por Leonardo Amaral

O Último Rei da Escócia

Um contraponto entre as honrarias de uma formatura em medicina na Escócia e um pobre e sem recursos posto de saúde em Uganda já deixa muito clara a diferença de um país marcado por riqueza e desenvolvimento e outro incrustado no centro do continente africano, com suas mazelas e dificuldades talvez. Para piorar, a Uganda é marcada por uma constante Guerra Civil e pela alternância de tiranos no poder. O último rei da Escócia, ficção baseada em fatos ocorridos no país, retrata a amizade entre um médico escocês e o presidente e ditador Amin Dada.

À medida que a trama se desenvolve, o filme ganha uma espécie de tom de denúncia, que jamais soa panfletário ou reivindica grande rigor político-histórico. Kevin McDonald aposta suas fichas em um tom documental, adentra a alma de Amin e tenta entender melhor psicológica e politicamente uma figura excêntrica e controversa em vários âmbitos. Nessa vertente cinematográfica, muitos dos recursos técnicos e narrativos, bem como esse tom empregado, se ligam bastante às obras de Werner Herzog. Há ainda uma outra concepção que pode ser posta em cheque, a visão de um diretor com um olhar de fora em relação à África e aos conflitos e tradições desse países. Nesse aspecto, McDonald aproxima-se, em um certo sentido, de Fernando Meirelles e O Jardineiro Fiel.

Herzog possui uma vasta obra, sendo essa deveras contundente e fortemente marcada pelo caráter da loucura, em seus vários aspectos e níveis, além, é claro, de quase sempre possuir uma abordagem muito ligada às nuances de documentário. Em Aguirre – Cólera dos deuses a câmera é ágil, os cortes estão longe de ser maquiados, pingos d’água têm contato junto à lente, os movimentos são trepidantes, a luz natural, uma espécie de quase documentário em pleno século XVI diante de uma mata densa. Vê-se um Klaus Kinski em processo gradativo de loucura. O tom realista é tão impregnado no filme de Herzog, que, ao final, Kinski está em uma espécie de transe, notando-se o quão está tênue o limite entre realidade e ficção, entre o ser humano e o personagem.

Em Fitzcarraldo, Herzog ousa ainda mais ao não estabelecer limite algum entre ficção ou realidade. A mise en scène tem seu tom naturalista reforçado pelas várias câmeras na mão e pela condução de montagem e de cortes nos quais o diretor alemão fez sua grande aposta. Conhecido pelo seu temperamento forte, Herzog arriscou várias vezes nesse filme realizado no norte do Brasil. Mesmo diante dos vários problemas ocorridos durante as filmagens, há uma grandiosidade cênica impressionante, proporcionada em muito pela decupagem de Herzog, mas também pelos recursos narrativos empregados pelo mesmo.

A abordagem da excentricidade é fortemente tematizada em O enigma de Kaspar Hauser. Lá ela é retratada e analisada em suas várias nuances e possibilidades. O jogo de câmeras de Herzog transmite o mundo particular vivido por Kaspar Hauser, seus sentimentos pululam em cada frame. A composição técnico/narrativa utilizada pelo diretor alemão está mais uma vez no limite extremo da ficção. É o que vários dos teóricos realistas do cinema reconheciam como a realidade cinematográfica. Para esses, como no caso de Bazin, o filme não deveria simplesmente centrar-se em contar uma história através dos inúmeros recursos consumados pela narrativa clássica. Nessa concepção teórica o filme deve possuir uma inclinação realista e exercer, sempre que possível, uma função representativa por meio da arte. Olhando-se por essa ótica, O enigma de Kaspar Hauser funciona como exemplo.

Nessa tentativa de se transpassar a barreira de ficção/realidade é que se encaixa o filme de Kevin McDonald. Muitos dos recursos vistos em Herzog aparecem em O último rei da Escócia. O filme essencialmente se baseia em um fato ocorrido, sendo que a maioria dos personagens obviamente existiu. O mérito do filme está em retratar uma figura história excêntrica de forma bastante contundente e pertinente em relação às suas várias facetas psicológicas. Amin Dada, como o próprio Nicholas Garrigan diz no filme, é uma verdadeira criança. Entretanto, suas brincadeiras são perigosas e a maioria das peças desse seu jogo é a população de Uganda. Para dar destaque ao ditador, o diretor faz o uso de vários planos em contre-plongée, conjugados a inúmeras câmeras na mão e movimentos de zoom que se aproximam da expressão do presidente. Nesses momentos, é impossível não se lembrar de Herzog.

Ao se perceber o quanto de loucura existe nesse personagem, o quanto de excentricidade há ali, a lembrança é ainda mais evidente. Amin Dada é retratado como uma figura emblemática e grandiosa, capaz de atos condenáveis e ao mesmo tempo de ações completamente antagônicas, principalmente quando está junto ao amigo médico. O ditador africano defende preceitos arcaicos e mesmo assim acredita ser Uganda um país em estágio de evolução, um exemplo para toda a África. Amin é narcisista e egoísta, propondo inclusive um culto a si mesmo. É temática herzoguiana no talo, com muito da forma também.

Além de beber da fonte herzoguiana, McDonald imprime o seu olhar sobre o conflito africano. A montagem é frenética, os cortes rápidos, a linguagem, mais uma vez, bastante documental. Algo muito parecido com O Jardineiro Fiel. Entretanto, assim como o de Fernando Meirelles, o olhar é particularmente de alguém de fora. Por mais que se tente imprimir uma visão realista e analista, perde-se no fator do contato. Ambos são produções britânicas, ambos enxergam a África por meio de um olhar de quem já vive o estado democrático. Por mais que a montagem tente imprimir a voracidade e o sofrimento daquela gente, não é possível saber de fato o que elas sentem. Não que isso seja um problema ou uma defesa de que o filme deva ser feito por um africano, pelo contrário. Isso é apenas uma constatação de olhares parecidos de diretores externos em relação àquela localidade.

Em suma, o que se propõe em O último rei da Escócia não é simplesmente fazer um relato em tom de denúncia das mazelas que ocorrem em Uganda. Até porque esse problema não se restringe apenas ao governo de Amin Dada. O que se propõe é uma retratação das excentricidades de um ser humano sem grandes discernimentos em relação ao restante do mundo. Vive um mundo particular, quase autista. E é exatamente acerca disso que o filme se propõe a falar. André Bazin dizia que a imagem cinematográfica é uma forma de desenho da realidade. Amin Dada corrobora o axioma de Bazin, provando ter sido muito bem desenhado.


Filmes citados:
O último rei da Escócia (The last king of Scotland, 2006/Kevin McDonald)
O enigma de Kaspar Hauser (Kaspar Hauser, 1974/Werner Herzog)
Fitzcarraldo (idem, 1982/Werner Herzog)
Aguirre, a cólera dos deuses (Aguirre, der Zorn Gottes, 1972/Werner Herzog)
O Jardineiro Fiel (The constant garderner, 2005/Fernando Meirelles)