por Mariana Souto

Chega de Saudade

Mesmo considerando alguns pontos delicados e questionáveis em Chega de Saudade, é notável sua capacidade de interagir, de entreter com intensidade e trazer o espectador para seu jogo. Laís Bodanzky faz um filme envolvente, intenso, colorido de desejo, verdadeiro em sua proposta. E tem o mérito de colocar o público na posição ativa de quem quer participar, se juntar a um ambiente ou mesmo observar de uma mesa mais afastada, resguardando seu olhar externo. Olhar este parecido com o de Maria Flor, menina que conhece o baile junto conosco e, quando se dá conta, já está tomada por aquela alegria.

Ao longo do filme, conhecemos uma vasta gama de personagens, num passeio possivelmente inspirado em Altman e sua câmera que flui, de forma caótica porém muito bem planejada, entre numerosas e diversas figuras. Passeamos não só pelas pessoas, mas conhecemos recantos escondidos do salão e mergulhamos em texturas, cores, sombras e brilhos. A câmera de Laís Bodanzky ressalta arte e figurino assimilando sua importância para a ambientação e composição desse filme. As texturas valem também para os corpos e suas partes recortadas pela decupagem, cada personagem sintetizado na expressão de um ponto: Cássia Kiss e suas mãos inquietas, Betty Faria e seus ombros insinuantes, o casal Tonia Carrero e Leonardo Villar e os pés, Maria Flor e sua nuca juvenil, Elza Soares e sua boca enlouquecida. Cada recorte desses, somados com os detalhes de sapatos, drinks, rugas e gelo constroem e transmitem a experiência sensorial de estar naquele lugar.

Algo semelhante ocorria em Bicho de Sete Cabeças, da mesma diretora, ainda que em torno de tema completamente diverso. É possível perceber entre os dois algumas características em comum, prováveis peças constitutivas do estilo de Laís. Em ambos nota-se a relevância do espaço físico e social na construção de uma narrativa e no desenvolvimento dos personagens. Tanto o manicômio quanto o salão de baile são agentes transformadores decisivos da subjetividade de cada pessoa. Para ressaltar o impacto do contexto e da ambientação na trama, Laís se vale de planos descritivos do lugar e dá atenção ao recorte do espaço. No caso de Bicho, construiu-se uma atmosfera quase documental, dando destaque à estrutura física e aos vários internos do hospital. Em Chega de Saudade, há diversos planos de contextualização e de casais de figurantes dançando no baile. 

Assim, a diretora arma um cenário pautado no realismo e na verossimilhança para então inserir nele sua trama de ficção, com recursos bastante formalistas, recheados de toques artísticos e comentários pessoais. Laís transita entre essas duas instâncias; constrói o tabuleiro, posiciona as peças e a partir disso faz seu próprio jogo, move as peças à sua maneira. Uma metáfora mais clara que a do jogo é a da própria dança, mais do que explícita em Chega de Saudade, mas também útil ao evocar Bicho de Sete Cabeças. Em ambos percebem-se ações coreografadas, com personagens e câmera em movimentos sintonizados. O descontrole, sobretudo no filme com Rodrigo Santoro, é aparente – resultado que se vê na tela, mas que sabe-se muito bem planejado e dirigido. A câmera de Laís, muitas vezes na mão, faz um bailado; acompanha determinado personagem até encontrar outro e passar a segui-lo em movimento fluido. 

Em Chega de Saudade, através da dança e do movimento, tanto de câmera como de corpo, a diretora aposta que o corporal é capaz de sustentar quase toda a expressividade proposta; aposta semelhante e ainda mais ambiciosa fez Ettore Scola em O Baile, mas para isso precisou recorrer à estilização dos movimentos e a uma certa pitada caricata, o que cabe perfeitamente ao longa de 1983. Aqui, em busca de um naturalismo nas relações, próximo da real vivência daquele contexto, Laís se vale muito da palavra, dimensão essencial do filme. Com a exceção do casal formado pelo argentino e a misteriosa senhora rica, este sim quase que exclusivamente pautado na expressão corporal, até mesmo pelo próprio mistério e pelo jogo físico de sedução – simbolizada pelo filme inteiro com a dança -, os demais personagens se apóiam bastante na palavra, seja na fala dos diálogos ou na escrita dos bilhetes.

