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por Leonardo Amaral
Curtas Série 1 – Mostra Foco: Bem Vindo Guilherme, Perto de Casa, Sweet Karolynne, O Divino, de Repente e Guilherme de Brito
Bem Vindo Guilherme, de Dellani Lima e Rodrigo Lacerda Jr.
por Leonardo Amaral
Um exercício aparentemente simples seria o de filmar e retratar em imagem (e em filme) a chegada de uma criança ao mundo, desde os momentos de espera no hospital até o momento do nascimento, com os primeiros contatos com a família. Os personagens de Bem vindo Guilherme são a própria família e o recém-nascido que dá nome ao curta de Rodrigo Lacerda Jr e Dellani Lima. As filmagens acontecem no dia 13 de outubro de 2009, dia do nascimento do bebê. No entanto, a articulação não se dá de acordo com o que seria um documentário de um nascimento ou simples imagens de registro em conjunção experimental. O que há é sim uma narrativa do evento, com construções dramáticas e montagem linear dos momentos que constituem a chegada de Guilherme.
No início, a família é apresentada em créditos, estão ali os personagens que participarão da saga. A câmera acompanha os vários cantos da casa, com cada um ali funciona com uma pecinha dramática. É por isso que a montagem se faz bastante importante, não só pelo filme não se construir através de planos sequências colocados para construção da situação (ao contrário, o filme é bem cortado, por isso se constrói segundo uma lógica bem mais ficcional, por mais que trate de uma realidade, de um fato, alias, bastante real). E reside nesses aspectos e expectative a força do filme: ele só existe porque lida com o real, com um o aqui e o agora; mas o faz de tal maneira que, ao ser narrado de acordo com uma lógica que contraria a do documentário, a do registro, faz com que não esteja no simples retrato do evento, para ser, potencialmente, o próprio evento.
*Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes
O Divino, de repente, de Fábio Yamaji
por Leonardo Amaral
O Divino, de repente é também uma fábula. Melhor ainda, podemos pensá-lo como fabulações, já que transcorre em imagens as palavras de seu personagem, um trovador, de fala rápida e ininterrupta, com grandes feitos traduzidos em grafismos, efeito que, para além da ilustração das anedotas, é uma construção interessante da própria fala. O curta de Fábio Yamaji é uma brincadeira, com as palavras, com um personagem, e com o cinema. Divino é o filme, mas não o é sozinho. A feitura simples da animação, mas principalmente a combinação com as estruturas de montagem de se fazer sumir aqui e aparecer lá (ditas pelo próprio Divino) são a evidência do tom engraçado de um filme que é um ótimo retrato de seu personagem.
* Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes
Guilherme de Brito, de André Sampaio
por Leonardo Amaral
Talvez a melhor maneira de se retratar um universo tão particularizado a certos espaços e contextos seja mesmo através de um passeio, por esquinas cariocas, pelo cais; simbólicos, mas, em especial, reminiscentes. André Sampaio trata sim da memória: do samba, de Guilherme de Brito, do Rio de Janeiro, de um tempo que notadamente não existe mais como antes. No entanto, o curta-metragem não impõe ou expõe um movimento saudosista. Não é, definitivamente, um filme sobre o passado, mas, ao contrário, uma constatação de que esse passado ainda reside fortemente, seja nas esquinas pelas quais passa a câmera, que percorre o jogo de cartas dos aposentados até chegar a Guilherme de Brito, seja na arte em azulejos realizada pelo próprio compositor no muro de sua casa.
Sampaio mistura todas essas imagens com os outros desenhos feitos por Brito. Há, inclusive, uma bela imagem de um menino a desenhar no chão com riscos de carvão ao som de uma das canções do músico. A música está onipresente no filme, ou melhor, se interpola à imagem. É possivel dizer que Guilherme de Brito é um musical que se mistura a História da música brasileira e carioca. Personagens como Nelson Cavaquinho estão presentes nos casos e nas entranhas do curta. O filme é feito de belos momentos, em especial aqueles em que Guilherme canta suas canções com outras pessoas, por vezes em sua casa, mas, em especial, nas próprias ruas. O grande retrato do filme bem pode ser o momento de procissão musical, das pessoas com violões ao colo e com a voz empenhada a cantar as músicas realizadas por Brito. Não uma simplesmente uma homenagem, sobretudo uma forte presença.
* Visto na 13 Mostra de Cinema de Tiradentes
Perto de Casa, de Sérgio Borges
por Gabriel Martins
É impressionante como a “imagem caseira” pode tomar um aspecto de singularidade e comicidade ao ser transferida para a tela e transformada em um filme com créditos, e não só mais um registro de memória familiar ou pessoal. Encontra-se o humor na situação, mas também no ato de registro daquela situação, como se a câmera se revelasse como meio e sujeito tornando o espectador um elemento terceiro, antes da câmera. Em Perto de Casa existe fortemente este pacto dos três elementos: os meninos atores, Sérgio Borges ator voz extra-campo / operador de câmera e espectador, este enxergando as crianças e o diretor-câmera- subjetiva. Os garotos comentam a distorção da imagem, interferem nela, envolvem o realizador, convidando-o para a cena.
