por Leonardo Amaral

Cabeça a prêmio, de Marco Ricca

cabeca

por Leonardo Amaral

 

O Brasil em suas fronteiras, os matadores de aluguel, o império da violência e das relações em estilhaço, seja pela bala sempre colocada no coldre ou por uma expectativa mínima de crença nas pessoas. Na câmera que do alto nos oferece o relevo e o gado que corre pelos campos (mais tarde descobrimos que o piloto de avião Denis, um estrangeiro, é o causador dessa câmera voadora), vemos de cima aquele lugar e aquela gente, um olhar que as poucos se lança mais próximo, que retira o enquadramento aéreo para ganhar a altura do homem.

 

 É esse o movimento do filme de Marco Ricca, essa transição entre uma visão superior para uma tentativa mínima de diálogo, sempre repleta pelos resquícios de arrogância. Eduardo Moscovis e Cássio Gabus Mendes são matadores, mas, em especial o personagem do primeiro procura se entender em uma relação amorosa que já nasce ameaçada pela situação; Denis faz viagens de ida e volta para a Bolívia para realizar o tráfico de mercadorias do patrão, ao mesmo tempo em que trama junto com a filha do mesmo um golpe para que possam fugir; Fulvio Stefanini é magnata, dono de todo o gado que assistimos ao início, mas que é o retratado marcado da falência completa de tudo (quase sempre está sentado na poltrona a comer, gordo e com expressão carregada de quem não espera mais nada), ao não conseguir comunicabilidades com a família - em especial a filha e a mulher -, ser traído por todos, e vivenciar a decadência moral, física e psiquica durante todo o filme (não por menos encontra na comida o único prazer de viver).

 

Cabeça a prêmio em muito se assemelha aos filmes de Beto Brant - Os Matadores e O invasor - , por partir, evidentemente, de um roteiro de Marçal Aquino e por trazer para a cena uma atmosfera carregada e violenta, no entanto com uma relação bem mais ambígua com os personagens, um estranhamento que vai se construindo durante a mise-en-scène. Elaine (Alice Braga), após passar uma noite com o namorado sem nada dizer ao pai, retorna a casa e é interrogada por ele. Na medida em que discutem, ela vai ao banheiro com a porta aberta e troca de roupa de frente a ele, numa relação que traz a perda de um respeito paternal, e, principalmente, reflete a degradação da comunicabilidade ali. Brito (Moscovis), em seu primeiro ato, atira em um jornalista local; após, passa quase todo o filme tentando se estabelecer com a dona de um bar, e, depois de ser abandonado por ela, cai em depressão profunda, impensável para um tipo que se mostra seco durante todo o longa. Aliás, no final de Cabeça a prêmio, ele toma uma decisão que diz diretamente do seu caráter, que, de alguma maneira, é também uma representação do que é o filme. Ao não matar Elaine, mais do que qualquer tipo de piedade, o que existe ali é uma possibilidade ética em meio a atmosfera errática que percorre a obra de Ricca.

 

Está na direção dessas situações, na forma amarrada e fechada do filme, o grande mérito de Cabeça a prêmio. É claramente um filme de roteiro, que precisa saber estabelecer uma narrativa bem elaborada para se construir aquele universo. A opção de Ricca é a da sofisticação dessa narrativa, de não procurar firulas para sua câmera e se concentrar naquilo que é mais importante em seu filme, a mise-en-scène das situações e a construção de seus personagens, em belo trabalho com os atores. Otávio Muller é o irmão bêbado de Stefanini, que vai se revelando com o desenvolvimento do filme, e, com isso, se tornando mais complexo e interstate, principalmente por ir, aos poucos, crescendo dentro do longa. Eduardo Moscovis jamais sorri, ao passo que Gabus Mendes é aquele que encara a vida sob uma perspectiva mais prazerosa (o ator sabe utilizar muito bem de suas deixas e falas para construir um personagem que, mesmo sendo o matador menos ético, nos faz sentir uma simpatia).

 

Reside sempre essa marca de cada um, traçada pela narrativa, mas há também essa ambiguidade que os acompanha: o corte, no ultimo plano, sem a execução do ato, sempre qualquer consumação de algo, vai reafirmar as imprevisibilidades de Cabeça a prêmio: sabemos que ele caminha sempre rumo a degradações, mas sempre nos mostrando outras formas de se chegar lá. Ana Braga, esposa do fazendeiro, a dançar bêbada na piscina da casa, é uma bela representação e forma de se entender essas representações sempre dúbias de caratér. Cabeça a prêmio paira naquela dança, a jogar o copo de whisky em direção à câmera.

 

*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Filmes Citados:

Cabeça a prêmio (idem, 2009/Marco Ricca)

Os Matadores (idem, 1997/Beto Brant)

O Invasor (idem, 2001/Beto Brant)