nível do olhar para transmitir uma sensação de liberdade e amplitude. Segundo o diretor, em seu livro Fazendo Filmes, “lentes diferentes contarão uma história de modo diferente”.

A acentuação da tensão através de planos cada vez mais aproximados também é utilizada em O que você faria? Quando numa das provas Carlos confronta Ana com sua idade mais avançada, os planos mais abertos de antes dão lugar a closes dos dois personagens, o que potencializa o conflito e ressalta a emoção expressa pelos atores.

Apesar das várias semelhanças entre 12 Homens e O que você faria?, este último, por ser um filme de 2005, traz alguns assuntos específicos da contemporaneidade. A exacerbação da tensão se dá em grande parte pelo receio dos candidatos de estarem sendo alvo de câmeras escondidas na sala de seleção e, portanto, vigiados. Além da avaliação externa da equipe de recrutamento, são observados de perto por um psicólogo da empresa infiltrado como se fosse um deles.

A partir disso, Piñeyro opta por uma estética da câmera onisciente e vigilante. Para tanto, não raramente filma as discussões e os candidatos de diversos ângulos, sem obedecer a um determinado eixo, como se observasse uma pessoa em todas as suas nuances. Já nos créditos iniciais, cada personagem é mostrado em momentos íntimos antes de ir para a seleção. A tela é dividida em três partes, mostrando ora ações e pessoas diferentes, ora a mesma ação sob ângulos diversos. Esta cena inicial faz rima com uma outra mais adiante no filme: um travelling mostrando telas de monitoramento que registram um dos executivos se movimentando pelo espaço. Esta é uma das chaves de compreensão do filme, recheada de elementos significativos para a trama.

Esta cena revela a vigilância do sistema de uma forma impessoal, já que não se sabe quem está vendo as imagens das câmeras ocultas. Em última instância, quem assiste ao espetáculo da humilhação humana e sujeição dos participantes às imposições descabidas do mercado é o próprio público. A câmera de O que você faria? acompanha as telas de monitoramento que, por sua vez, acompanha o deslocamento de Carlos. A cada tela, ele aparece em um ponto distinto da imagem, já que cada câmera de vigilância se encontra em um local do ambiente, o que forma um raccord peculiar entre cada plano. O movimento do candidato é contínuo, mas ao mesmo tempo fragmentado pela quebra de eixo e de ângulo. Essa rápida cena remete à idéia da vigilância constante e de todas as esferas da vida do indivíduo.

Fernando comenta que apenas no banheiro os funcionários podem ser eles mesmos, dentre todos os ambientes da empresa. Nesse travelling, vemos que até mesmo o banheiro, metáfora da vida íntima e reservada, é observado e que num mundo competitivo, qualquer informação sobre o indivíduo é avaliada pela empresa, que em tese deveria se restringir à área profissional.

Nos créditos iniciais e na passagem citada é possível perceber nitidamente na forma e na técnica do filme uma alusão à questão da vigilância onipresente, mas também em outros momentos o diretor se vale de recursos semelhantes. A quebra de eixo proposital durante os debates sugere a observação do indivíduo por todos os lados e o escrutínio que existe na avaliação da corporação.

A partir de exemplos de filmes adaptados de textos teatrais, pode-se perceber de que forma o diretor maneja os recursos característicos do cinema, ainda que de forma invisível, para expressar audiovisualmente seu roteiro. Pode-se pensar ainda nas implicações do estudo de tais adaptações para o nosso cinema, tendo em vista que elas podem ser realizadas e atingir interessantes resultados não só dramáticos como estéticos, apesar das restrições orçamentárias.

Filmes citados
12 Homens e uma sentença (12 Angry Men, 1957/ Sidney Lumet)
O que você faria? (El Métodos, 2005/ Marcelo Piñeyro)

Livro Citado
Fazendo Filmes (1980/Sidney Lumet, ed Rocco)