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por Mariana Souto
A Festa da Menina Morta e bate-papo com Matheus Nachtergaele
por Mariana Souto
Antes da sessão, Matheus Nachtergaele prepara o público e avisa que interpretações cartesianas devem ser afastadas; de nada servem ao seu filme. A Festa da Menina Morta é, de fato, uma obra fortemente emocional, que balança o espectador e provoca a comoção do público. O diretor conta que as duas sessões anteriores do filme – Cannes e Gramado - foram especiais, com a platéia sentada aguardando até o último nome dos créditos finais. No Imagem dos Povos não foi diferente.
A Festa da Menina tem como mote a religião – mais especificamente uma seita ficcional. Matheus conta que quis fazer um amálgama de todas as religiões brasileiras, até mesmo porque não são poucos os brasileiros que têm mais de uma. Retrata as crenças cegas, a aceitação de regras e dogmas, as contradições, a dependência. Com seu filme, Nachtergaele alcança o mesmo efeito da religião – um envolvimento irracional, apaixonado, quase hipnótico. O filme inclui o espectador em sua lógica, o traz para dentro de si como uma romaria captura um transeunte curioso. De repente, já se está tomado por todo um movimento, um transe.
É interessante perceber que Matheus consegue esse alto teor de emoção e êxtase através de muito rigor. No bate-papo após a sessão, confirma que o filme é basicamente o roteiro (seu em conjunto com Hilton Lacerda) filmado. Ensaiava com os atores até a exaustão e chegava a repetir um plano 30 vezes, se achasse necessário. Os enquadramentos são esteticamente rigorosos e transmitem uma sensação de abafamento. Os personagens estão aprisionados dentro daquela atmosfera quente e ao mesmo tempo úmida, amazônica, sufocante. Em muitos momentos, A Festa da Menina Morta parece um filme da argentina Lucrecia Martel.
A prisão é tão coercitiva que em rápidos instantes algum sentimento irrompe avassalador, em atuações de grito e descarrego. Santinho (Daniel de Oliveira) parece calmo, mas de repente se exalta, esperneia, berra para logo depois voltar ao normal. Matheus, aliás, caracteriza Daniel como um ator de possessão, ao contrário de Juliano Cazarré (Tadeu), um ator de estudo e construção racional de personagem. Em algumas cenas, é possível sentir no elenco um teor teatral de imersão e concentração, com atuações que se desenvolvem num continuum bergamaniano, assistidos pacientemente por uma câmera fixa, ou com movimentos estritamente planejados.
Em sua estréia na direção, Matheus deixa na tela a marca de suas influências cinematográficas, como Cláudio Assis, Paulo Caldas e Lírio Ferreira. A fotografia, alguns enquadramentos e composições são muito semelhantes às obras dos diretores citados. Nachtergaele se aproxima do animal de forma similar à que faz Paulo Caldas em Deserto Feliz; um com o porco, outro com o tatu. Em comum com todos eles, a estilização que por vezes ameniza e por outras acentua a crueza de um ambiente.
Matheus conta que, ao fazer o filme, procurou uma abordagem que não fosse folclorizante. Pesquisou a região, visitou locações, levou sua equipe para ter conhecimento de causa do que se propunha a retratar. Muitos habitantes de Barcelos-AM fizeram parte do elenco.
O longa deixa espaço para a leitura de cada espectador, que cria suas explicações talvez de acordo com sua própria fé. Matheus diz que tem ouvido opiniões variadas e que o filme, depois de pronto, está na retina de quem o vê, apesar de conter um significado específico para ele. Domingos de Oliveira, por exemplo, disse que viu um filme sobre amor entre pai e filho. Independente de opiniões e interpretações, A Festa da Menina Morta fica na memória pela força de suas imagens.








