por Mariana Souto

Dois olhares sobre Pátio

Pátio de uma mostra de Glauber e Sganzerla

por Gabriel Martins

 

Apenas uma pequena observação sobre a obra que abriu a 3ª Mostra Cine OP:

 

Um film experimental de Glauber Rocha. E é no experimento, no fragmento que é a mediação do imaginário de Glauber com o mundo, que o cinema se demonstra como forma. Forma de fazer, de ter o xadrez e o mar porque a imagem demanda formas. A lógica interna de Glauber é o sentido do desenho. São corpos que pertencem à concepção visual. Glauber brinca com a boneca Juliet Berto em Claro, explicitando a relação de objeto câmera e objeto mundo. Este Cine OP parece tentar expressar e pensar isso, um tempo que superou o clássico para ter o mundo como fonte, e não como razão. Di para Glauber, Welles para Sganzerla – formas de redesenhar o mundo.

 

Pátio

 

por Mariana Souto

 

Uma plataforma, bananeiras e um abismo oceânico. No curta de 1959, Glauber Rocha estabelece um palco e nele joga com seus atores, bonecos, peças em seu tabuleiro. Em local isolado, longe de interferências – possível Brasil longínquo de praia e mata tropical - o resto do mundo se faz presente no olhar para o horizonte e na câmera que avança sobre o mar. Nesse jogo, não se sabe se é Homem X Mulher ou se Homem e Mulher X Tempo, lutando pelo mesmo objetivo, uma união de corpos que não é possível. A divisão de quadrados pretos e brancos remetem a uma continuidade em passo a passo – a decupagem alternada e o ritmo da montagem marcam um momento aqui, outro ali, um aqui, outro ali.

 

Os enquadramentos buscam a geometria, a composição em detrimento da integridade do sujeito. Homem e Mulher são recortados, partidos conforme a melhor disposição estética, misturados ao ambiente tropical, ao céu, ao sol, ao mar. Um pedaço de rosto, um pedaço de ar, um pedaço de água formam o enquadramento perfeito. O conteúdo das imagens e uma certa dramatização se fundem com o abstrato da forma, linhas, traços.  Presente em todo o filme, a inspiração vinda do formalismo de Vertov e Eisenstein, o esmero na composição e  o estudo da montagem. Sapatos espalhados no pátio, a plataforma flutuante, marcam os passos anteriores, onde se esteve até chegar a determinada posição. O deslocamento é difícil, às vezes ausente. O tempo passa. Planos estáticos de Homem e Mulher estirados no tabuleiro; a eternidade do jogo. Em Pátio, Glauber Rocha inicia sua filmografia com a pura experimentação da forma, a abstração do sentido e o jogo cinemático, em seus vários sentidos.

 

Filmes citados:

Pátio (idem, 1959/ Glauber Rocha)