por Mariana Souto

Vibrador

por Mariana Souto

O longa de Ryuichi Hiroki é um dos filmes centrados na relação entre dois personagens, recorrência comentada na entrevista com o crítico Mark Schilling. A forte personagem feminina Rei está perdida em pensamentos desconexos, indecisões em compras noturnas, num local de consumismo e futilidade. O diretor a apresenta em pedaços, planos de partes de seu rosto, o que acentua sua fragmentação. A narração em associação livre revela suas oscilações de pensamento. Em suma, Rei está perdida, em cacos, incompleta. 

Então surge um homem em câmera lenta, num momento mágico, acentuado pela inserção da trilha sonora. Na impulsividade, Rei sobe em seu caminhão e assim tem início o road movie, filme inevitável de descobertas, mudança. Ele é motorista, agente de um percurso. Vibrador tem química entre os dois personagens, cativantes, mas em alguns momentos incômodos e até desprezíveis, tamanha a honestidade com que são retratados, até mesmo em suas mentiras. 

Rei se parece um pouco com o estado de perdição da personagem de Leandra Leal, em Nome Próprio. Hiroki não faz concessões e nos coloca de frente com duas pessoas falhas em sua essência, mas que juntas se descobrem, se entendem e se aceitam. Há momentos belíssimos de intimidade, aconchego e compreensão entre os dois, como a cena da banheira, colocando o próprio espectador em cheque com suas intolerâncias. 

Contudo, entre os momentos belos, há passagens superficiais, não de relação entre os personagens, mas de narrativa fílmica em si. Entre algumas cenas importantes, há montagens de transição, planos na estrada com trilha sonora excessivamente “de menininha”, tomadas da estrada passando pela janela com o retrovisor em quadro, algo bastante videoclíptico. 

Vibrador trabalha com os diversos graus de exposição e intimidade. Num primeiro nível, vemos as ações de Rei, em outro ouvimos alguns pensamentos em off e, em momentos específicos, lemos uma cartela com pensamentos ainda mais íntimos misturados com sentimentos, sensações, desejos. Ao longo do tempo, percebemos que pensamentos que eram resguardados para as cartelas pretas agora já estão prontos para sair de sua boca. No filme, há tanto momentos em que esse recurso se desgasta como outros em que complementam a cena como a cereja num bolo de chocolate.