por Leonardo Amaral

Corumbiara, de Vincent Carelli

por Leonardo Amaral

 

Vemos, a nossa frente, um filme em seu processo de construção, da operação de reestruturação de fatos que se dá a partir de uma conjunção de olhares que se apresenta diante da câmera. Corumbiara não é somente um filme-confissionário por trazer o off narrativo de Vincent Carelli; o é também por aquilo que suas imagens carregam, pela força que exercem no trato ao que não só denuncia, como implica. O filme é um diálogo com o espectador, esse interpelado a acreditar na existência daqueles fatos, naqueles fantasmas, mas que também retorna ao filme a capacidade de se construir nessa relação. Corumbiara seria o filme sobre a existência dos corpos: Carelli precisa captar a imagem de um índio que mora em buraco para provar que ele existe, para poder ter a chance de evitar com que esse desapareça. A imagem devolve ao indígena a sua identidade.

 

É na alteridade que Corumbiara se opera, seja, principalmente, na sua luta para dar a imagem a capacidade de legitimação de um tempo perdido, seja, não por menos, na sua relação com aqueles que o documentário percebe como inimigo. A ética da sociedade é diferente daquela do cinema, eis Werner Herzog ou Jean Rouch para submetê-la a particularidades. Vincent Carelli colhe um depoimento de uma empregada de uma das fazendas responsáveis pela destruição de uma roça indígena. Para realizar a entrevista, o diretor se utiliza do expediente de uma câmera escondida, para que possa obter ali a verdade.

 

Após o relato, ele confidencia ao espectador que se sentiu mal ao fazer isso, mas que, ao mesmo tempo, achou que era o melhor a se tentar em prol do filme, da causa. Também para o cinema. A grande riqueza dessa arte é a possibilidade de se construir a partir de imagens realizadas em outro tempo que não o presente. O cinema, como já reafirmado por diversas vezes, já está fadado ao pretérito, por imagens que dizem de um tempo que agora é somente um registro. No entanto, a operação da montagem, a articulação das possibilidades, são todas responsáveis por uma retomada temporal. O cinema é a arte das incursões temporais para se compreender o todo: não é à toa que Corumbiara é um grande exame de imagens perdidas no tempo, seja em 1986, 1996 ou 2006, vinte anos de espera para se mostrarem potentes, capazes de discursar sobre o agora.

 

O grande mérito de Carelli e seu filme é exatamente esse exame do tempo. A motivação é apresentada a todo o instante dentro da narrativa ao qual se opera. No entanto, está nas suas nodoas a perspectiva de, para além do discurso, buscar uma análise de imagens, um exercício de olhar que vai se dando na medida em que o tempo vai se passando. Ao final, a impressão é a de que nós, espectadores, construímos um filme junto a Vincent Carelli, compartilhamos com ele uma mesma proposta, mesmo que haja desterritorialização e menores ou maiores envolvimentos. O índio que canta no fim de Corumbiara é a grande possibilidade daquele som se espalhar por toda a sala de cinema. Em um filme de vestígios, enfim e ao final, compreendemos o todo, enxergamos para além da imagem, vemos os fantasmas, estão ali, todos eles, nos limites imagéticos. Cremos, ao contrário dos fazendeiros, na existência do massacre. Sim, ele existe e nos impressiona a cada plano.

 

*Visto no 13º Forum.Doc.BH 2009.

 

Filmes Citados:

Corumbiara (idem, 2009 – Vincent Carelli)