por Leonardo Amaral

Rogério Sganzerla em seis tempos: “Informação H.J. Koellreutter”, “B2”, “Documentário”, “Irani”, “Viagem e descrição do Rio Guanabara por ocasião da França Antártica” e “Linguagem de Orson Welles”

sganzerla


1 - Informação H.J. Koellreutter

 

Não é intenção aqui a escrita em seis compassos na estrutura harmônica. Qualquer acompanhamento musical é bem-vindo. Pois Rogério Sganzerla fez um curta-documentário sobre Koellreutter. Ao fazê-lo, o seguinte artifício: fazer um filme dodecafônico. Para tanto, duas obras do compositor alemão que transitam por sua fala. Koellreutter fala a respeito de sua trajetória; o nome do curta é Informação H.J. Koellreutter. Sganzerla lança mão de algumas imagens do Rio de Janeiro, paisagens e pessoas, bem como do corpo do músico na cena. Nos depoimentos, jump cuts, falas praticamente inaudíveis se intercalam às composições do professor de música erradicado no Brasil. Uma maneira inventiva e pouco óbvia de dar conta de um autor e sua obra. Fragmentar a fala, mas não perder a sua essência, o filme de Sganzerla é o cinema de invenção que propõe um trânsito com uma engenhosa música erudita do século passado. Aliás, música erudita não, pois, segundo Koellreutter,  a música clássica pode apenas ser uma: música popular.

 

Da música possível ao cinema perdido. It’s all true é o filme natimorto de Orson Welles, o filme-fantasma que jamais saiu da cabeça de Rogério Sganzerla. E Sganzerla também tem seu filme-fantasma: Carnaval na lama foi levado para um festival na França e nunca mais retornou. Como um filho perdido, que um dia saiu de casa para não voltar. Na parábola bíblica, o filho mais moço pede ao pai sua parte na herança com intuito de conhecer o mundo. Ele experimenta o mundo, perde todo o dinheiro que havia ganhado e volta para a casa. Antes, porém, é levado a apascentar porcos. Diante da fome que lhe acometia, coloca-se a comer a mesma comida que os suínos se serviam. O fato traz a reflexão: poderia voltar para o lar, onde os empregados do pai comiam do melhor pão. Pródigo, torna à casa, recebido é pelo pai, de braços abertos e feliz pelo retorno.

 

2 - B2

 

 B2 é o que restou de Carnaval na lama. Não houve prodigalidade por parte de Sganzerla: é bem verdade, ele é o pai que sonha com a volta do filho. Sonha, inclusive, com o filho de outrem, talvez como forma de não negar o pai, Welles. B2 é o casamento do bandido ao som de um carnaval alegórico sob os formatos diversos do samba, aos acordes energeticamente saídos da guitarra de Jimi Hendrix. Os restos ganham forma na montagem de Rogério Sganzerla e Sylvio Renoldi. Na batida alternada dos compassos de Hendrix, as imagens se intercalam, não como um simples videoclipe, mas de um filme que se constrói com a música, e não a partir dela. Reconhecemos os personagens – estão lá Helena Ignez, Paulo Villaça -, mas eles estão deslocados para outro tempo, para um contexto que os envolve de outra maneira. Carnaval na lama volta a existir ao se intercalar com O bandido da luz vermelha: o filme é maneira que Sganzerla encontra de retomar o filho. B2 é parte de uma fusão, para explodir logo depois: fissão nuclear.

 

3 - Documentário

 

Se B2 poderia ser um documentário sobre um filme perdido, Documentário é uma ficção sobre a arte de documentar. Os dois jovens caminham pelas ruas de São Paulo e falam de filmes. Mas falam, sobretudo, de estar na cidade. Diria mais: retratam o que é filmar a cidade. Os cartazes de filmes, as cenas citadas se misturam às ruas da cidade: a implicação disso é um filme que expõe a cidade como o lugar do cinema. Baudelaire encontra as ruínas parisienses em sua poesia, Poe mostra que a cidade é o lugar da escuridão, Grosz expõe as figuras estranhas do universo citadino alemão em sua pintura. O cinema é a reunião de tudo isso. A fotografia atenta para uma cidade que merece uma atenção maior daquele que a olha e que nela está. Os filmes deflagram o movimento que a fotografia, obviamente, não pode realizar. Por isso é preciso andar pela cidade para (re)conhecê-la. A morosidade de São Paulo se contrasta com uma programação repleta de obras notadamente marcantes de diversos autores cinematográficos. Godard, Ophüls, Fuller, Welles, todos passam a habitar a cidade, de alguma forma. “Sorte podermos caminhar pela cidade, chegará um tempo em que ninguém fará mais isso”, diz um dos rapazes. Esse tempo chegou, os carros dominaram as ruas, elas estão cheias deles, vidros fechados, escuros. Uma conversa como aquela quase não é possível mais. “Nunca havia filmado, daí resolvi pegar a câmera que ganhei e sair filmando pela cidade”, nos confidencia Sganzerla. Mais do que isso, Documentário é um registro de um trajeto que, pouco a pouco, se transforma em um documento sobre o tempo, ou sobre um tempo que não existe mais.

