- A Banda
- A Família Savage
- Tudo Bem, Eu te Amo e Eu Sei que Vou te Amar: Arnaldo Jabor e a trilogia do apartamento
- Chega de Saudade
- Narradores de Javé
- Ratatouille e A Dama na Água: A visão dos realizadores sobre a crítica
- O Homem sem Passado
- Questão de Vida
- 12 Homens e uma Sentença e O que você faria?
- Abril Despedaçado
- A Vida é um Milagre: a bagunça de Emir Kusturica
- Morangos silvestres e Desconstruindo Harry
- Os Incompreendidos, a Criança e o Movimento
- Marcas da Vida - a imagem e a palavra
- Quando um homem é homem
- Annie Hall e ABC do Amor: O Frescor e as Trapalhadas do Amor
- Secretária, Nelson Rodrigues e critérios de normalidade
- Beleza Americana e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain
- Pecados Íntimos
- A Vida Marinha com Steve Zissou: estilização

por Mariana Souto
A Banda

“Certa vez a Orquestra Policial de Alexandria chegou a Israel para tocar na abertura do centro árabe. Muitos não se lembram, não foi tão importante”. Com essas palavras ditas logo no início, o filme abre-se para o registro do cotidiano, do irrelevante enquanto fato histórico, mas não sem importância do ponto de vista da vivência, do individual, e até de um pequeno coletivo. Em muitos momentos de A Banda, os personagens se dispõem como numa preparação para uma fotografia, uma brincadeira do filme com o sentido do registro, daquilo que se considera importante e, portanto, merece ser fotografado.
Cada membro da banda se coloca em uma pose, todos estáticos, como se esperassem por um click que nunca vem – com a exceção de uma cena no aeroporto: um turista resolve fotografá-los, em um momento tão desprezado por quem está de fora que um lixeiro passa vagarosamente na frente deles, ignorando a cena. Ao longo de todo o filme, os músicos lutam pelo reconhecimento; percebe-se que o futuro da banda corre risco em sua terra natal. Foram esquecidos no aeroporto por quem os contratou. A embaixada do Egito não lhes dá atenção. Estão na cidade errada, impossibilitados de tocar, e um artista distante dos olhos e ouvidos atentos da platéia não está completo. A imponente Orquestra Policial de Alexandria é chamada simplesmente de “a banda”, num caminho decrescente que vai do importante, singular e histórico, para o ordinário, o comum.
Mas talvez algo de diferente esteja acontecendo naquele vilarejo. Os músicos se sobressaem no local, seus uniformes coloridos se destacam num deserto em que nem o céu é azul – tudo é pálido, bege, árido. Tawfiq reclama com Dina que as pessoas o estão encarando, o que guarda semelhanças com outro diálogo entre eles, quando a moça lhe pergunta sobre o que sente, como maestro, ao ser o centro de todas as atenções e olhares. Na cidade israelense, a banda faz alguma diferença, mesmo que no incômodo, no mal-estar.

O registro aqui não se faz pelo click da máquina que congela um segundo que merece ser lembrado e colocado numa parede ou álbum para contar história, mas pela câmera de cinema, que por guardar um tempo mais dilatado, fluido, se assemelha com a própria memória, aquilo que cada um retém para si. Os momentos posados acontecem também entre outros personagens, e não somente entre os membros da banda. Quando Simon está tocando o início de seu concerto após o jantar, as pessoas estão dispostas de forma equilibrada no espaço, fixas, abusando da profundidade de campo, e assim que ele termina a última nota, toda a pose se desfaz num instante fugaz. A música acaba, as moças saem para a cozinha e o momento evapora.

Além da tentativa frustrada de reconhecimento de importância, marcada pela pose que nunca é recompensada com uma foto, outros elementos brincam com a frustração de uma perfeição. A Banda é recheada de enquadramentos que se pretendem exatos e simétricos, mas que contrastam com um mundo imperfeito. Postes formam bonitos desenhos de perspectiva, conjuntos habitacionais ressaltam formas geométricas. A composição dos planos é rigorosa, assim como a decupagem e os movimentos de câmera, mas os personagens são falhos, a vida é torta. Nesse sentido, emergem semelhanças com o uruguaio Whisky e praticamente todos os filmes de Wes Anderson (essa aproximação é tratada no texto de Gabriel Martins desta edição 22). Essa idéia é concentrada no personagem de Tawfiq, o repressor e reprimido regente, que tenta ter sempre o controle e fazer com que tudo saia conforme o programado, mas as coisas simplesmente escapolem da sua rigidez.
A Banda muitas vezes trabalha com a negação da expectativa. Em outras, com sua satisfação. A tensão romântica entre o casal Tawfiq e Dina não culmina em um beijo. Já o rapaz que espera pelo telefonema da namorada finalmente recebe a ligação. Na cena em que Simon e o anfitrião conversam no quarto, o primeiro conta que está compondo um concerto, mas que ainda não conseguiu finalizá-lo. O segundo diz que talvez seu final não seja grandioso, mas algo simples, do cotidiano, como um quarto parecido com aquele, pequeno, tranqüilo, com um bebê dormindo, cheio de solidão.
Com essa analogia entre o concerto e o próprio filme, tem-se a impressão de que A Banda terminará como dizem aqueles personagens, de forma simples, repentina, em corte seco, negando assim a maior entre todas as expectativas – a de ver a Orquestra Policial de Alexandria tocar. Afinal, este é um filme sobre músicos cujo objetivo é chegar a um determinado evento para fazer música. Nesse sentido, A Banda constrói no espectador o desejo de vê-los tocando, de ouvir que tipo de som eles fazem. E em determinado momento, parece que essa expectativa será frustrada, pois o que se busca ali são as relações entre os personagens, seu impacto na pequena cidade e vice-versa, e não um grandioso espetáculo de encerramento.
Fica a impressão de que o filme seguirá num caminho de anticlímax e quem queria satisfazer sua curiosidade ouvindo um pouco de música egípcia sairá frustrado. Mas não é o que acontece – eis que no final a banda toca. Sim, a banda toca, mas é preciso observar a maneira minimalista e verdadeira com que esse registro é feito pelo diretor. Essa parte musical do filme completa a experiência de se assistir à obra e nos permite conhecer mais a fundo seu protagonista – pelo canto de Tawfiq, é possível sentir seu lamento sentido misturado com orgulho nacional, tristeza e felicidade a um só tempo. Nesse sentido, é interessante perceber que o filme não segue radicalismos, não se impõe regras; as expectativas ora são atendidas, ora não.
Talvez por ter um tom mais próximo da maior parte da vida das pessoas, que não vivem grandiosos romances, tragédias, seqüências de ação e nem comédias escrachadas, as comédias dramáticas constroem uma relação de intimidade com o espectador - ou pelo menos criam essa ilusão. Os altos e baixos, a melancolia existente em belos momentos e a ironia presente nos fracassos são facilitadores do processo de identificação. Provavelmente está fundamentado aí o jogo que A Banda faz com as expectativas, já que a vida de fato alterna frustrações e satisfações. O minimalismo e as sutilezas contribuem para provocar uma sensação de proximidade, de “a vida é assim mesmo”. Com isso, não se quer dizer que o filme de Kolirin seja puramente realista. Há, sim, uma forte estilização e até mesmo uma amenização da crueza da realidade, mas isso faz parte do encanto do filme, que extrai beleza da dificuldade e torna a vida um pouco mais palatável.
Filmes citados
A Banda ( Bikur Ha-Tizmoret, 2007/Eran Kolirin)
Whisky (idem, 2004/ Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll)








