por Leonardo Amaral

“É Proibido Fumar”, de Anna Muylaert

fumar

Por que ao cinema brasileiro atual persiste ainda uma tendência hedionda de se temer criar personagens, e não protótipos? Sim, estamos fatigados de assistirmos em tela a meras representações, em vez  de lidarmos com alguém que queremos sentada no sofá, simplesmente a dar uma aula de violão a uma velhinha simpática que repete as notas musicais (“mi, mi, fá, sol”) enquanto os dedos curtos parecem não se prender totalmente às cordas, insistindo sempre em tocar o traste do instrumento – que evidencia um som lastimável do ponto de vista musical, mas lindo do ponto de vista cinematográfico. Estamos em um apartamento que poderia ser qualquer um dos diversos imóveis da capital paulista. Vivemos diante do balé dos carros no trânsito infernal de São Paulo: Anna Muylaert sabe que é na música e na movimentação precisa da câmera em um travelling lateral que está a execução daquilo que nos acostumamos a denominar cinema, ao contrário de outros tipos de cena (se é que podemos chamar de cena) exibidas em sala escura.

 

Encenação. Palavrinha básica da arte de se representar. O teatro antigo construiu os arquétipos. Esses que ganharam releitura da Comedia dell’arte, com todas as suas improvisações e farsas, mas com as mesmas representações. O Arlequín será sempre o Arlequín, bem como a Colombina, o Brighela. No entanto, o que se tinha era verdadeira brincadeira com os arquétipos. O teatro moderno veio, mais tarde, implodir ainda mais com personagens fixos, arquetípicos, para falar do homem como fonte primária e promotora de todos essas ambiguidades. O cinema, como arte caçula, sempre fora, de alguma maneira, o local do personagem, a encenação fora das máscaras da representação.

 

O cinema como a arte da operação, da manipulação, mas certamente sob o risco de não mais lidar com a herança dos arquétipos e da representação, para trabalhar sob a égide os protótipos. O cinema americano, durante toda a história – até por ser aquele que melhor se adaptou e soube criar um tipo de indústria de entretenimento –, muitas vezes esteve paralisado a estas questões, colocado nesse limbo. O cinema brasileiro, que outrora, nas chanchadas ou, futuramente, nas pornochanchadas, soube, em diversos filmes, funcionar no entreato do popular e da representação digna, hoje parece remeter sempre a exceções; faltam-nos personagens, sobram-nos um dilúvio de personas que pouco dizem cinematograficamente e menos ainda com aquilo que anseiam ser: representações de pessoas.

 

Vem-me à mente o fortuito: Proibido Proibir, No Meu Lugar e É Proibido Fumar, três recentes produções que lidam com aspectos do cotidiano, e, principalmente, com pessoas – um quarto exemplo poderia Hotel Atlântico, em sua construção de um real bem mais subjetivo do que os outros três, mas bastante emblemático também nesse tipo de construção cinematográfica nacional. Filmes que fogem à estrutura do filme histórico, biográfico, musical ou de estética da violência e do tráfico para trazerem as relações do dia-a-dia dando vazão ao que mais clama esse tipo de cinema, a encenação e uma câmera que possibilite as relações entre os corpos colocados em cena. Não estão em jogo protótipos de vida, mas sim a própria vida, crível e, acima de tudo, que me interessa (como também a qualquer espectador de cinema) exatamente por existir ali personagens interessantes, que intriguem, que respirem, que sofram, que fumem, que anseiem, que pensem, que vivam segundo a diegese na qual são colocados. Uma realidade fílmica que possibilite exatamente isso: personagens, e não submersões desses.

 

Gloria Pires. Atriz do consórcio enfadonho e sofrível Se Eu Fosse Você. Lá, na crassa comédia de Daniel Filho, ela é a esposa que troca de lugar com o marido para viver resquícios de realidade, vistas sob orientação rasa do cotidiano. O humor advém de um olhar torto e preconceituoso, e o riso é quase uma consequência vergonhosa de certos ranços existentes na televisão e mídias do Brasil. O espectador ri por sua total desorientação cotidiana, ou, possivelmente, por remeter a esse tipo de produção um certo tipo de cópia vomitada de um cinema que se constrói na industria cinematográfica em sua utilização dos velhos protótipos, piadas prontas, mecanicismo besta e pernóstico de quem quer apenas um novo produto, não se preocupando se esse é (ou não) uma besta representação do vazio abissal ao qual se vincula esse tipo de execução.

