por Leonardo Amaral

Fonte da Vida: errando pelo excesso ou por pensar demais

Querer ser cartesiano através de cores em excesso, de uma árvore que se arrepia por um simples toque ou por planos que beiram o mau gosto é o mesmo que dar um tiro no pé. Há, sim, uma boa intenção de Darren Aronofsky em dizer alguma coisa, mas essa coisa com certeza passa longe de qualquer filosofia minimamente relevante. A tentativa de se concretizar um pensamento existencial acabou não culminando naquilo que o diretor pretendia estabelecer dentro do seu filme.

Ao se deixar de lado a filosofia ou a ‘tentativa de’, pode-se analisar o filme em seus aspectos cinematográficos. Fonte da vida tem momentos interessantes, principalmente os do médico veterinário e sua esposa doente, porém, Darren erra novamente ao pretender ser Kubrick ou Tarkovsky. O diretor consegue se complicar ainda mais ao achar que em Fonte da vida isso é de alguma forma possível. Se ele quis algo que dialogasse com filmes como, por exemplo, 2001- Uma odisséia no espaço, fez picadinho da própria obra, pois as questões levantadas no filme soam completamente superficiais e simplistas, ao contrário das órbitas nietzchianas construídas por Stanley Kubrick. Agora se a conversa é com Solaris, Aronofsky derrapou ainda mais, por achar que sua breguice de cores e grafismos seriam capazes de substituir o questionamento humano e a relação entre amor e buscas no infinito espacial e temporal existentes no filme de Tarkovsky. Fonte da vida passa a anos luz de ser um épico de ficção científica

Aronofsky possui uma filmografia interessante, desde sua estréia em Pi, até a inquietação obtida em Réquiem para um sonho. Seu segundo filme, inclusive, consegue ser até mais centrado nos objetivos de responder às várias questões por ele levantadas. Nele, Darren demonstra domínio naquilo que faz e segurança no que diz. Vê-se, em boa parte daquela narrativa, a inquietação das personagens, seus momentos patéticos e de melancolia. Tudo apresentado por olhar conflitante de um diretor que leva à tona questões verdadeiramente instigantes, que fazem com que o espectador possa refletir a respeito das mesmas.

É intrigante pensar em como a maioria desses jovens diretores, de um potencial demonstrado em obras anteriores, acabam caindo na armadilha de querer dizer tudo em um único filme, de ambicionar ser muito além daquilo que pode ser naquele momento. Pode ser que Aronofsky nem pense assim. Talvez tenha usado aquela terceira história, de Hugh Jackman e a árvore, por acreditar que, em tese, aquela seria a melhor forma de responder várias lacunas de caráter filosófico. Além disso, muito da decupagem é equivocada, com planos muito virtuosos e pouco funcionais, de escolha de cores e representações que brilham muito na tela e não traduzem sentimento ou pensamento algum. Há, ainda, soluções cafonas que pretendem ser grandiosas, como as cenas envolvendo um macaco ou Hugh Jackman viajando dentro de uma bolha, rumo ao infinito. No sincronismo do filme, a primeira história, acontecida na Espanha, é até condizente, mas acaba patinando no meio dos outros exageros (usados de forma infeliz) propostos por Aronofsky e acaba se tornando tão problemática quanto o resto de Fonte da Vida.

Em meio a equívocos e tentativas frustradas de ser algo que não é, Fonte da vida tem seus méritos, resumidos em grande parte a Hugh Jackman e sua esposa interpretada por Rachel Weisz. São essas virtudes encontradas que possibilitam a Darren Aronofsky de ainda manter esperanças em relação à sua carreira no que tange maior solidez, caso dos seus primeiros trabalhos, que demonstram ser ele um diretor talentoso. Mas para isso, ele precisa se resolver. Deixar de pensar que é alguém que ainda não é, bastando, no momento, realizar filmes em que alguma verdade (ou tentativa de sua obtenção) emirja de alguma inquietação genuína e que – fundamental - seu talento dê conta de abordar.

Filmes citados:
Fonte da Vida (The Fountain/Darren Aronosky)

2001 – Uma odisséia no espaço (2001: A Space Odissey/ Stanley Kubrick)
Solaris (Solyaris, 1972/ Andrei Tarkovsky)
Pi (idem, 1998/ Darren Aronofsky)
Réquiem para um sonho (Requiem for a Dream, 2000/ Darren Aronofsky)