por Leonardo Amaral

A dança do pensamento

a dança do pensamento

por Leonardo Amaral

 

Existe, já há muito tempo, um tipo de documentário investigativo (para não dizer diretamente aqui auto-ajuda), que estabelece uma temática e nela se debruça no intuito de trazer respostas para as questões ali lançadas. Quase sempre são perguntas em relação a origem do homem, das suas maneiras de comunicar-se, das relatividades que o cercam. Em geral, para sustentação daquilo que lança como questionamento, há sempre o apelo para a opinião de especialistas, entre os quais cientistas, lingüistas, antropólogos, etnólogos, físicos, como se em todas aquelas opiniões expressas existissem respostas para as questões que durante todo o tempo afligem o ser humano. Filmes como Quem somos nós, O segredo e, no caso de agora, o documentário brasileiro (que segue uma linha no Rio Grande do Sul, já que são realizados pelas mesmas produtoras) A dança do pensamento.

 

No filme de Marta Biavaschi, depoimentos de pesquisadores reconhecidos internacional ou nacionalmente, como, por exemplo, Jean-Pierre Lebrun ou a historiadora gaúcha Sandra Pesavanto.  O documentário tem o objetivo (e aqui já fica evidente sua adequação a esse tipo de cinema com objetivos traçados, de uso dos recursos na defesa de teses já estabelecidas a priori, as imagens vistas em tela pouco importam) de alcançar as fronteiras do pensamento humano através e simplesmente pela força dos discursos dessas pessoas que fazem seus relatos em jargão científico a explicação para um questionamento que, ao final do documentário, não leva a lugar algum, seja na resposta ao que se queria, seja (e ai é que é ainda pior) imageticamente.

 

Há uma mistura de pensamentos místicos, míticos, científicos, leigos e especialistas, depoimentos os quais estão no padrão bastante comum das talking heads, mas que, por vezes, por meio de jump cuts, têm suas falas entrecortadas por imagens de preenchimento (e é exatamente isso que são, meros intuitos de se preencher um tempo no qual nada ocorre exatamente por pouco existir de cinema ali, o que há são falas oficiais que poderiam estar em enciclopédias e livros científicos; no cinema, esse interesse é mínimo).

 

Ao contrário de Quem somos nós e O segredo, A dança do pensamento possui o grande mérito de ser apenas um média-metragem. Exercício consciente de se saber que por vezes é complicado se tirar material fílmico em temática insípida e estéril. Eis uma dançarina que, durante alguns instantes, uso o corpo para uma dança mística de origem indiana. O movimento, pela primeira vez em todo o filme, se elabora em cena, mesmo que seja entrecortada a todo instante por jump cuts aleatórios. No momento final do filme, essa dança retorna à cena, respingos mínimos de cinema que imploram pela não-fragmentação, pela existência, mas que, infelizmente, se vê esmagado por um todo totalmente desimportante.

 

*Visto no CineBH

 

Filmes citados:

A dança do pensamento (idem, 2008 – Marta Biavaschi)

 

Quem somos nós (What the bleep do we know?, 2005 – Betsy Chasse, Mark Vicente & Robert Bailey Jr)

O segredo (The secret, 2006 – Drew Heriot)