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por Mariana Souto
Questão de Vida
Eis aqui mais um filme composto por curtas. Desta vez, cada um dos nove episódios, dirigido pelo mesmo Rodrigo García, retrata um pedaço da vida de uma mulher, tendo o nome de cada uma como título. Cada um deles é realizado em plano-seqüência, sem cortes do início ao fim. A princípio, parece que os curtas serão episódios isolados, mas a partir do terceiro vemos que um personagem que já nos é familiar aparece mais tarde em outro contexto mais tarde e que as histórias são interligadas.
Um coadjuvante aqui passa a ser o protagonista ali e vice-versa, mas também acontece de um coadjuvante lá continuar sendo coadjuvante acolá. Algumas vezes estamos concentrados em determinada história quando nos é revelado que fulano na verdade é o ciclano, já mencionado, me fazendo lembrar daquelas piadas de criança que precisam ser contadas em seguida e que aparentemente não têm relação, mas na charada da segunda, qual é a resposta? Tchã-rã, um elemento da primeira! A intenção de realizar a correlação muitas vezes parece ser a de simplesmente causar um efeito-surpresa ou forçar a barra para que se chegue à conclusão de que nossas vidas estão interligadas e todos pertencemos a algo maior.
Para dar esse recado, o roteirista/diretor fala através dos personagens, sobretudo o de Aidan Quinn que, numa conversa informal com sua amante Ruth, diz: “Estamos ligados a tudo e a todos nesse planeta. Conexões...”. Depois, comenta sobre um programa de animais na TV: “eles juntam os pedaços para contar uma história. Põem um animal no caminho de outro pra poderem filmar a ação. É tudo uma falácia. Algo que inventam pra nos deliciar”. Dessa forma, explicita suas próprias estratégias e justifica suas escolhas ao fazer as costuras artificiais entre os curtas.
O roteiro de Questão de Vida joga pistas sobre sua própria narrativa em vários momentos - tenta ser implicitamente metalingüístico, mas em alguns momentos tem um resultado mais escancarado do que discreto. García (filho do escritor Gabriel García Márquez) coloca palavras na boca dos personagens querendo assim conversar com o público e expor suas idéias, sendo que provavelmente conseguiria um efeito mais interessante sendo sutil, comunicando-se através das imagens.
No curta “Sonia” os personagens, ao inaugurar um apartamento, tomam champagne e fazem um brinde “à continuidade”, uma alusão à fluência entre vidas e pessoas que se propõe o roteiro. Há até uma brincadeira quanto ao título original do filme (Nine Lives – Nove Vidas), quando a garotinha pergunta à mãe Maggie se ela acredita que é verdade esse negócio dos gatos terem 9 vidas, ao que ela responde: “não, acho que é tudo uma só”.
Todos sabemos que o mundo está repleto de coincidências e eventos que nos fazem pensar que o mundo é um ovo. O problema reside no fato de que o filme não aprofunda nas conexões entre os personagens aparentemente distantes e fica no nível de superficialidade de um diálogo corriqueiro como:
- Olha, você trabalha no Fórum? Meu sobrinho fez estágio lá... O Maurício.
- Ah, Maurício, um alto, ne? Conheço sim, sei quem é...
- Vou falar com ele! Gente, que coincidência! Mundo pequeno, né, rapaz?
- Ô...
O que Rodrigo García quer apontar com o fato de que a mãe de Lorna do 7º curta é a anestesista que aparece três segundos para preparar Camille para sua cirurgia, no 9º episódio? Faria alguma diferença para a narrativa se essa anestesista fosse outra pessoa? Em dado momento, uma personagem (leia-se Rodrigo García disfarçado) fala: “o mundo não é tão pequeno... Nós o tornamos pequeno quando queremos”, frase que entrega a manipulação realizada pelo diretor para que consiga provar seu ponto.
Círculos já estão me cansando. Muitos filmes já contaram histórias dessa maneira e foram bem-sucedidos, mas a essa altura só justifica repetir a abordagem para imprimir nela um novo olhar, ou tratá-la com alguma profundidade ou visão crítica. A novidade, nesse caso, é apenas a utilização do trabalhoso recurso do plano-seqüência, que dá vazão à idéia do diretor de continuidade entre pessoas, histórias e vidas. Em Magnólia, Short Cuts e Corações Apaixonados as narrativas eram entrelaçadas como parte de uma elaboração da dicotomia acaso X destino e uma reflexão sobre a influência das pessoas na vida das outras. Dessa vez, parece que Iñarritu - que após Babel já está se rendendo a recursos apelativos e à “forçação” de barra - recebeu o roteiro e falou “opa, histórias entrelaçadas, to dentro!” e assim se tornou o produtor executivo. Paris, te amo, bem-sucedido tanto isoladamente, na maioria dos curtas, como na montagem de um longa coeso a partir desses fragmentos, caiu na armadilha de tentar unir os episódios no final, e teve um resultado artificial em seu fechamento, já que não havia necessidade de que as histórias ali estivessem interligadas.
