por Leonardo Amaral

A Conquista da Honra: A magia de uma câmera invisível

Um plano geral, seguido por uma PAN ou um travelling lento, guiando nossos olhos pela paisagem. Em seguida, seguem planos médios e americanos ritmados pela montagem. Em menos de dez minutos estamos envolvidos completamente por aquilo que está sendo contado. Na metade do filme já estamos na pele de John Wayne, queremos alcançar os índios Comanches em Rastros de ódio ou fugir dos Apaches em No tempo das diligências. Se D.W. Griffith estabeleceu todas as regras que o tornaram pai do cinema clássico, ninguém melhor que John Ford em saber utilizá-las, potencializando ao máximo esses códigos de narrativa.

Até mesmo diretores ousados, claramente ligados a uma câmera interventora, como Martin Scorsese, têm seus momentos puramente mergulhados em uma narrativa clássica por excelência. Alice não mora mais aqui é a metonímia ‘scorsesiana’ para essa forma de narrar, que, aliás, vem marcando os trabalhos mais recentes do diretor, desde Gangues de Nova Iorque, passando por O aviador e culminando em Os infiltrados. Tirante os planos iniciais de Os infiltrados (Scorsese faz um movimento de câmera para dentro de um armazém como quem quer dizer: “pronto, acabou o show, agora vamos à estória”), o que se vê ali é um Scorsese preocupado em uma mise en scéne reforçada pela narrativa, claro, com os outros aspectos agostinianos quase sempre presentes na carreira do diretor. Outros exemplos não faltam: falar em cinema, em se contar algo, é falar em John Ford. E ninguém tem feito melhor a lição do professor Ford do que Clint Eastwood.

Tanto Sobre meninos e lobos quanto Menina de Ouro são dois filmes cuja temática poderia descambar para um melodrama caso fossem pautados na unidade dramática oferecida pelas situações de seus personagens, principalmente no segundo filme. Entretanto o que se tem é uma condução sublime da gestação dos personagens de Hillary Swank e do próprio Clint. Em momento algum o diretor perde o controle. Se em Touro indomável Scorsese interessantemente glamouriza o boxe para se contrapor ao deletério do personagem, o contrário acontece em Menina de Ouro. Eastwood sucede vários planos de luta para apenas ressaltar a evolução técnica e interior da boxeadora. Se Jake La Motta é uma espécie de anti-herói, isso não acontece com Maggie Fitzgerald. Essa contraposição se vincula à unidade estabelecida entre treinador e pupila durante a evolução da mesma, culminando com a cumplicidade do final, por meio da narrativa clássica usada por Clint Eastwood.

Cunhando seu cinema nos detalhes, com uma narrativa cuidadosa em relação aos mesmos, Clint Eastwood resolveu partir para outro filme de gênero, no caso, o de guerra. E para retratar imageticamente a Segunda Guerra, o diretor escolhe um episódio central envolvendo EUA e Japão e realiza dois filmes, um na perspectiva norte-americana, A Conquista da honra, outro pela japonesa, Cartas de Iwo Jima. Primeiro deles a ser lançado no Brasil, A Conquista da honra tem em sua diegese a verdade histórica por trás de uma opinião pública muitas vezes forjada e capaz de fazer-se acreditar que uma vitória é iminente. Stanley Kubrick já havia explorado este tipo de verdade insólita em Nascido para matar, em que a aparente vitória no Vietnã é amplamente desconfigurada pela forma com que o cineasta denuncia o falso discurso mantido por grande parte dos correspondentes de guerra ali retratados.


Em 23 de fevereiro de 1945 em meio à batalha de Iwo Jima na disputa entre EUA e Japão na Campanha do Pacífico, Joe Rosenthal tirou uma foto na qual seis soldados norte-americanos levantaram uma bandeira do país no Monte Subirachi, localizado em território japonês. Conhecida como “Raising the Flag on Iwo Jima”, a fotografia teve grande repercussão midiática e junto dela muitas implicações de cunho governamental. O clique de Rosenthal lhe valeu o prêmio Pulitzer e contribuiu bastante para que a imagem fosse usada como ícone de uma vitória, sendo o símbolo angariador de fundos com o intuito de financiar a continuação do conflito nipo-americano no contexto da Segunda Grande Guerra. O que Eastwood propõe é uma análise daquilo que está por trás da imagem, do ser humano que ali existe, uma desconstrução do mito para que, a partir daí, se possa construir uma história de homens comuns, que lutaram e foram postos como heróis. Os fantasmas de guerra se misturam aos não menos fantasmagóricos rojões de uma vitória que está longe de ser exclusivamente um trunfo pessoal.

Mesmo havendo algumas falhas de conexão no roteiro, Clint sabe muito bem contorná-las ao estabelecer uma conjunção de planos que viabilizam imageticamente toda a diegese que o tema propõe. Se Paul Haggis peca muito ao ser demasiadamente forte, ao acreditar muito em seu discurso em Crash, Eastwood faz exatamente o contrário em A Conquista da honra, pois explora as sutilezas, para que a narrativa se solidifique à medida em que acontece. O cineasta extrai tudo que necessita por meio dos detalhes quase imperceptíveis como no foco alternado, nos cortes e fusões que se estabelecem entre passado e presente, na fragmentação transeunte entre traumas, conflitos internos e cenas de guerra marcadas por realismo e grandiosidade, sem, entretanto se constituírem maiores que a própria coisa narrada, e sim funcionando como suporte para a mesma. A câmera passeia invisível pelos fragmentos de guerra, Clint Eastwood parece nos dizer como é fácil fazer aquilo que está retratando, quando na verdade é tudo muito complicado, sendo necessária uma maturidade adquirida ao longo de anos.

Desmontar a História, mostrar a simplicidade e os temores da maioria daqueles que estão em uma guerra. Apresentar o lado humano de homens que ficaram no limiar entre mortos e heróis, quando na verdade eram apenas homens que nadavam tranqüilos, se divertindo, ao lado de tiros e navios de guerra. Parece que Eastwood aprendeu direitinho a lição com Ford, que por sua vez, tem assegurado mais uma vez seu legado cinematográfico. Ao final de Rastros de ódio, a câmera abre lentamente o plano da porta onde se encontra John Wayne em busca do horizonte. Ao final de A conquista da honra, enquanto o plano dos homens nadando se abria, vinha-me uma saudade de alguma coisa. Inconscientemente eu me reconduzia aos meus primeiros olhares com John Ford.


Filmes citados:
Rastros de ódio (The Searchers , 1956/John Ford)
No tempo das diligências (Stagecoach , 1939/John Ford)
Alice não mora mais aqui (Alice Doesn´t Live Here Anymore , 1974/Martin Scorsese)
Os infiltrados (The Departed , 2006/Martin Scorsese)
O aviador (The Aviator , 2004/Martin Scorsese)
Gangues de Nova York (Gangs of New York, 2002/Martin Scorsese)
Sobre meninos e lobos (Mystic River , 2003/Clint Eastwood)
Menina de Ouro (Million Dollar Baby , 2004/Clint Eastwood)
Touro Indomável (Raging Bull , 1980/Martin Scorsese)
A conquista da honra (Flags of our fathers , 2007/Clint Eastwood)
Cartas de Iwo Jima (Letters From Iwo Jima , 2007/Clint Eastwood)
Nascido para matar (Full Metall Jacket , 1987/Stanley Kubrick)
Crash – No Limite (Crash , 2005/Paul Haggis)