Ainda que a palavra esteja contida nas letras das músicas, muitas vezes personagens sentem a necessidade de reforçá-la. A música do filme, numa trilha sonora quase ininterrupta (alguns poucos silêncios usados dramaticamente), reforça situações já bastante claras. Se a música canta “To doidão porque roubaram minha mina no salão” é justamente isso o que se vê na tela. De tão óbvio, o recurso começa a incomodar. Entretanto, em alguns momentos ele é tão explícito que, assumido, acaba virando uma questão de brincadeira, usado como lábia de um galanteador que, de forma escancarada, se vale das palavras de um cantor romântico para conquistar uma garota. O filme se apropria da música e da cultura popular para construir seu próprio discurso, mas em certas passagens talvez o faça muito diretamente e se enrola no próprio senso comum. 

Esse é um aspecto que se relaciona com um ponto polêmico e questionável de Chega de Saudade: a estereotipia dos personagens. A personagem de Cássia Kiss é marcada pelo ciúme e sua ‘música-tema’ fala exatamente disso. Betty Faria entra ao som de uma canção sobre soledad (solidão em espanhol). Cada personagem é como um espectro do ser humano, uma concentração de apenas um sentimento. Cada um segue seu determinado arco dramático: Leonardo Villar é rabugento e seu percurso na trama é se tornar um pouco mais amável com a namorada Tônia Carrero. Stepan Nercessian é o garanhão que corteja a jovem e precisa de todo o tempo de duração do filme para voltar para sua companheira de meia-idade. 

A variedade encontrada no filme vem da quantidade de personagens, mas cada um é como uma nota musical. Juntos formam uma música, mas cada um é capaz apenas da mesma inflexão previsível; a junção é que faz a beleza da melodia. Essa mesma percepção pode gerar interpretações que implicam julgamentos de valor contrários: uma em que os personagens são criações unidimensionais e empobrecidas e uma outra que entende cada um deles como parte componente do organismo vivo que é o baile. Provavelmente, já é possível perceber qual a opinião contida nesse texto e não por acaso foi feita, anteriormente, uma relação de alguns personagens com determinado órgão do corpo humano. 

O mergulho na subjetividade de cada indivíduo não cabe em Chega de Saudade, e isso não é negativo. Sua escolha é pelo lúdico, pelo jogo de personagens. É como no xadrez, em que o cavalo só anda em L e o bispo em diagonal – os personagens são tipificados e caminham numa direção limitada, mas plural quando se tem em vista todo o tabuleiro e suas infinitas possibilidades de encadeamento. Trata-se também de uma opção pelo panorama, já que Laís parece querer apresentar toda a riqueza de situações contidas no salão, e não se aprofundar no estudo de alguns poucos personagens ou de relações humanas. E nisso Chega de Saudade é eficaz: passeia com leveza e fluência através de um mesmo ambiente com uma câmera que parece dançar junto com os personagens e trocar de parceiro de dança/objeto de observação ao longo das músicas. A câmera é parte integrante e viva dentro do salão. A dinâmica entre as pessoas e entre estas e o espaço são representadas com ritmo. Curioso perceber como o chão é desenhado como um palco, um tabuleiro em que as peças se movem, marcando o jogo de sedução e rejeição, a tentativa de formação de pares que ali ocorre. 

A força do salão em alguns momentos é tamanha que transborda e se transforma de alegria em peso, já que reúne vários tempos cercados pelas mesmas paredes. A utilização de flashbacks remete a O Baile e pode ser vista como uma amostra do convívio tão próximo, lado a lado, entre passado e presente e de como um mesmo local pode comportar tanta diferença, multiplicidade, história e expectativa. E essa é a riqueza do filme. Chega de Saudade até desequilibra um pouco, mas chega ao fim firme no salto.

 Filmes citados

 O Baile (Le Bal, 1983 / Ettore Scola)

Bicho de Sete Cabeças (idem, 2001/ Laís Bodanzky)

Chega de Saudade (idem, 2008/ Laís Bodanzky)