por Mariana Souto

Ratatouille e A Dama na Água: A visão dos realizadores sobre a crítica

Percalços, adulações, rusgas e conflitos geralmente fazem parte da complexa relação que se estabelece entre realizador e crítica. A percepção que a crítica tem de diretores ou de filmes específicos se conhece através de seus textos. Já uma forma de se ter acesso ao lado dos cineastas é a análise de filmes que tenham como personagem um crítico profissional – se a crítica expressa sua opinião através da escrita, nada mais natural do que os cineastas o façam pela linguagem audiovisual (a não ser que o cineasta seja também crítico, ou vice-versa. Tema, aliás, da I Mostra Filmes Polvo de Cinema e Crítica, pivô desse texto).

 

Mesmo que sua área seja o teatro, a literatura ou a culinária, a figura do crítico é presente em filmes variados e muitas vezes o tratamento que lhe é dado revela os pensamentos do diretor sobre o assunto. Geralmente, é representado como figura arrogante, egocêntrica, solitária, muito imersa na teoria e nas representações e distante da vida em si. Na animação Ratatouille, o crítico Anton Ego (desnecessário falar sobre seu nome) tem traços físicos de vilão e aparência sombria, ainda que sua sisudez passe por uma reavaliação mais tarde, tanto no filme como neste texto. O design de sua casa remete a uma catedral, imponente e sinistra, e sua escrivaninha a um altar – local onde é produzido um saber definidor e inquestionável. No alto, um enorme quadro dele mesmo.

 

Assim como Ego, o crítico de A Dama na Água é mal-humorado e solitário. Antônio Martins (Marco Ricca), de Crime Delicado, também não foge muito do padrão poucos-amigos. Mais produtivo do que simplesmente discorrer sobre as representações negativas e estereotipadas que são colocadas aos críticos seria pensar porque elas existem e a partir do quê se pensa neste profissional como alguém sempre insatisfeito.

 

Numa briga de Crime Delicado, Inês acusa Antônio de frustrado e parasita, o que revela uma idéia proveniente do senso comum de que o crítico é um artista que não alcançou seu objetivo e teve que se contentar com a tarefa – e a dependência - de falar sobre o trabalho dos outros. É estranho que não se aceite que uma pessoa possa de fato gostar mais do exercício de análise, por pura afinidade com o estudo e a escrita, do que de realização. Vários críticos, do tempo da nouvelle vague (Godard, Truffaut) aos atuais (Kleber Mendonça, Eduardo Valente), conciliam as duas atividades, mostrando que ser diretor não é necessariamente um objetivo final e que o fazer e o pensar cinema estão muito imbricados.

 

A representação do crítico como ser mal-humorado talvez se deva também a um mal entendido em relação ao que na verdade é o mais puro amor pelo ofício. As atitudes de se isolar no estudo, cobrar seriedade e silêncio e ser altamente exigente com as obras que analisa são causadas justamente pela paixão por seu objeto de estudo. Em Ratatouille, alguém confronta Anton Ego: “você é muito magro pra quem gosta de comida” ao que ele responde “eu não gosto de comida. Eu amo. E quando eu não gosto eu não engulo”. Essa fala mostra a decepção que a crítica sente quando um filme não atinge sua própria intenção e o desejo que se tem de que a qualidade das obras cinematográfica não despenque a esmo. De outro lado, às vezes o crítico ama tanto o cinema que quer mantê-lo para si e os que supostamente sabem apreciá-lo – esse ponto será tratado mais adiante.

 

Como já foi dada a dica, obviamente nem tudo se deve a mal-entendidos. Seria ingenuidade pensar que a crítica não tem sua parte na criação do estereótipo carrancudo. Muito poder lhe é atribuído e por vezes o profissional se vê às voltas com a capacidade de influenciar o pensamento de milhares de pessoas, reverter bilheterias, de ser admirado e ter seu nome reconhecido, o que pode sim mexer com seu ego. Em Dirigindo no Escuro, um personagem se preocupa com a repercussão do filme-fiasco dirigido por Val (Woody Allen), mas se alivia porque, segundo ele, se a crítica for positiva, o público simplesmente vai seguir o que ela disser. Como sua opinião é tida em alta conta, o crítico pode acabar se tornando arrogante se tomar como verdade uma suposta posição de superioridade em que é colocado por algumas pessoas. Anton Ego fica indignado ao saber que o restaurante Gusteau’s está sendo muito freqüentado, já que ele havia escrito uma resenha muito negativa sobre o estabelecimento, algo que soa próximo de “como assim as pessoas estão comendo lá se eu ditei que não gostassem?” Muito do estereótipo vem também do mau exercício profissional, de pessoas despreparadas que partem para o julgamento mais fácil e determinista. Já que não dispõem de maiores condições de análise, caem nos esquemas veja-fuja e ofensa quase pessoal-declaração de amor rasgada.