 

Gloria Pires. Atriz de É Proibido Fumar, fumante compulsiva, que vive às turras com uma das irmãs, que é confidente da outra e que se apaixona pelo vizinho músico de restaurantes que acaba de se mudar para o apartamento do lado após chegar de Sorocaba. Eis, na pequena descrição anterior, a complexidade possibilitada por uma simples estrutura construída em poucos cenários. Se nos filmes de Daniel Filho o que existe apenas é um acaso que tentar criar, a fórceps, as situações de sua produção, no longa de Anna Muylaert o que vemos é exatamente o contrário, percebemos as situações pelas quais desliza a narrativa, sem trancos, macia como são os movimentos de travelling que acompanham Max (Paulo Miklos), que, em momento de intimidade com Baby (Gloria Pires), deixa o violão sobre o canapé para colocar um disco de vinil na vetusta vitrola sobre interesse em demonstrar como Jorge Ben Jor é melhor do que Chico Buarque. A música que toca no toca-discos é a mesma que, em arranjos diferentes, está sempre presente, como se aqueles corpos fizessem parte do tom da melodia, e não a melodia a conotar sentimentos. A trilha não é escrava da encenação, ela é parte dela, como no balé dos carros.

 

A relação entre Baby e Max já nos é bastante próxima, a câmera de Muylaert nos coloca a par daquele cotidiano, como se, de alguma forma, ela funcionasse como o furo feito por Gloria Pires na parede para que possa ver do outro lado, para comprovar que o namorado ainda se encontra com a antiga esposa. Existe sempre essa onipresença da câmera em favor de nos compartilhar as intimidades dos momentos. É na imagem que reside a força do filme, na presença dos corpos, na evidência dos fatos. É Proibido Fumar é um filme de registros, seja nas fotografias de Max e Estelinha (a ex-mulher) apresentadas na abertura, na representação física do sofá da tia de Baby, no circuito interno do prédio que guarda a imagem-cisão, o mcguffin que guiará a segunda parte do filme.

 

Após abstinência de cigarro, logo que descobre, através do buraquinho da parede, que Max estava com a ex-mulher, sem querer, ao esquecer de puxar o freio-de-mão do carro, Baby a atropela. A morte fica registrada nas imagens em vídeo e são descobertas pelo porteiro, que suborna Max, que pega dinheiro emprestado com Baby sob a mentira de que a quantia seria usada para pagar uma dívida de jogo. Na construção do roteiro, o artífice para que a imagem una e estabeleça de vez a relação que se constrói por etapas. Não reside simplesmente no roteiro fechado e na narrativa bem construída o grande trunfo de É Proibido Fumar, esses são apenas alguns deles. Há, na mise-en-scène,  a abertura para muitas outras possibilidades no filme.

 

A construção do final é de uma beleza tocante. Muylaert estabelece a tensão, os espectadores e Max sabem do incidente ocorrido e passamos agora a vivenciar a apreensão de como tudo aquilo vai se estabelecer no futuro. Max prefere a culpa compartilhada à perda da intimidade advinda da mudança para o apartamento de Baby. É tudo minuciosamente construído: Max chega do jogo de futebol e, propositalmente, deixa com que Baby perceba que ele guarda a cópia de VHS no console da sala. Durante o seu banho, ela vai até o móvel e assiste ao que ali se encontra gravado. Antes que o marido volte, ela retorna a fita para o mesmo lugar. A câmera, posicionada de tal forma que nos possibilita ver a chegada de Miklos no corredor, e Gloria Pires a guardar a fita no console, é a maneira encontrada na mise-en-scène de que aquilo tudo cabe em um mesmo espaço, é uma espécie de compartilhamento entre personagens e espectador, unidos pela imagem e pela força que ela fornece às relações do casal e da tríade com o público. É tão forte que a câmera continua a enquadrar os dois no sofá, preparam-se para jantar, mas antes se beijam. Eis o fade-out, no entanto, sem que os sons cessem, continuamos a escutar os sons do apartamento.

 

No início do filme, durante os créditos, a fumaça (fração visual) nos estabelecia e nos unia àquele universo. Agora são os sons e a canção em acústica do violão que afasta qualquer sentimento de abandono. Um último plano, a recém-chegada família ao apartamento do lado e a pequena chinesinha a observar, pelo buraquinho da parede, a intimidade do lado. Anna Muylaert sabe que esse buraquinho não mais será fechado.

 

Filmes Citados:

É proibido fumar (idem, 2009 – Anna Muylaert)

No meu lugar (idem, 2009 – Eduardo Valente)

Hotel Atlântico (idem, 2009 – Suzana Amaral)

Se eu fosse você 2 (idem, 2008 – Daniel Filho)

Proibido proibir (idem, 2007 – Jorge Duran)

Se eu fosse você (idem, 2006 – Daniel Filho)