 

4 - Irani

 

Apesar de estarem totalmente envoltos pela realidade, filmes como O bandido da luz vermelha e A mulher de todos se constroem, notadamente, por artifícios bastante caros ao que podemos chamar aqui de ficcionais. Diferente desses, alguns filmes realizados por Sganzerla foram feitos sob alguma encomenda ou a partir de algum evento. Um deles é Irani, que ocorre em cidade homônima em Santa Catarina. Irani é o marco da Guerra do Contestado, no início do século XX, durante o governo do Marechal Hermes da Fonseca. O conflito armado envolveu a população camponesa, liderada por José Maria contra militares e outros representantes federais. Rogério Sganzerla nasceu em Joaçaba, que também fica na região. “Quando se fala no gaúcho, no carioca, sabemos bem o que pensar. Mas quando falamos do catarinense, qual é a imagem que temos dele? O catarinense é o contestado, é assim que ele deve ser visto”. Esse depoimento está no filme, o filme é o resgate dessa tradição: o cineasta, com a câmera na mão, se mistura aos personagens da festa que marca o aniversário do Contestado. Uma câmera que se aproxima de frente aos cavalos, que imprime movimentos circulares, estabelece uma gramática que emerge a partir da encenação que a população da cidade constrói. Uma performance capaz de recontar a história. Ao final, Rogério Sganzerla aparece, encostado a uma caminhonete, a beber um tipo de cachaça tomada em um chifre de boi. O cineasta é um contestado, o filme é a sua maneira de olhar para o seu passado a fim de constituir uma história que lhe represente.

 

5 - Viagem e descrição do Rio Guanabara por ocasião da França Antártida

 

Ainda no âmbito da reconstrução da história, falamos agora de Viagem e descrição do Rio Guanabara por ocasião da França Antártica. É do conhecimento geral que durante o período colonial, mais precisamente no início do século XVII, o Rio de Janeiro, então Guanabara, foi invadido por franceses que, em uma porção de terra, constituíram aquela que ficou conhecida como França Antártica. Financiados pelo Almirante Gaspar de Coligny, alguns missionários vieram ao Brasil a fim de descobrir melhor as terras austrais. Eis que, em uma dessas empresas, veio para terras cariocas o pastor Jean de Léry, que viria a serviço de Nicolas Durand de Villegagnon, chefe do empreendimento colonial francês no território brasileiro. Rogério Sganzerla, sabedor da história, estabelece o seguinte artifício capaz de retomar os fatos que marcaram essa empresa gaulesa: Paulo Villaça se transforma no próprio Léry e narra suas aventuras. Enquanto relata para a câmera as impressões do lugar, o ator e a câmera transitam por locais autênticos do Forte de Coligny, onde se situava a tal França Antártica. O cineasta reconstrói os fatos, mas jamais deixará de empreender uma certa ironia, seja na inflexão de voz e expressões de Villaça, ou mesmo na forma como conduz a montagem e os planos em Viagem e descrição do Rio Guanabara... Essa é a maneira que o diretor encontra para recontar a história, ou seja, impregnando-a de encenação. É assim que a realidade (do filme) aparece.


6 - Linguagem de Orson Welles

 

Por fim, Sganzerla retorna às suas velhas questões. Em Linguagem de Orson Welles, o mistério da morte do jangadeiro Jacaré reaparece junto com as imagens da chegada do gênio ao Brasil, ao cancioneiro brasileiro, à Guanabara, ao lendário plano-sequência de A marca da maldade, aos depoimentos de John Huston e Grande Otelo, Shakespeare, ao espaço invadido pelas mulatas, à canastrice do próprio Welles, ao encantamento do cenário, ao samba-de-breque, à impossibilidade de se fazer cinema no Brasil, aos indecorosos desgastes propiciados pela RKO. Mister Welles no Brasil significou um não-filme: o seu desejo, algo que mostrasse o samba, a capoeira, as praias, os jangadeiros. O filme jamais feito, de alguma maneira, se concretiza na cabeça de Sganzerla, que apresenta, nessa tal linguagem de Orson Welles a gramática possível para o cinema perdido. Linguagem de Orson Welles é a versão otimista de O Signo do caos. Mas se antes havia luz, a de Copacabana que seja; agora o que resta é a escuridão, restam sombras na parede que se misturam as imagens sonhadas por Welles. O cinema de Sganzerla se funda todo nesse trauma wellesiano. O que resta disso tudo? O caos e a experimentação, sempre.

 

Filmes Citados:

Informação H.J. Koellreutter (idem, 2003 – Rogério Sganzerla)

B2 (idem, 2001 – Rogério Sganzerla)

Documentário (idem, 1966 – Rogério Sganzerla)

Irani (idem, 1983 – Rogério Sganzerla)

Viagem e descrição do Rio Guanabara por ocasião da França Antártica (idem, 1976 – Rogério Sganzerla)

Linguagem de Orson Welles (idem, 1990 – Rogério Sganzerla)

O bandido da luz vermelha (idem, 1968 – Rogério Sganzerla)

A mulher de todos (idem, 1969 – Rogério Sganzerla)

Signo do caos (idem, 2003 – Rogério Sganzerla)

Carnaval na lama (idem, 1975 – Rogério Sganzerla)

It’s all true (idem, não finalizado – Orson Welles)

A marca da maldade (Touch of Evil, 1958 – Orson Welles)