por Mariana Souto

Vila Submersa

                                                                              por Mariana Souto 

No documentário Vila Submersa, Nobuo Onishi constrói relações de proximidade e até mesmo de amizade com seus entrevistados. O diretor japonês acompanha alguns personagens habitantes de uma vila que será inundada para a construção de uma hidrelétrica e que, portanto, deixará de existir. Contudo, esse é um assunto que sequer é citado em mais da metade do filme, que gira em torno dos hábitos dos moradores de Tokuyama, sobretudo os alimentares. 

A cultura de um povoado aparece através de sua alimentação, com rituais de coleta, contato com a natureza, preparo, refeição e conservação. Apresentando uma variedade de tipos de alimentos em conserva, Onishi usa a comida para falar da memória, da preservação de um presente para sustentar um futuro, em tentativas quase sempre frustradas. Brinca com isso ao mostrar o desperdício, a fermentação, o apodrecimento, a garrafa que explode e o líquido que se esvai entre os dedos. 

Trabalhando fundamentalmente na temática do tempo, Onishi usa de longos planos, apresentando com detalhamento o processo de conserva de cada vegetal. As pessoas são filmadas longamente, em ações cotidianas, simples. O diretor, provavelmente parte de uma equipe muito pequena – se não formada apenas por ele mesmo -, dialoga com os entrevistados, mas parece guardar alguns comentários apenas para a platéia, colocando-a como ouvinte de suas observações e conclusões. Nobuo Onishi nos revela pensamentos que parece não ter coragem de dirigir ao próprio entrevistado, como quando prova em silêncio uma castanha que lhe oferecem, enquanto sua voz em off diz que perdeu o paladar tamanha a amargura. Em outra ocasião, registra um senhor em suas atividades para nos dizer que ele, na verdade, é um bêbado. O cineasta cria, assim, uma relação de confidência com o espectador. 

A tradição da culinária é enfatizada como ritual, conhecimento ancião, relação com o meio, sendo que o tempo de preparo da comida é dilatado, extenso. O diretor acompanha o povoado demonstrando dedicação e um envolvimento de anos com o trabalho. O perecimento daquilo que é vivo chega a seu auge nos minutos finais do filme, depois da inundação, quando Onishi se reencontra com a personagem mais importante no filme, já envelhecida e afetada por uma amnésia. A senhora, que passou boa parte da sua vida lutando com o armazenamento e conservação dos objetos, perdeu qualquer recordação deles; não se lembra de sua casa inundada, de Tokuyama e nem de Onishi, o que nos provoca reflexões sobre a impossibilidade do registro eterno, do definitivo, da permanência na história após a morte. O próprio filme, assim, assume uma função de registro e memória de uma comunidade em extinção.