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por Mariana Souto
Os Desafinados
por Mariana Souto
Boas intenções não fazem necessariamente um bom filme. Mas podem fazer um filme divertido, envolvente e bem produzido. Os Desafinados é ambicioso, mas se sustenta enquanto grande produção com alta qualidade técnica. O clima é sempre de alegria, leveza e ingenuidade – tanto a dos personagens, sonhadores e sorridentes, como do seu próprio roteiro e direção. Os diálogos são impregnados de clichês e falas de sentimentalismo óbvio, gerando situações até embaraçosas.
Toda essa pureza é concentrada na expressão facial de Rodrigo Santoro, sobretudo em seu retorno-surpresa. Há, em Os Desafinados, um deslumbramento com a própria vida – com a arte, com a música, com as luzes de uma nova cidade. O filme transmite entusiasmo, juventude, às vezes até de forma simplória. Em alguns momentos lhe falta uma dose de ironia e malícia, não na trajetória dos personagens, mas na visão de mundo do próprio filme, na falta de autocrítica.
Ao longo do tempo, os personagens apanham da vida, levam surras das circunstâncias, mas tudo que ocorre de negativo é vindo de fontes externas ou fruto de inconseqüência juvenil, nunca de más escolhas ou falhas humanas, de caráter. Traiu, mas “não fez por mal”, afinal, o que se pode fazer, estava apaixonado. O amor justifica. E é a paixão pueril que move a história, o brilho no olhar que, diante dos desdobramentos do roteiro, se esvai para depois retornar lá na frente, no final feliz.
O roteiro de Os Desafinados se desenvolve em várias frentes: começa como The Wonders, filme de banda, passa para filme de ditadura, mas tendo paralelamente a visão contemporânea, o filme de reencontro, avaliação da memória. A presença de outros países na história funciona como contraponto para se marcar a própria brasilidade, a saudade de casa, a construção de uma identidade nacional para no fim, a volta ao lar se fazer necessária.
As músicas, sempre presentes, costuram o filme, são um canal para as relações se expressarem, vazão para as manifestações sentimentais dos personagens. E é justamente a trilha sonora que cativa o espectador, que torna o filme de Walter Lima Jr. mais envolvente (junto com o carisma de Selton Mello), apesar de alguns significativos pontos de fraqueza. Toda a seleção do elenco é eficiente, não só pelo talento, mas pelas próprias personas, já conhecidas do espectador nacional, que atraem o público que o filme pretende. Os Desafinados é um filme bem brasileiro, mas assim como a própria bossa nova, brasileiro tipo exportação.
Filme citados
Os Desafinados (idem, 2008/ Walter Lima Jr)
The Wonders – O Sonho não acabou (That thing you do!, 1996/ Tom Hanks)