 

Dentro da perspectiva da suposta arrogância, mais um ponto a ser discutido é a elitização de conhecimento. Muitas vezes a crítica ajuda o espectador a fazer leituras mais amplas e profundas do cinema, guiando-o por um caminho de crescimento intelectual e sensorial no contato com a arte. Outras vezes, torna este caminho ainda mais árduo ao codificar a informação, ao invés de transmiti-la por uma escrita acessível ao leigo. Termos técnicos, linguagem rebuscada e estilo excessivamente intelectualizado podem dificultar o diálogo com o leitor e também com o realizador. A crítica tem nas mãos a chance de fazer circular conhecimento, de aumentar o nível de percepção das pessoas e de trazê-las cada vez mais para o cinema, mas às vezes acaba por afastá-las. Nesse sentido, quem lê, ao invés de aprender um pouco mais, sai com uma sensação de burrice, de que as reflexões se dirigem apenas para quem já é entendido no assunto. O “aprender um pouco mais” faz sentido quando o texto provoca e questiona o leitor, o estimula a pensar e lhe fornece alguns elementos novos e desafiadores; não tenta tornar invisível uma existente diferença de conhecimento específico perante o leitor e nem evita aprofundamentos, o que seria deixá-lo permanecer passivo (afinal a posição soberana do público também é criticável), mas também não o exclui totalmente. Certa vez, ouvi de uma pessoa do meio: “as coisas de que eu gosto, gosto de gostar sozinho”, comentário que ilustra bem essa tentativa de se diferenciar da maioria e de se constituir como grupo seleto. Se uma coisa que apreciava antes por algum motivo cai no gosto popular, o teórico mal resolvido às vezes se vê inclinado a não gostar mais.

 

Como a atividade de crítico aparentemente (e só aparentemente) não é distante do que qualquer pessoa minimamente instruída poderia fazer, o profissional às vezes age respondendo com a elitização para que possa construir um diferencial. Ninguém se aventura em profissões como advogado tributário, cirurgião, engenheiro de automação, ou mecânico de aeronaves, mas qualquer pessoa se sente apta a ir ao cinema e fazer comentários sobre o que viu, quiçá publicá-los num blog. E deve mesmo fazê-lo.

 

Mesmo que não fique sempre evidente, o exercício da crítica envolve um conhecimento muito específico, uma enorme bagagem em teoria do cinema, inúmeras obras assistidas desde os primórdios do cinematógrafo, uma significativa capacidade reflexiva e de escrita, além de outras habilidades. Como poderia então o crítico conquistar e honrar sua posição diferenciada no meio de tantos cinéfilos palpitativos? Seria uma estratégia tornar visível para o leitor seu vasto arcabouço teórico? A elevação do texto, o uso de vocabulário rebuscado e citações de obras e teóricos considerados eruditos (sem muita contextualização no artigo e sem se preocupar em inserir o leitor na idéia construída), podem ser vistos como também – e não apenas, que fique claro – uma demarcação de território e justificativa tortuosa para sua própria existência e reconhecimento como profissional? Poderia ser visto como uma forma de manter um certo status da inteligência, a partir do qual se tem uma legitimação?

 

Mesmo que a escrita quase acadêmica na maior parte das vezes não seja intencionalmente excludente – acredito mesmo que não seja - e que ocorra mais por característica intrínseca ou por hábitos e vícios do estudioso, não se pode relevar seu resultado. Estamos aqui problematizando a questão e suas repercussões sobre algo que parece um fato – resumidamente: “o leitor que não é do meio cinematográfico não entende alguns textos críticos” – e tentando desmembrar o motivo pelo qual pensam que críticos são arrogantes e superiores, mas ao mesmo tempo assumindo que dialogar e explicar pode não ser mesmo uma pretensão da parte de quem escreve. Entretanto, às vezes é um desafio maior adaptar a linguagem sem deixar de introduzir conceitos complexos ao escrever para o leigo, sob o risco de parecer superficial e generalista para os mais entendidos, do que se comunicar com um certo público habitual e trocar informações dentro de seu próprio nicho.

