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por Mariana Souto
Floresta dos Lamentos
por Mariana Souto
O filme da badalada Naomi Kawase, premiado em Cannes, é mais um dos que gira em torno da construção de uma relação a dois, nesse caso entre uma jovem que cuida de idosos e um de seus pacientes, um senhor com Alzheimer. O cuidado e o zelo com o outro são fatores centrais no filme, que exala carinho misturado com doses de medo e tensão. As ambigüidades se expressam pelo toque afetuoso seguido da rejeição, da raiva, da fuga.
Os personagens não estão perdidos só na floresta; estão vagando no mundo, à procura de algo que amenize o sofrimento, que os faça superar traumas. O perambular pela floresta retrata esse processo de elaboração de luto, de catarse, travessia de um terreno cheio de obstáculos, solidão, confronto de medos externos e internos. A divisão do filme em duas partes bem distintas e a imersão no mundo natural remetem a Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul. A enfermeira e o idoso estão numa selva, lugar vivo, um organismo, como no filme do tailandês, de complexa significação.
A câmera de Kawase capta imagens de uma natureza que respira, com planos da mata oscilando com o vento em ondas de suspiros, dançando como os cílios de nosso sistema respiratório. Um momento de enxurrada de um pequeno rio marca o transbordamento emocional da moça, tomada por um ataque de lágrimas.
A experiência e a visão de documentarista de Kawase podem ser percebidas como influência no filme, que é enquadrado de forma extremamente naturalista. Os planos na instituição para idosos parecem registro do cotidiano, câmera documental, na mão. Não há trilha sonora e os ruídos ambientes são marcantes. A câmera vai de um personagem a outro, sem divisões de plano e contraplano. O idoso é interpretado por um não-ator, uma pessoa que a diretora conheceu, achou adequada para o papel e simplesmente convidou.
Com poucos diálogos, o filme carrega na intensidade da experiência, na alegria que se transforma em desespero - ora contido, ora patente e por fim atenuado. Em Floresta dos Lamentos, dois personagens se perdem na imensidão, mas encontram um ao outro.








