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por Mariana Souto
A Família Savage
Os planos iniciais de A Família Savage mostram paisagens da cidade de Sun City, destinada à morada e diversão de aposentados. Arbustos simétricos escondem senhoras idosas também dispostas simetricamente num número de dança em câmera lenta, que em junção com a trilha sonora e figurino jovem, provocam um efeito de ironia e descompasso, sinal do que está por vir.
Em um plano, um casal de palmeiras na frente de uma casa. Um corte, e um grupo de palmeiras. Palmeiras em escadinha. Logo mais, uma palmeira sozinha. O jogo de disposição das plantas remete às possíveis organizações dos seres em grupos familiares, recurso também utilizado pelo filme com outros corpos, vivos ou não. A luminária moderna com bolinhas que estão soltas no espaço, se juntando, se repelindo e se reunindo em novos arranjos. Para Wendy, seu gato e sua planta são família. Na sala estar de Jon, ao invés de pessoas, livros sentam em seu sofá. O objeto aqui funciona como representação do humano - ou da falta dele.
Mas em A Família Savage, a recíproca às vezes é verdadeira. Se objetos exercem funções humanas, no sentido inverso, seres humanos são objetificados, como no momento em que o pai Lenny viaja com Wendy de avião e é levado como se fosse uma bagagem pelos funcionários da companhia aérea. Em algumas passagens, os idosos nas casas de repousos são denominados de vegetais - seres com vida, mas sem as mais altas faculdades humanas, próximos da estática e da apatia do objeto.
E vegetais estão por todo lado no longa de Tamara Jenkins. As árvores são fortes símbolos trabalhados ao longo de todo o filme. Além de aparecerem em diferentes disposições espaciais na montagem ritmada do início do filme, sinalizam a passagem do tempo e do próprio ciclo vital. O “nasce, cresce, reproduz-se e morre” está presente sem a necessidade de um longo recorte da vida dos personagens ou do uso de flashbacks: tudo se concentra num ciclo, na mudança de algumas estações, na troca das folhas.
Em determinada cena, vemos Wendy dentro do carro olhando as árvores cheias de folhas verdes em um momento melancólico, de contemplação do tempo. Mais à frente, em uma rima visual, vemos Jon na mesma posição: sentado no veículo, olhando as árvores que agora estão sem folhas. Mais tarde, o pai é a figura central de um plano muito semelhante. Cada um tem uma expressão diante do olhar sobre a passagem do tempo e a conseqüente transformação da matéria, seja de admiração, estarrecimento, nostalgia ou desesperança.
A velhice, o final de um ciclo de vida, marca o caminho inevitável em direção à morte. A decrepitude acompanha a despedida de um corpo que já não sustenta a vida que traz em si. Como percebe o enfermeiro, o ar se esvai e o corpo se curva, murcha. Mas os sintomas do Sr. Savage não se restringem ao definhamento físico, já que sua capacidade mental está visivelmente alterada. Lenny perdeu o controle de suas ações, perdeu a memória, perdeu a censura.
Segundo o médico, ele faz caretas sem emoção e não tem mais o senso do ridículo. Tamara Jenkins faz uma relação da demência do pai com o estado em que se encontra o mundo contemporâneo, tão decrépito e desmemoriado quanto o pai de Wendy e Jon. A falta da noção do ridículo se faz evidente pelas inserções da TV. Em várias cenas vemos programas de televisão em que as pessoas, mais do que o Sr Savage, se ridicularizam e “fazem caretas sem emoção” em programas de televendas, comerciais. A diretora marca assim a semelhança entre a demência de um ser humano e a decadência de toda uma sociedade em um momento histórico.
Contudo, há recursos para se maquiar a decrepitude tanto da velhice como de instituições sociais. A Família Savage mergulha na ambigüidade entre a exposição e a omissão de uma realidade caquética. Em uma cena de discussão com a irmã, Jon ressalta que toda a bela paisagem da casa de repouso está ali para as famílias se aliviarem da culpa, e não para os internos. O próprio nome “casa de repouso” é eufemismo para o que acontece entre seus muros. A abertura do filme, já comentada, denota a ironia e o conflito entre informações que gera uma percepção de artificialidade. A sensação é de uma tentativa constrangedora e inviável de sustentar juventude e saúde a todo custo. É como uma maquiagem corretiva que acaba por realçar o defeito.
Para ressaltar a não-aceitação e deturpação dos sinais desta fase final da vida, a diretora lança mão da manipulação de fotografia e arte no mesmo sentido em que provoca a discussão: o embelezamento da realidade. Tal opção estética toma forma através de artifícios de iluminação e pós-produção, assim como de arte e figurino, na escolha de tons pastéis e alegres de Sun City, em contraposição aos tons fechados de Buffalo. Sun City até lembra a cidade fictícia de Edward Mãos de Tesoura com seu colorido irônico e arbustos fofos de verde puro. Mas ao contrário do filme de Tim Burton, a fotografia aqui trabalha no conceito de maquiagem da realidade, mas deixando resquícios de uma certa crueza: o resultado é de um paraíso falso. Os enquadramentos geométricos, com arbustos verdes e muito céu azul sugerem maquetes de alegres empreendimentos imobiliários.
Além da dicotomia falso-real, há também uma forte elaboração sobre a passagem do tempo, representada na relação presente-passado. Em ambas há uma simbiose, uma complexa e parcial fusão. Na verdade o passado não se vê, mas está presente em forma de lembranças, em fotografias e em alguns recursos que denotam a alusão à infância dos personagens. Wendy dorme de pijaminha rosa e tem várias expressões faciais e verbais de uma garotinha. Chama seu irmão com um grito manhoso “Jooooon!” e parece ser a perfeita representação de caçula que quer participar da vida do irmão mais velho, no estilo de Drew Barrymore em ET, enquanto Jon a trata com rispidez e impaciência. Não por acaso o frio Jon é obcecado pelo autor Bertolt Brecht, defensor do distanciamento, do pensamento e da razão.
Enquanto se desenrolam as questões de tempo, vida e morte, outras perpassam todo o roteiro, como a idéia do loser, tipicamente americana. E essa, apesar de bem resolvida, tem um gostinho de “já vi esse filme antes”. Wendy e Jon são fracassados desde a infância bagunçada até a esfera profissional, passando pelos relacionamentos pessoais. Não conseguem alcançar os ícones do sucesso e da vida bem encaminhada: emprego estável, casamento, família. Alguns esquematismos do roteiro abafam uma possível sensação de frescor no gênero e A Família Savage acaba se enquadrando em uma categoria já bastante vista de filmes semi-independentes e baratos sobre a perdida classe média americana.
Questões como tempo e vida certamente são o eixo de A Família Savage, mas aqui são vistas sob o prisma do fracassado social. Em um ponto fundamental esses dois aspectos do roteiro se juntam e mostram que Tamara Jenkins afinal está falando do mesmo tema: a perda. Ou antes disso, a falta - de memória, de censura, de sucesso, de dignidade, de vida.
Filmes citados:
Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, 1990/ Tim Burton)
ET (idem, 1982/ Steven Spielberg)
A Família Savage (The Savages, 2008/ Tamara Jenkins)







