por Leonardo Amaral

Médias: De Volta ao Quarto 666 e Transversais

De Volta ao Quarto 666, de Gustavo Spolidoro

por Ursula Rösele

De Volta ao Quarto 666 traz, à frente da câmera, o diretor alemão Wim Wenders para refletir acerca do que ele mesmo sugeriu a diversos diretores em seu filme Quarto 666, de 1982, filmado durante o Festival de Cannes. No filme de Wenders, diretores como Antonioni, Godard, Herzog, Fassbinder, Spielberg, Robert Kramer, Ana Carolina (dentre outros) discorrem sobre questões como “qual o futuro do cinema?”, “vivemos a era da morte cinematográfica?”, “os videocassetes irão acabar com as salas de exibição”?

 Gustavo Spolidoro se utiliza das imagens do filme original de Wenders para fazer um diálogo com o que o diretor comenta em seus aproximadamente 13, 14 minutos de fala. Wenders reflete sobre o tempo limitado que a película e seus gravadores de áudio disponibilizavam na época: apenas 12 minutos, que restringiam a fala do entrevistado. 26 anos depois, Wenders dispõe de todo tempo do mundo e parece extrapolá-lo muito pouco enquanto discorre sobre a atualidade das antigas questões, o lugar do cinema no mundo digital, dentre muitas outras coisas.

Com seus efeitos, Spolidoro dá um tom fantasmagórico e ao mesmo tempo solene para a fala de Wenders, alternando entre o colorido do quarto de hotel em que ele se encontra e o mesmo em preto e branco para contrastar com os hologramas dos diretores, que são sobrepostos às imagens de Spolidoro. O filme possui um ingrediente infalível, pois é difícil – apesar de não impossível – conceber a possibilidade de um filme que se vale das palavras de Wim Wenders e da “presença” fantasmagórica de tantas personalidades fantásticas do cinema dar errado, no sentido de não ter atrativos, não colocar questões.

De toda maneira, De Volta ao Quarto 666 retoma essas reflexões de forma interessante, criando toda uma movimentação por vezes simbólica, uma vez que a câmera do filme atual permanece estática no tripé, gerando uma liberdade – ainda que dentro do quadro definido – de circulação de Wenders e dos “habitantes” de seu filme. O alemão parece não ter a dizer mais do que aqueles minutos aos quais se acostumara na primeira experiência de reflexão com o futuro do cinema, mas como é característica de sua persona, expõe uma melancolia e ceticismo em torno desse lugar para o qual o cinema caminha tendo o cuidado de deixar em aberto o imprevisível de uma arte que, - assim desejamos todos – terá vida longa pela frente.

*Visto no CineBH 2009.

Transversais

 

por Leonardo Amaral

 

Como se apresenta pelo título, o que vemos (ou lemos, ou escutamos) é uma metáfora de que o mundo, nessa recorrência atual de se discutir globalização – que por vezes se confunde com outros conceitos e teorias, completamente diferentes, como, por exemplo, estruturalismo, multiculturalismo -, está envolvido em transversais, pessoas que se cruzam, causando, ou não, tensões.

 

Guilherme Castro aproveita o Foro Mundial em Porto Alegre para construir seu documentário por meio dos depoimentos de várias personalidades que por ali estiveram durante a época – dentre elas, Fernando Gabeira: de todos, o mais conhecido. Ao mesmo tempo, o diretor busca na cidade outros depoimentos de pessoas de diferentes religiões e culturas, como muçulmanos ou uma brasileira que vive nos EUA e que se estabelecera no ramo dos pet shops. Até então, como era o intuito do filme, vemos o estabelecimento do corte de transversalidade ao qual se inserem todas aquelas pessoas. Assim como A dança do pensamento, também um documentário gaúcho advindo da mesma produção, Transversais não é muito mais do que suas várias cabeças falantes (velho artifício do documentário televisivo que poucas vezes é bem utilizado no cinema e que no caso de agora cai nas vetustas armadilhas), seus irritantes, inúteis e fragmentadores jump cuts, artifícios esses que não fazem outra coisa senão impedir a construção de cenas. O que vemos são imagens aleatórias, sem sentido ou dimensão, em que a montagem não é mais uma construção, é um mero artefato cuja a função é de compilar e colar imagens, sendo que essas poderiam ser vistas em qualquer ordem que seja, fato que determina uma ausência de um filme.

 

Assistimos a uma pessoa que fala; dela, o corte nos remete ao trânsito de Porto Alegre, aos transeuntes que passam pelas ruas, aos monumentos, imagens recursivas que se repetem incessantemente durante todo o documentário, mas que são vazias de sentido, que nada dizem e, pior que isso, mutilam o corpo em cena, aquele que detém a fala, mas que é impedido de se determinar na tela. Em questão, a desimportância das imagens, muito mais grave do que esse ser um filme-tese.

 

Ao final, não existe sequer um discurso, seja político ou cinematográfico; esse se perde em meio a montagem que opta sempre para a fuga para o nada, para o vazio da imagem da cidade: o ônibus que passa e é capturado pela câmera também poderia ser uma bicicleta, uma moto, como também um avião que passa no momento, pouco importa, já que são imagens que estão ali com o único sentido de ilustrar falas. E quando até mesmo esse intuito ilustrativo não se dá na tela, o filme joga uma pá de cal sobre si mesmo, e jaz em cena, e é preciso dizer, sem se debater muito.

 

Filmes Citados:

Quarto 666 (Chambre 666, 1985/Wim Wenders)

De Volta ao Quarto 666 (idem, 2008/Gustavo Spolidoro)

Transversais (idem, 2008 – Guilherme Castro)

A dança do pensamento (idem, 2008 – Marta Biavaschi)