por Mariana Souto

O Homem sem Passado

A notícia do falecimento do ator Markku Peltola, protagonista de O Homem sem Passado, provoca um certo saudosismo e desejo de rever o filme, imergir novamente em seu universo e falar sobre ele. Morte, busca e tentativa de recuperação, aliás, são temas bem presentes no longa de Aki Kaurismäki.

M leva uma surra na rua e perde a memória. Depois de uma passagem pelo hospital, é ajudado por algumas pessoas e acaba parando nas bordas de Helsinque, onde tenta começar a se estabelecer – aluga um lugar para ficar, procura emprego, faz amizades e inicia um romance. Logo antes do espancamento, seu relógio de pulso pára de funcionar. No hospital, sua pulsação cessa. É dado como morto, até que, numa cena de humor sutil, com movimentos discretos e inusitados, repentinamente se levanta, tira os tubos e foge.

Para o personagem, foi necessário que sua vida pregressa fosse interrompida para que assim pudesse começar do zero. Sendo assim, o ponto de partida para a nova vida é a morte – clínica. A fala do médico que declara o óbito ilustra esse momento de ruptura e renascimento: “ele está morto. Enfermeira, ligue para o necrotério. Vou para a maternidade”.

O próprio espancamento marca metaforicamente esse processo doloroso de expurgação do passado, em que se sofre para depois poder esquecer. Mais tarde, M é encontrado próximo do mar por crianças, dois símbolos fortes de renovação. Aos poucos vai se ajustando – arruma a casa nova, planta batatas, põe a tralha para fora e coloca música para dentro. Mas acima de tudo, começa a se envolver com Irma e a partir daí, a vida de ambos floresce. Ela, quarentona, lhe confessa que ele é seu primeiro amor. E ele, um pouco mais velho, recorre a atitudes um tanto infantis para expressar afeto, como na cena em que diz que ela tem um cisco no olho apenas para roubar-lhe um beijo.

Muito do humor do filme se encontra nessa leveza, na forma sutil e minimalista como as pessoas conversam, agem e até se deslocam. Até mesmo o espancamento é filmado de forma extremamente seca e crua, sem excessos de trilha ou decupagem. Com isso, não se quer dizer que O Homem sem Passado seja naturalista no sentido da desdramatização e do improviso de atuação, já que Kaurismäki parece coreografar a encenação e marcar com precisão cada movimento e fala dos atores. Ainda assim, o faz dentro de uma singeleza e de um minimalismo perceptíveis. Os personagens se movem de forma um tanto quanto dura e repentina, lembrando um pouco a criação de Wes Anderson em seus filmes, com pausas dramáticas e diálogos com toques de nonsense. Em uma cena, M se oferece para levar Irma em casa:

M: Posso acompanhá-la? As ruas são perigosas à noite.
Irma: Não é longe, eu me viro.
M: Tenho certeza. Falei por mim. Tenho medo do escuro.


Entre vários momentos de diálogo inspirado e humor distraído, M e Irma se relacionam e isso os modifica. Ele passa a se vestir bem, a fazer com que a banda toque músicas mais animadas, dando vitalidade à trilha sonora de sua própria vida. Ela se sente mais vaidosa, redescobrindo-se mulher debaixo do uniforme sóbrio, e usa maquiagem – momento que lembra Fernanda Montenegro passando batom no final de Central do Brasil.

M recupera a alegria de viver. O processo se dá aos poucos, à medida que diminui as bandagens que cobrem seu corpo. Aki Kaurismäki faz assim uma alegoria do desprendimento – mostra a dor que envolve esquecer o passado e a abertura para a felicidade que se torna possível depois da superação das marcas e traumas anteriores. A amnésia - um exagero poético - acontece para ele exatamente nesses marcos de virada na vida: a troca de emprego e o fim de um casamento. A partir daí, M precisa recomeçar. Apenas quando consegue deixar o passado de lado, torna-se livre para prosseguir.

A construção da nova etapa se dá de forma juvenil e desprendida, apesar da meia-idade que já pesa nas costas. Ele se insere na comunidade e passa a fazer parte da vida das pessoas ao seu redor, coisa que parecia não ocorrer anteriormente. Se antes ele era sozinho, vulnerável ao espancamento de arruaceiros, agora o policial da região comenta que “eles tem espancado muitos de nós”. M confirma: “nós?”. Sim, nós. E os novos amigos surgem para defendê-lo. Ele agora faz parte.

Se antes a vida esvaecia tristemente, nas cenas que se acabavam em fades para o preto, as seguintes começam em corte seco, vívidas. Kaurismäki observa a ação de longe, em planos conjuntos estáticos, com algum distanciamento. M é retratado, muitas vezes, em planos mais aproximados, ele próprio observador do espaço, do mundo. É como se a renovação e a perda da pesada memória o aproximasse de um novo mundo, cheio de descobertas e sentimentos talvez antigos e já experimentados, mas agora distantes. Em uma cena, relata imagens para Irma e diz “pode ter sido um sonho. Comecei a tê-los de novo.” “É um bom sinal.”

Filmes citados
Central do Brasil (idem, 1998/ Walter Salles)
O Homem sem Passado (Mies vailla menneisyyttä, 2002/ Aki Kaurismäki)