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por Mariana Souto
Narradores de Javé
De heróis tortuosos o Brasil já está cheio. Mas pátria amada não renega seus filhos, e assim sempre cabe mais um. Antônio Biá, de Narradores de Javé, é o personagem tipicamente nacional, malandro enganador, sedutor pelo humor e pelo discurso. Mais talento que caráter, até que se prove o contrário, chegado na fofoca e na preguiça. E é buscando as raízes desse padrão estabelecido outrora como perfil nacional que Eliane Caffé constrói uma visão de povo brasileiro.
Visão esta que não é única, mas plural, sempre aberta a novas reinterpretações. A diretora conduz uma viagem aos primórdios do surgimento do povoado de Javé com seu fundador Indalécio para investigar sua constituição e a formação do caráter de seus habitantes, a partir do discurso elaborado por diversos deles. E daí para abordar a influência do contador na construção do conto e, de tabela, a influência do diretor na construção do filme. Cada história, seja falada, escrita ou filmada é enviesada pelo que se resolve mostrar e pelo que se decide omitir e revela muito do próprio contador.
Está também em foco a tradição oral X a tradição escrita e a condução da narrativa, já que não se tem acesso direto aos fatos, mas a uma intermediação que não só transmite, mas modifica o conteúdo passado. E, nesse aspecto, inevitavelmente se pensa também a construção fílmica como instância transformadora e geradora de sentido. Os moradores de Javé insistem em sua sobrevivência perante o projeto de inundação de suas terras para a construção de uma represa, que em tese só seria possível através de um “dossiê científico”, livre de subjetividade e distorções. O atestado da ciência se refere ao que se espera de um registro, que seja isento e verídico, características que, de uma maneira ou de outra, quase sempre escapolem.
Mas a história comprovada e o fato científico não interessam a Eliane Caffé. De forma intencional, o que ela busca é o discurso construído, o imaginário de um povo, a sabedoria popular, e quanto mais manifestações subjetivas, melhor. Para isso, procura ter acesso próximo do seu sujeito (o povo), se infiltrar e se misturar numa determinada realidade para conhecê-la de perto. E assim chegou a equipe de Narradores de Javé à cidade de Gameleira, trazendo um pequeno elenco profissional que se infiltrou com naturalidade entre os habitantes.
Em muitas cenas, atores interagem com a população de não-atores em pé de igualdade, se camuflando e se contagiando com a espontaneidade dos que ali estavam. A própria câmera se mistura aos moradores e age como observador próximo, ouvinte de tudo o que se dá. A câmera se identifica com o povo, com a massa participante. Está presente nas reuniões de moradores como se fosse mais um deles, permanecendo sempre na altura do olhar de um homem médio, oscilando com a movimentação. Não há angulações, nem plongée (de cima), nem contra-plongée (de baixo). Nas confusas e exaltadas assembléias, acompanha um que fala ali, vira-se para outro que comenta aqui, “mexendo o pescoço” como quem de fato assiste a uma discussão. Há planos e contra-planos, sim, mas essencialmente tomadas panorâmicas que se deslocam para ver quem esbraveja “agora”, de acordo com o foco do momento.
Se um grupo de personagens está num lugar e se desloca, a câmera vai junto. Sai de externa para interna, entra em casa de vizinho, ouve o sino e vai para a igreja responder a um chamado de união, participa de linchamentos, invasão de correio, acompanha todas as ações como uma pessoa que fuça. Certa vez, o diretor paraibano Paulo Caldas disse que sua câmera em Deserto Feliz era como o olhar de um tatu sorrateiro. Nessa mesma lógica, apesar das muitas diferenças cinematográficas, a câmera de Narradores de Javé poderia ser vista como um cidadão, de havaiana azul e branca, caminhando no chão de terra batida para acompanhar o movimento.
Mas ao mesmo tempo, a câmera nunca é o sertanejo. Ela o observa, é levada por ele, se empolga no meio dos movimentos de massa, mas nunca está na mesma posição que ele. Salvo engano, não há subjetivas no filme. Ela nunca representa o ponto de vista de algum personagem específico. Sempre que um diálogo é filmado, há a referência do outro ator (o ombro, a parte de trás da cabeça, etc), mostrando que ali o que se vê é uma visão externa à conversa, e não uma visão de quem está conversando. Nesse sentido, a câmera é sim um cidadão de havaiana azul e branca caminhando no chão de terra batida, mas que depois de acompanhar o bastante, guarda seus chinelos na mochila, a coloca nas costas e dá-lhe sebo nas canelas para sair do sertão e voltar para a cidade grande, caso do personagem contemporâneo que inicia o filme correndo para pegar a balsa de saída do lugarejo.