O plano-seqüência, utilizado em cada uma das histórias, reflete a fluidez da narrativa, com movimentos que acompanham e unem uma pessoa às demais. A câmera acompanha um personagem até que se depare com outros e se desloque no caminho. Entretanto, entre os curtas há fades, intertítulo e mudanças de ambientes, elementos que soam como uma quebra na continuidade (talvez até inevitável já que não seria muito viável fazer o filme inteiro em plano-seqüência). Questão de Vida, portanto, é ao mesmo tempo fluido e desconexo; tenta ser contínuo mas esbarra na impossibilidade tanto técnica quanto real, das próprias vidas que às vezes estão mesmo distanciadas.
Por mais que a globalização e as relações interpessoais se expandam a cada dia, o mundo contemporâneo é também marcado pela fragmentação e por um modelo de conexões efêmeras e superficiais entre as pessoas. Sendo assim, não vejo porque a necessidade que Rodrigo García pareceu sentir de amarrar as histórias que na realidade são mesmo soltas, colocando-lhes elementos aleatórios para que pudessem se unir. E também não há visão crítica por parte do diretor de que as teias das relações pós-modernas muitas vezes são frágeis e sem sentido – a impressão que se tem é de que o tiro saiu pela culatra.
Não há mal algum em retratar esse fenômeno da contemporaneidade através de filmes que mostrem episódios isolados - seria interessante ver um filme como se abríssemos janelinhas para ver em cada momento um pedacinho do mundo. Também ainda estaria disposta a assistir a um filme que mostrasse os impactos de cada ser humano no mundo à sua volta. Mas Questão de Vida não é uma coisa nem outra.
Estou aqui me concentrando na tentativa do filme de conexão entre seus curtas, que, como dito, se dá de forma um tanto quanto imperativa e artificial. Mas analisando os curtas isoladamente, é possível observar alguns elementos bastante ricos, principalmente do ponto de vista dramático; os curtas Diana, Samantha e Maggie se mostram muito sensíveis no tratamento das relações humanas. Samantha, por exemplo, consegue tratar do tema da ligação entre pessoas em um microcosmo único e auto-suficiente, se não levarmos em conta sua expansão em outros curtas.
A jovem garota que dá nome ao episódio é usada como menina de recado entre os pais, sempre mostrados em cômodos separados, mas sempre interessados no que o outro diz. Dessa forma, são reveladas suas dificuldades de comunicação e a função essencial que a moça acaba assumindo em sua família. Ao mesmo tempo em que os pais insistem para que invista em seus estudos do outro lado do país, lhe dizem que ela é “o sentido da casa” ou “o coração da casa”, mostrando as ambigüidades da relação pai/filho no momento da independência dos mais novos e conseqüente separação, além de uma certa chantagem mascarada.
Separação, aliás, é um dos temas que permeiam diversos episódios. Há mulheres lidando com a separação dos filhos, do corpo, do amor, dos mortos. Mas por mais sofrimento que cause, muitas vezes ela é necessária ou inevitável – e com essa necessidade de abrir mão e dar liberdade ao objeto para que flua sem suas interferências o próprio Rodrigo García não soube lidar.
Filmes citados:
Corações Apaixonados (Playing by heart, 1998 / Willard Carroll)
Magnólia (Magnolia, 1999/ Paul Thomas Anderson)
Paris, te amo (Paris, je t’aime, 2006/ Olivier Assayas, Frédéric Auburtin, Emmanuel Benbihy, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Ethan Coen Joel Coen, Isabel Coixet, Wes Craven, Alfonso Cuarón, Gérard Depardieu Christopher Doyle Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Alexander Payne, Bruno Podalydès, Walter Salles, Oliver Schmitz, Nobuhiro Suwa, Daniela Thomas, Tom Tykwer Gus Van Sant)
Questão de Vida (Nine Lives, 2005/ Rodrigo García)







