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por Leonardo Amaral
Boa Noite, Boa Sorte e O Bom Pastor: cinema como documento
A origem da escrita possibilitou à humanidade o registro de sua história e trouxe consigo grandes conseqüências para tudo aquilo que sucedeu ao seu aparecimento. A linguagem passou a ser regida, em muitas das vezes, pela escrita sem, entretanto, que essa mesma escrita exercesse o mero papel de reprodutor da oralidade. O advento do registro escrito possibilitou ao homem não só a construção de sua história por meio da desconstrução de mitos, figuras e episódios, como possibilitou também uma análise deveras crítica em relação à humanidade em seu caráter universal.
Mesmo em uma proporção bem menor, o cinema foi algo que, da mesma forma, garantiu ao homem um questionamento de forma imagético-sonora de tudo aquilo ao qual ele pertence, de toda a história que o envolveu ou que trouxe alguma coisa como conseqüência para a sua vida. A realização das imagens de formatos cinemáticos, vinculados ao olhar para o que está para trás, para o que constituiu ou constitui fatores de uma historiografia local ou global é algo de bastante instigante para diretores que querem pautar seu cinema nessa esfera analítica.
Os EUA possuem uma história marcada por um cunho político forte e também por várias instituições que muitas vezes provocam a construção de mitos e lendas no imaginário comum de várias pessoas, sejam essas norte-americanas ou não. Há várias teorias conspiratórias acerca de páginas da história da América como no caso da caça às bruxas durante a Guerra Fria, a própria guerra em questão e organizações como FBI e CIA. Muitas dessas questões são englobadas e exageradas pelo senso comum e acabam, por sua vez, se constituindo como meras falácias.
Na tentativa de construção desse quebra-cabeça da terra do Tio Sam, dois filmes – Boa noite e boa sorte e O Bom Pastor - de abordagens e conteúdos distintos passeiam por essa análise de vários episódios da história política e policial dos EUA. Ambos possuem seus méritos ao retratar seriamente e sem grandes ilusões suas respectivas temáticas. Se em Boa noite e boa sorte, George Clooney retrata uma realidade jornalística nua e crua, em O Bom Pastor, por mais verdadeiro que Robert De Niro tenha sido, há aquele velho traço romântico da agitação da vida e da periculosidade da profissão de um espião. O filme de Clooney se mostra mais conciso e objetivo em seu recado principal, enquanto o filme de De Niro derrapa um pouco ao querer estender demais algo que imageticamente poderia ter sido dito sem se ‘florear’ muito, sem estender além da conta aquilo que a própria trama - bem construída -consegue apresentar e insinuar.
Boa noite e boa sorte é o jargão utilizado por Edward Murrow ao final de seu programa jornalístico no canal de tevê ABC de Nova Iorque. Vive-se um contexto de Guerra Fria no qual muitos cidadãos norte-americanos – em sua maioria constituída por jornalistas e artistas – são perseguidos e denunciados pelo senador republicano Joseph McCarthy. Com imagens em preto e branco, montagem frenética em vários instantes, uma câmera invasiva e de movimentos freqüentes e com muitos diálogos que, em determinadas vezes, sobrepõem-se a si mesmos, Clooney não só consegue passar a atmosfera de um jornal em tempos de dificuldade, como também confere um tom bastante real e documental ao seu filme, o que constitui, talvez, o seu grande mérito.
A câmera de Boa noite e boa sorte está quase constantemente em movimento, percorre toda a redação jornalística, discursa até mais que as palavras, consegue dizer em um travelling tudo aquilo que sufocava muito daqueles personagens por ela retratados. Ela busca bastidores, como quem quer apresentar uma panorâmica dos próprios meandros da Guerra Fria, da perseguição macartiana, deixando o espectador envolvido por aquela trama de verdades que são sobrepujadas pela notícia, verdades que sussurram pelos cantos e arredores de um país que se enxerga aflito diante de um mal o qual não se sabe onde está ou se sequer realmente existe no país.
Se a câmera de Clooney é informativa – algo que se assemelha em dados aspectos ao que fazia Hitchcock – a de De Niro é mais contida, procura seguir os preceitos constituídos pela narrativa clássica, mesmo que ela ouse em determinados planos do filme. A opção é claramente voltada para uma decupagem elegante, com planos assaz funcionais. O Bom pastor se propõe a descortinar o que está por trás da CIA em vários cenários históricos da história americana, desde a Segunda Guerra Mundial até os vários conflitos ideológicos entre EUA e URSS. Aliás, essas coligações são interessantemente retratadas no filme e constituem, inclusive, em algo substancial para o final positivamente ambíguo do mesmo. De Niro desnuda a instituição em tudo aquilo que constitui seus atos, sejam esses em prol da sociedade americana, sejam esses de caráter questionável, como nos casos de tortura e de eliminação de pessoas.
Entretanto, ao contrário de Boa noite e boa sorte, O Bom pastor tenta reforçar demais aquilo que quer retratar. A montagem mais lenta com uma narrativa que faz várias imersões no passado aposta muito em si mesma e se torna, em determinadas horas do filme, um pouco arrastada, sem chegar, contanto, a ser totalmente maçante. Talvez tenha sido esse o derrape de De Niro, que apesar da direção segura, realizou um filme que poderia sim ter uma duração um pouco menor do que as quase três horas.
Dois atores talentosos que se mostram também seguros em seu segundo filme, já que De Niro fizera Desafio no Bronx e Clooney Confissões de uma mente perigosa. Duas obras que resgatam a tentativa de se construir uma história de uma nação repleta de episódios marcantes não só interna como também mundialmente. Nesse intuito, os dois diretores conseguem executar bem suas propostas. Como nos primórdios da escrita, eles se constituem escribas, sendo que no lugar da palavra escrita vê-se literalmente a imagem.
Filmes citados:
O Bom Pastor (The Good Shepherd, 2006/Robert De Niro)
Desafio no Bronx (A Bronx Tale, 1993/Robert De Niro)
Boa noite e Boa sorte (Good Night and Good luck, 2005/George Clooney)
Confissões de uma mente perigosa (Confessions of a dangerous mind, 2002/George Clooney)