 

Tudo depende da proposta da crítica, do veículo e até mesmo da obra abordada, mas ressaltando que de forma alguma há obrigatoriedade em se destinar a esse ou àquele público e nem que se defende uma redação didática e rasa, muito pelo contrário. Estamos falando sobretudo de forma; o conteúdo, mesmo que tão integrado, merece mais uma longa reflexão, mas adianto que muitas vezes, ainda que já complexo por natureza, pode ser abordado tanto de forma simples como complexa e isto não deixa de ser também uma questão de escolha de quem escreve – e aqui se diz da repercussão de cada um desses caminhos. Só está mesmo fora desse exercício de relativização e discussão aquela pequena parte que deliberadamente se expressa de maneira pedante e, para estes, o jurista Vicente Rao diz: “A clareza tem o direito de fazer parecer superficial, mas que não se infira desse aviso a conveniência de ser obscuro para parecer mais profundo”.

 

É senso comum falar no valor da crítica construtiva na vida pessoal e no cotidiano, mas parece que essa não é uma dimensão tão considerada na redação cultural. Quando algo o desagrada, é recorrente que o crítico se manifeste com ironia, sarcasmo e ridicularização. Ao falar de uma peça com personagens sado-masoquistas, Antonio Martins (Crime Delicado) destila: “os atores sofrem, mas o público sofre ainda mais”. No mea culpa de Anton Ego ao final, ele diz “Nós prosperamos na crítica negativa, que é divertida de se escrever e ler. Desfrutamos de uma posição sobre aqueles que oferecem seu trabalho e a si mesmos ao nosso julgamento.” Muitos textos mais humilham e desmotivam o realizador do que esclarecem percepções e apontam caminhos. Claro que vários críticos ajudam sim o cineasta a perceber falhas de que talvez não estivesse ciente, e a partir disso tem condições de resolvê-las ou minimizá-las nos próximos trabalhos – e alguns depoimentos em Crítico, de Kleber Mendonça, discutem esse ponto com clareza. Há um amplo espaço para que realizador e crítica trabalhem juntos, em cooperação mútua com o objetivo maior do crescimento e desenvolvimento do cinema no país.

 

Voltando à questão do crítico enquanto personagem criado por um realizador, é preciso dizer que em vários momentos a construção de sua figura é tratada com complexidade, e não puramente como reflexo de um estereótipo; este se estabelece mais como situação inicial que sofre algum tipo de desmistificação. Apesar da imagem séria, o crítico de A Dama na Água e sua relação com os demais personagens são bastante ambíguos, mesmo que nem sempre isso pareça intencional. Farber, que sempre faz diagnósticos para filmes e situações, se colocou na expectativa e na prisão de suas próprias idéias. Viu que a vida era mais ampla do que seus conceitos e foi abocanhado pelo imprevisível.

 

Em determinada cena, os personagens avaliam uma fala anterior de Farber e julgam-na determinista, como se ele tivesse tentado dar conta de uma realidade e falhado em sua articulação, estereotipando pessoas e situações que na verdade são maiores do que seu pensamento. Cleveland (Paul Giamatti), quando descobre que o crítico estava ‘errado’, fala “Mas como pode? Ele estava tão certo disso...” e então lhe atribui o papel de vilão arrogante. O que o filme talvez não perceba – e em sua complexidade, muito maior do que aparenta, isso é muito interessante – é que quem deu o diagnóstico não foi Farber e sim o intérprete de sua fala. O crítico deu uma opinião bastante abstrata e quem limitou a informação foi quem a recebeu – o próprio Cleveland ao interpretar, por exemplo, que “grupo que aparentemente não faz nada relevante” eram os fumantes e não as garotas irmãs.

 

Não é raro que um texto seja interpretado de forma bastante tendenciosa pelo leitor, sobretudo nas revistas de cinema online, em que muitas vezes se lê, se entende a argumentação, mas não se consegue extrair um julgamento de valor. É comum chegar ao fim de um artigo e ainda se perguntar se o redator gostou ou não do filme abordado. Mais do que em grande parte da mídia impressa – na qual o jornalista muitas vezes indica ou contra-indica filmes, dá estrelinhas e bonequinhos -, a crítica online geralmente problematiza (nem sempre, e nem só ela), ultrapassando os conceitos de “bom” ou “ruim”, “vale a pena” ou “não vale a pena”, o que pode, algumas vezes, frustrar o leitor que vê negada sua expectativa de resposta pronta e opinião formatada. Pode também fazer com que ele projete seus próprios julgamentos e construções no texto, compreendendo como do crítico algum pensamento, que se deu sim a partir do que foi lido, mas que é seu.

