por Leonardo Amaral

Curtas Série 4 – Mostra Panorama: Coração, Valparaíso, Verão, 1976, Princípios da Incerteza e Epox

Coração, de Pedro Faissol

 

por Leonardo Amaral

 

Coração é quase um retrato, ou, ao menos, objetiva  sê-lo, na medida em que investe em uma comteplação de todo o universo que o cerca. Um lugar paradisíaco, uma câmera que se concentra em um personagem que transita por lá, entre as pedras, próximo ao mar. Eis que a câmera deflagra seu rosto, para, logo depois, flagrar seu torso, para que estejamos diante do coração.

 

Mas, até que ponto esse contento de observação não se constitui exatamente nisso, um exercício puro e simples de contemplação, que acaba por se esvaziar por completo frente aquilo que propõe até como diegese? Pedro Faissol corre realmente esse risco, o de não obter o estado poético ao qual buscava para ter uma obra que constitui ainda um retrato, sem que esse, no entanto, seja um retrato vivo, como as fortes do filme sugerem. Um punctum barthesiano, ao menos, algo ausente, distante. Coração é um filme que se perde frente ao próprio objeto, menos por incapacidade, mais por um tipo de olhar que escapa, se deslumbra e falha.

 

* Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Valparaíso, de Diego Hoefel

 

por Leonardo Amaral

 

Está em Valparaíso, no litoral chileno, uma plataforma onde os trabalhadores que ali trabalham e vivem uma rotina diária totalmente distante do resto do mundo, uma vida que se constrói em acordo com a paisagem, com as próprias cores do local. Um dos operários caminha pela maquinaria industrial, uma caminhada solitária, um tipo de solidão compartilhada que existe fortemente para cada um daqueles corpos. Um outro homem fala em um rádio de comunicação, de costas, escutamos sua voz, enquanto, ao lado, um outro trabalha nos painéis de controle, mas para um pouco o exercício para olhar para o colega. A câmera, mais uma vez fixa, mais do que denotar um certo estado das coisas, é a própria observação do tempo, por vezes corrosivo, em outros distante, ao mesmo tempo fascinante. O companheiro que escuta e olha para o outro falar, uma necessidade quase automática de se escutar a voz, som diferente daquele das máquinas dali, representação substancial das coisas e espírito local.

 

Duas belas imagens: a dos trabalhadores a pendurar pequenas bandeiras do Chile na porta, para uma comemoração de uma festa - escutamos uma música brasileira e a câmera está posicionada fora do salão, como se compartilhássemos de todo o espírito que ali reside, ao mesmo tempo em que restamos do outro lado, para que aquela intimidade ainda caiba aos moradores do lugar; somos os convidados que virão depois. A outra cena é o ultimo plano, do homem que resta a observar o mar, enquanto podemos escutar a música e os sons da festa. É um momento de total imersão em devaneios e pensamentos - por estar de costas, vivemos o distanciamento total dos fatos, assim como o plano, com os navios que passam em frente, remete diretamente a esse estado de distância. O homem sai de seu estado de contemplação para voltar para a festa. A câmera insiste, estamos repletos da imagem, nela nos perdemos e vivemos a ambigüidade de toda aquela relação de tempo e espaço, presença e distanciamento.

 

*Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

1976, de Carlosmagno Rodriguez e Alonso Pafyeze

 

por Leonardo Amaral

 

O filme de Alonso Pafyeze e Carlosmagno Rodrigues é uma imagem de choque, uma prova de Resistência. Reside ali um envolvimento que não se dá numa relação de enforços e criação de expectativa, a imagem é provocadora: um homem e duas galinhas amarrados e submerses. No entanto, após os limites, a resistência minada, 1976 se configura apenas nesse choque, e é exatamente aí que o curta se perde.

 

*Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Verão, de Thiago Pedroso e Hiro Ishikawa

 

por Leonardo Amaral

 

Verão é um filme que encontra na dor do rompimento a expressão estética que melhor retrata o cotidiano fechado daqueles personagens em suas férias de verão na praia. No local, esta dor é encontrada na comunhão entre a captação e a encenação. Uma relação, um casal em seus momentos de felicidade e brigas, que passam pelos dias ensolarados no mar, ou nos conflitos nas noites de chuva. No entanto, não há metáforas óbvias, ao contrário, esses estados se misturam, se tornam complexos. O filme investe nessas ambigüidades, uma espécie de naturalismo naquela relação que acaba sendo a grande força do curta de Thiago Pedroso e Hiro Ishikawa.

 

*Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Princípios da incerteza, de Cauê Brandão

 

por Leonardo Amaral

 

Cauê Brandão parte do próprio princípio da incerteza para construir seu filme: um pai e uma criança tentam capturar um rato que se encontra atrás do sofá da sala. Eles pegam o roedor, colocam dentro da caixinha e o deixam próximo a um bueiro, na rua, sem matá-lo; ao final, a mãe chama o garoto para matar um outro rato no banheiro, e o menino o faz. Temos, largamente, uma linha narrativa que guia o filme, a transformação na vida daquelas três pessoas, uma família em processo de degradação e separação. Durante o filme os conflitos todos vão sendo guiados em direção a esse final, uma construção que está presa a essa idéia pré-concebida, se prende a esse início e fim, o meio é apenas uma ponte, bamba, para esse elo.  Esse aprisionamento retira bastante a força que existe no conflito daquela família, as ambiguidades são retiradas para se partir de uma elaboração precária.

 

*Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

Epox, de Sérgio Oliveira

 

por Leonardo Amaral

 

Epox é uma tentativa de experimentação de vida, de trafegar com a câmera por uma comunidade de hippies, de adentrar aquele universo, fazer parte do evento, se enveredar por entre os caminhos. A comunidade fica na Colômbia e, em razão da localidade, são trazidas outras questões que perpassam a realidade da região e do próprio país, em especial a influência norte-americana ali, algo que evidencia um espírito anti-capitalista que ainda resiste na atualidade que se mistura ao de antigamente. Este conflito é talvez o aspecto mais interessante do filme de Sérgio Oliveira. No entanto, essa possibilidade se dilui por conta da abordagem do filme, que procura dar conta de vários aspectos, que, por conta da montagem, acaba por se perder.

 

* Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

Filmes Citados:

Coração (idem, 2009/Pedro Faissol)

Valparaíso (idem, 2009/Diego Hoefel)

Verão (idem, 2009/Thiago Pedroso & Hiro Ishikawa)

1976 (idem, 2009/Carlosmagno Rodrigues & Alonso Pafyeze)

Princípios da incerteza (idem, 2009/Cauê Brandão)
Epox (idem, 2009/Sérgio Oliveira)