Jean-Louis Comolli diz que: “Há, nos dias de hoje, um saber e um imaginário de captação de imagens que são muito compartilhados. Aquele que filmamos tem uma idéia da coisa, mesmo que nunca tenha sido filmado. Ele a representa para si, prepara-se de acordo com o que imagina ou acredita saber dela”. A grande magia de Perto de Casa é a tensão que coloca nesta afirmação de Comolli. Em uma cena específica, um dos meninos pergunta a Sérgio/ câmera se ele pode ficar pelado para brincar na areia. Sérgio permite e o garoto tira a roupa com completa naturalidade e fica brincando pelado. Um carro passa e o menino se esconde, com vergonha (real ou não, existe um medo do olhar do desconhecido). Como criança que é o menino basicamente não se considera como imagem, não pensa sua exposição a partir do registro, mas sim a exposição do momento, ao vivo. Sua interação com Sérgio traz complexidade como exercício de alteridade no sentido em que sua inocência é carregada de um “real” que explode qualquer vestígio de planejamento seja do lado de Sérgio, seja do lado dos próprios meninos – essa é a beleza do material “caseiro”, que normalmente envolve sujeitos já familiares.
Além de tudo isso, Perto de Casa consegue observar e escolher momentos engraçadíssimos que se complementam em um grande painel da liberdade infantil, a despreocupação com o contato físico como o atingir de uma cumplicidade de irmãos que provavelmente se perderá com o tempo. Que se registre, portanto, tornando único e especial. O filme de Sérgio Borges é um dos filmes mais belos produzidos pela Teia e carrega em si uma verdade da inocência presentes em planos como a incrível “puxada” final, exemplo que traduz toda uma construção que se dá no básico, na auto-mise-en-scène criada não no constrangimento, mas no inocente desprendimento infantil do objeto fílmico.
*Visto no CineBH 2009
Sweet Karolynne, de Ana Bárbara Ramos
por Ursula Rösele
Em uma cidade da Paraíba, a situação mais insólita impossível: uma garota de uma maturidade impensável para pessoas com o triplo de sua idade, um galo de estimação chamado Jarbas e um pai que trabalha como cover de Elvis Prestley. E como resultado um documentário que ao invés de utilizar-se de estruturas clássicas de documentação, buscou a essência maior daquela realidade: uma criança precoce, uma família extremamente curiosa e toda essa cadência pontuada por uma montagem que potencializa o que de mais interessante poderia ser registrado dali sem cair na velha e cansativa estrutura documental de registro.
Os animais de estimação de Karolynne são galos. No plural, pois o mais impressionante na garota é o desprendimento com o ritmo natural da vida: em determinado ponto de seu crescimento, o galo irá para o corte e em seguida para a mesa da família. O que poderia ser um trauma para uma criança demonstra sua maturidade incrível para a vida. Karolynne compreende perfeitamente esse processo, já denotado em sua primeira frase no filme: “- O que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?” E ela, sem pestanejar: “a galinha”. Ela vem já de uma banca na qual é comprada pelos pais. Ou seja, a garota já compreende o ritmo industrial e natural da sociedade carnívora. Não existe um processo lúdico envolvido, a relação de um galo e uma galinha resultando num pintinho.
Essas questões se alastram no filme, quando Karolynne comenta o trabalho do pai. A garota o vê diariamente se transformando em Elvis Prestley e parece aficcionada com a ideia de morte, sem que isso seja visto de uma forma trágica. Ela sabe que o cantor morreu e protagoniza uma das sequências mais engraçadas do filme a esse respeito: passeando pelos posters da casa, mostra um Elvis semi-morto (suado, quase morto), o Elvis em sua boa forma, vivo. Uma criança que certamente poderia ensinar muito aos adultos. Filme que transita nesse limiar que muitos passam uma vida sem aceitar: a efemeridade da vida, sua crueza e o potencial para a doçura e o sorriso durante esse meio tempo.
*Visto na 4ª CineOP.
Filmes Citados:
Bem vindo Guilherme (idem, 2009/Rodrigo Lacerda Jr & Dellani Lima)
Divino, de repente (idem, 2009/Fábio Yamaji)
Guilherme de Brito (idem, 2009/André Sampaio)
Sweet Karolynne (idem, 2009/Ana Bárbara Ramos)
Perto de Casa (idem, 2009/Sérgio Gomes)