 

Em outro momento, Farber fala das observações muitas vezes típicas da crítica “por que no cinema as pessoas ficam tanto na chuva? Ninguém faz isso”. Ao mesmo tempo em que coloca no roteiro essas palavras de autocrítica em relação à inverossimilhança dos filmes, Shyamalan usa de chuva o tempo todo, até mesmo em formatos artificiais, como o sprinkler que rega o gramado, simplesmente para criar uma ambientação mais marcante às cenas. O clímax do filme se passa durante uma tempestade, numa atitude “é falso, estou ciente, mas eu gosto e quero usar assim mesmo” do diretor. Essa afirmação remete a um depoimento do espanhol Carlos Saura no filme Crítico: “de vez em quando apontam algum erro meu. Mas o que eles não sabem é que às vezes eu quero continuar errando”, mostrando o quanto o conceito de falha é relativo quando se trata de arte.

 

 Muitos são os elementos relativos, aliás, na experiência com um filme. Apesar de altamente embasado e apoiado no conhecimento técnico e teórico da história do cinema, não se pode excluir dos textos a dimensão de opinião, já que esbarram de forma inevitável na subjetividade do redator. Para além da argumentação, há também a impressão altamente pessoal e íntima de cada pessoa. Um crítico pode expor com muita propriedade argumentos sobre sua visão de um filme e adorá-lo, ao passo que um colega pode enxergar os mesmos argumentos, concordar, mas em seu julgamento de valor estes elementos tornarem o filme ruim.

 

Divergência entre críticos há aos montes. Woody Allen brinca com esse fato ao fim de Dirigindo no Escuro, quando o filme The city that nevers sleeps, considerado um fracasso nos EUA, recebe críticas extremamente favoráveis na França. “Aqui sou um vagabundo, mas lá sou um gênio” fala tanto da tendência dos intelectuais europeus de venerar obras difíceis e até incompreensíveis (já que o longa de Val foi dirigido por um cego e só ficou sem pé nem cabeça por acidente e má realização) quanto recupera uma tradição francesa de pioneirismo ao perceber e valorizar artisticamente obras que não recebem a devida atenção nos EUA, como fez a revista Cahiers du Cinéma ao resgatar a obra de Alfred Hitchcock e John Ford, dentre outros, conferindo-lhe novo vigor.

 

Caminhando em vias parecidas, o discurso final de Anton Ego traz o seguinte: “há vezes em que um crítico realmente arrisca algo e isto é na descoberta e na defesa do novo. O mundo geralmente é indelicado com novos talentos, novas criações. O novo precisa de amigos”. A iniciativa de resgatar obras esquecidas, desconhecidas, subvalorizadas ou de estreantes que não conseguem espaço é um dos possíveis trabalhos da crítica.

 

Há redatores e publicações que se limitam a escrever sobre os filmes de mainstream, quando poderiam ampliar sua atividade e levar aos leitores trabalhos merecedores de destaque, sejam eles mais antigos em processo de releituras ou contemporâneos que não fazem parte de um esquema forte de distribuição. A revista Contracampo, por exemplo, costuma exercitar esse valioso papel ao trazer à baila diretores como Apichatpong Weerasethakul, Rogério Sganzerla e Julio Bressane. Sobretudo em uma época em que se baixa longas facilmente pela internet e se tem acesso a mostras de filmes raros, a crítica online, com mais liberdade em relação à necessidade de retorno comercial do que a mídia impressa, pode – e talvez deva – dar espaço a esse cinema e provocar discussões.

 

Às vezes é preciso sair do lugar-comum e a crítica pode dar o pontapé inicial. Se Farber, de A Dama na Água, fala “não há mais originalidade no mundo” – aliás, uma ironia de Shyamalan -, Anton Ego, no final de Ratatouille, diz ao cozinheiro, com um sorriso no rosto e ansioso pela chance de ser abalado e rever seus conceitos: “Surpreenda-me!”

  

Filmes citados

Crime Delicado (idem, 2005/ Beto Brant)

A Dama na Água (Lady in the water, 2006/ M. Night Shyamalan)

Dirigindo no Escuro (Hollywood ending, 2002/ Woody Allen)

Ratatouille (idem, 2006/ Brad Bird)