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por Mariana Souto
Dois, silêncio, ruído, Mark Schilling
por Mariana Souto
A partir de alguns exemplares do cinema japonês contemporâneo visto no Imagem dos Povos 2008, é possível levantar certos pensamentos sobre a cinematografia desse país. Logicamente, o número de filmes exibido nessa mostra é um pequeno recorte de toda uma filmografia muito ampla e rica, mas com os elementos vistos em Ouro Preto, algumas idéias e hipóteses despontam, muitas delas sendo confirmadas pelo crítico Mark Schilling em entrevista realizada em conjunto com o colega polvo e repórter do jornal O Tempo, Marcelo Miranda.
Mark Schilling, americano residente há 30 anos no Japão, é um dos curadores da mostra japonesa do Imagem dos Povos. Mark é crítico do Japan Times desde 1989 e é correspondente da revista americana Variety e da inglesa Screen International, com diversos livros publicados.
Dentre os filmes vistos no programa Japão Contemporâneo durante o fim de semana, tanto Floresta dos Lamentos como Renascer e Vibrador giram em torno da relação entre duas pessoas - homem e mulher, mas não necessariamente casais. O microcosmo da relação a dois é apresentado como uma espécie de possibilidade de encontro em meio à solidão de uma massa. Schilling confirma que essa é uma vertente que se destaca no cinema japonês contemporâneo. Segundo ele, jovens solitários, dificuldades de comunicação e de adaptação à sociedade têm aparecido constantemente nos filmes. A solidão é um dos pontos predominantes e mesmo quando se faz filmes de gêneros variados, ela aparece. O crítico brinca que mesmo quando é feito um filme de gângster, provavelmente será sobre um gângster solitário.
Schilling nos conta sobre a diversidade da filmografia do Japão; há filmes de todos os tipos sendo feitos, apesar de ficarmos com a impressão dos extremos – muito silêncio e solidão de um lado, e muito ruído e explosão de cores em outro. Contamos a ele que o gênero japonês que mais chega ao Brasil é o terror, que tem alcançado grande sucesso comercial e promovido muitas refilmagens americanas. Diz também que desde os primórdios da história do cinema são feitos filmes de fantasmas no Japão, que O Chamado e seus sucessores foram hits, sobretudo entre os jovens, mas que hoje já deixaram as pessoas cansadas e há algum tempo que não fazem sucesso.
Influências, produção e mercado
Os mestres de décadas passadas – Kurosawa, Ozu, Mizoguchi – deixam vestígios no cinema contemporâneo japonês, assim como nomes mais recentes, como Nagisa Oshima nos anos 80, filmes experimentais e cultura pop. Mangás e animês são influências fortes no cinema japonês e muitas vezes tornam os diretores de suas adaptações escravos dos originais, tamanha a expectativa e pressão dos fãs. Schilling conta que boa parte da produção japonesa é proveniente de adaptações, seja de mangás, animês, jogos, seriados de televisão ou de livros e romances. Pouca coisa baseada em argumento original é produzida no Japão hoje em dia. Vibrador, por exemplo, é baseado em um romance.
O crítico nos conta que a maior parte da produção cinematográfica nipônica é financiada por redes de televisão, em parceria com empresas de comunicação como agências de publicidade. Há também muitos filmes independentes, como os de Naomi Kawase, que tem sua própria produtora. Atualmente são produzidos cerca de 400 filmes por ano, um número bastante expressivo. A Era de Ouro japonesa, nos anos 50 e 60, tinha sua produção dominada pelos grandes estúdios, sistema que entrou em colapso e que juntamente com a perda da audiência das massas para a TV e o declínio ou morte dos grandes mestres, fez com que o país passasse por um grande período de queda no que diz respeito à produção cinematográfica. Contudo, a década de 90 trouxe mais vigor à produção com uma nova geração de diretores – Takeshi Kitano, Takashi Miike, Naomi Kawase, entre outros. Hoje, muitos deles continuam em atividade.
No Japão, há cerca de 3.300 salas de cinema, contra 2.200 no Brasil. Temos apenas 15% de público para o cinema nacional, enquanto eles têm 50%. Lá chegam filmes de todas as partes do mundo e os hollywoodianos não são tão dominantes como aqui, com a exceção de blockbusters como Senhor dos Anéis e Harry Potter, muito vistos pelos japoneses.
Schilling conta que a atividade da crítica no Japão é um campo tão difícil como em qualquer outro país. Há muitas revistas e publicações sobre cinema, mas a maioria assume uma postura de fã (e para fãs). Parecem acreditar que um texto crítico consiste em contar o enredo do filme, fazer sinopses, e não trazem aprofundamento algum.
Após a entrevista oficial, continuamos com Mark Schilling na mesa, conversando sobre comida mineira, filmes brasileiros que ele tinha visto, cultura pop, Jaspion e Jiraya.








