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por Leonardo Amaral
O Ano em que meus pais sairam de férias
Uma das várias características do cinema argentino desde a última década é a de conseguir retratar uma ocasião histórica sem que essa pareça forçada dentro da narrativa, caso de filmes como O Filho da Noiva e Clube da Lua. Os aspectos da infância também são muito bem apresentados, como acontece em Valentin ou Kamchatka. Caminhando nessa linha de abordagem humana tão familiar ao cinema recente de nossos hermanos, Cao Hambúrguer constrói seu filme em um paralelo entre o momento particular de uma criança e o caráter histórico nacional: a passagem de infância de um menino no ano de 1970 num contexto de ditadura e tri-campeonato mundial de futebol. Os dois fatos históricos influenciam a estória sim, mas nunca são preponderantes; nada soa panfletário e ufanista.
A narrativa é construída pela visão de Mauro e passamos a conhecer o seu mundo, ou melhor, sua forma de enxergá-lo, compreendê-lo e simbolizá-lo, muitas vezes a partir das metáforas com o futebol. Para construção desse mundo, Cao Hambúrguer utiliza-se de um artifício usado por Steve Spielberg em E.T.: lá, para mostrar o universo do personagem Elliot, ele coloca a câmera na altura do olhar do menino. No inicio de O ano em que meus pais saíram de férias, Hambúrguer concentra-se principalmente no jogo de botão e em Mauro. Quando a ação dos pais é filmada, a câmera pega quase sempre suas pernas e raramente se concentra nos rostos dos personagens. Através dessa técnica, logo no inicio, somos lançados em uma narrativa inteiramente centrada e focada no garoto. Toda a época de ditadura Médici aparece de uma forma singela e como já dita, serve apenas como pano de fundo para a ação cotidiana de Mauro e posteriormente de seu convívio em um bairro judaico em São Paulo.
Certa vez, Truffaut disse adorar dirigir crianças. Entretanto, a direção de personagens infantis é muitas vezes um trabalho árduo e muitos diretores de renome se perderam em seus trabalhos com atores de pouca idade. Cao já tem experiência nesse meio através da série de Tv e do filme Castelo Ra-tin-bun, O Filme, sendo ambos bastante interessantes no trânsito por esse universo lúdico. A direção de Hambúrguer nesse novo trabalho é bastante delicada, fazendo com que o público enxergue muito pelos olhos de Mauro, olhos esses bastante expressivos. A contribuição da narrativa acaba sendo o grande mérito para que possamos ver e sentir como Mauro. A delicadeza é encontrada na junção entre a planificação narrativa realizada pelo diretor com a expressão da atuação do garoto, que impressiona muito. Há um plano em que ele tenta olhar por um buraco pelo qual pode-se observar mulheres que trocam de roupa em uma loja. O olhar de Mauro é filmado de uma forma tão impressionante que retoma as lembranças do período de pré-adolescência, das descobertas e das primeiras experiências.
Há vários outros planos de grande inspiração em O ano em que meus pais saíram de férias. Dentre esses, destaca-se uma rima visual que demarca dois momentos distintos dentro do filme. Há dois planos em que um carro entra em movimento e nosso olhar é guiado para o vidro de trás do veículo. No primeiro desses planos, os pais de Mauro se despedem e deixam o menino em frente ao prédio onde mora o avô. Na medida em que o carro anda, a câmera se afasta e percebemos o quanto o personagem vai ficando pequeno na projeção. No final, o plano fica aberto e observamos o quanto o garoto se encontra solitário (somente ele na rua) e o quanto ele se vê pequeno perante a cidade de São Paulo. No outro plano, no final, o contrário acontece. Dessa vez Mauro se encontra dentro do carro e quem fica para trás são Shlomo e Hanna, pessoas as quais o menino mais esteve ligado durante o período de “férias” dos pais.
A sensibilidade do diretor fica ainda mais notória em outras duas cenas. Em uma delas, o garoto joga futebol com outras crianças. Em dado instante, o olhar do menino é desviado para um carro semelhante ao de seus pais. Ele passa a observar apenas o movimento do carro. Hambúrguer vai filmando a cena com grande finèsse, alternando planos do jogo do futebol, os movimentos dos outros meninos e o momento estático de Mauro. A montagem vai sendo construída até o instante em que Mauro abandona a meta da qual ele era goleiro para correr atrás do carro. Acompanhamos a corrida e somos envolvidos pela montagem e pela forma com que o diretor filma. A corrida do menino é ofegante e traz em si a esperança de encontrar os pais. É a mesma esperança que temos muitas vezes na vida, em especial na infância, na qual sentimentos costumam se aflorar.
Além dessa cena, há outra ainda mais representativa para o filme: durante a final da Copa do Mundo, Mauro deixa de acompanhar o jogo para encontrar-se com Shlomo e posteriormente com a mãe. Em um país em festa pela conquista do tri-campeonato, Mauro caminha por ruas vazias, sem barulho. Não há euforia, o som é suplantado, a atmosfera é a de como se todo o mundo tivesse parado. A caminhada é lenta e solitária para o desconhecido. O diretor conduz tudo de forma sóbria e ao mesmo tempo lúdica, como se a câmera estivesse pulsando como um coração de uma criança. Mais uma vez vem a lembrança do cinema argentino, no qual as relações humanas se sobrepõem ao todo (histórico) e a visão se torna mais sensível.
Filmes Citados:
O Ano em que meus pais saíram de férias (2006/ Cao Hambúrguer)
E.T., o extra-terrestre (E.T., the extra-terrestrial, 1982/Steven Spielberg)
Valentin (Idem, 2004/Alejandro Agresti)
O Filho da Noiva (El Hijo de la Novia, 2001/Juan Jose Campanella)
Clube da Lua (Luna de Avellaneda, 2004/Juan Jose Campanella)
Kamchatka (Idem, 2002/Marcelo Piñeyro)