Mas isso está longe de ser uma crítica. Muitas vezes vemos filmes de sertão realizados por diretores bem-nutridos do sudeste, o que pode ser transposto para diversos contextos, como ressalta Fellipe Gamarano Barbosa nesse texto para a Cinética, em que fala dos filmes sobre minorias étnicas realizados por cineastas brancos. É peculiar perceber que muitos diretores se interessam por retratar um universo que não é deles. Às vezes os filmes padecem disso e lhes falta verdade. Caem em artificialidade, arrogância ou até mesmo má compreensão do objeto. Outras vezes alcançam belos resultados quando conseguem chegar ao cerne de uma identidade e transmiti-la sensivelmente para quem assiste, colocando ou não sua própria visão. O interessante é que Eliane Caffé filma uma realidade que não é sua, mas assume sua distância; tenta diminuí-la ao máximo, mas sabe que não pode eliminá-la, e coloca o filme sob o ponto de vista contemporâneo, centrado no personagem do mochileiro que, imerso no sertão, ouve causos e vive aquela rotina se encantando com aquelas pessoas e aquelas histórias, ele mesmo imaginando à sua maneira os acontecimentos narrados.
E o filme é a visão de uma pessoa ou de um pequeno grupo - a diretora ou a equipe - e por isso se constitui como obra parcial, assim como as histórias contadas pelos habitantes sobre a fundação de Javé. E tanto são parciais e subjetivas que se parecem com fragmentos de memória, ressaltadas pelo recurso do jump cut, com cortes não fluidos, lacunas entre eventos que não se consegue preencher depois de tanto tempo ter passado.
O tempo, através da reflexão sobre o antigo e o novo, se encontra fortemente em Narradores de Javé. A história possui três núcleos: o presente, o passado e o primitivo, que se entrecortam a todo momento, ainda que possuam estéticas diferentes. A história do povoado serve de instrumento para o entendimento de seus personagens e a fala de alguns deles ilustra esse trânsito de gerações. Antônio Biá, em sua louca verborragia, fala que é o pokemon de Jesus, alegoria que mistura o antigo e sagrado com um ícone pop da contemporaneidade. Toda a linguagem do filme é uma colagem bem-humorada do pop com o erudito, da metrópole com o rural, acentuada pela trilha que mistura ritmos nordestinos com um som típico de dj.
O estilo literário, que se revela nos diálogos, sofre a interferência dos dialetos regionalistas e de um dinamismo próprio da revisita ao sertão, já visto de forma parecida, por exemplo, no texto de O Auto da Compadecida. O personagem de Biá se parece com João Grilo, mas também com Macunaíma no que tange à esperteza, ao humor e ao caráter duvidoso tão brasileiros. O próprio roteiro é uma mistura de influências brasileiras, já que partiu de viagens dos roteiristas e da pesquisa e junção de histórias de vários pontos do Nordeste.
Todo esse movimento, essa reformulação de influências de vários lugares e épocas para a formulação de algo novo se encaixa perfeitamente na característica itinerante do povo sertanejo, que tem uma longa tradição, mas que precisa constantemente recomeçar. No momento primitivo do filme, Javé se formou de uma leva de retirantes expulsos por um governo que queria o ouro de suas terras. No passado, precisa lidar com uma nova expulsão e reposicionamento, dessa vez devido à inundação de suas terras por uma represa. E no presente, pelo mochileiro que espera pela balsa a levá-lo embora. E já que as pessoas não permanecem muito tempo no mesmo local, que assim não pode guardar fisicamente os traços - e as traças - da história, a tentativa é de manter um registro pela oralidade, pela escrita e, mais recentemente, pelo filme, como faz um personagem documentarista que visita Javé antes da inundação. É o destino do povo retirante que num ombro carrega o sino e no outro leva a sina.
Filmes citados
O Auto da Compadecida (idem, 2000/ Guel Arraes)
Deserto Feliz (idem, 2007/ Paulo Caldas)
Macunaíma (idem, 1969/ Joaquim Pedro de Andrade)
Narradores de Javé (idem, 2003/ Eliane Caffé)







