- “Mulher à Tarde”, “Os Residentes” e “O Céu Sobre os Ombros”: Des-Ordem de representação como crise da identidade
- Bruna Surfistinha e os limites da obscenidade
- Os desdobramentos do corpo e a política na presença: Passe Livre e a obra dos irmãos Farrelly
- A política da juventude: entre a utopia do caminho e a imagem utópica do pensamento singular
- Afinal, onde está o cinema brasileiro?
- A verdade da memória e a escritura do tempo: a trilogia da Ilha de Coudres
- Dos procedimentos do cinema direto de Wiseman à imagem cínica: quando o cinema vira telejornal e o telejornal incita um cinema precário
- Viagem ao princípio do mundo, de Manoel de Oliveira
- Vale Abraão, de Manoel de Oliveira
- Rogério Sganzerla em seis tempos: “Informação H.J. Koellreutter”, “B2”, “Documentário”, “Irani”, “Viagem e descrição do Rio Guanabara por ocasião da França Antártica” e “Linguagem de Orson Welles”
- A Bela Intrigante: o quadro sempre como o limite
- As marcas do passado e o olhar embaçado do futuro: a obra de Lucian Pintilie
- “É Proibido Fumar”, de Anna Muylaert
- A imagem da alteridade: “A Falta Que Me Faz”, “Pacific”, “Viajo porque preciso, volto porque te amo” e “Morro do Céu”.
- O cinema de artifícios de Martín Mainoli
- Distrito 9: entre os desvios e a autenticidade
- Câmera-olho do delírio cotidiano: o cinema de Martin Scorsese
- Almoço em Agosto
- O Pornógrafo: hora de mudar as regras, vamos colocar as cartas na mesa
- Marguerite Duras: construção / destruição do cinema

por Leonardo Amaral
Vincere, de Marco Bellocchio
por Leonardo Amaral
Sempre que há um filme histórico, uma reconstituição, cinebiografia, ou coisa do gênero, existe, à reboque, também o temor de se ver os velhos clichês, as vetustas tentativas de se falar sobre toda a vida, todo o período, e, por causa desse intuito, o que normalmente se vê é uma avalanche de imagens que procuram, muitas vezes, sintetizar anos de uma vida ou de um país em dois, três planos. É sempre louvável quando aparece um Todd Haynes para dar uma balançada na casa com I’m not there. Da mesma forma, o melhor antídoto para o Keats chatinho da Jane Campion está, provavelmente, na exploração ópera-filme de Marco Bellocchio.
Em especial, dois momentos impressionam em Vincere: o período entreguerras, em que Ida conhece Benito Mussolini, então membro da facção política comunista, sendo ela também uma ativista. As imagens de arquivo entram não como um mero complemento do que a ficção narra, mas como um conjunto elaboradíssimo de intercalagem de imagens. A película granulada de Vincere, as atuações fortes e ultra-realistas, a ópera que irrompe na tela, fazem do filme de Bellocchio uma impactante reconstrução histórica, que não só foge do convencional, como também adentra de maneira bastante particular os fatos. A segunda, quando o filho de Mussolini, Benito (Dalser) imitida o pai, bem provável, uma das melhores experiências sonoras até então no Festival.
Ida é a mãe do filho renegado pelo ditador fascista. Claramente, sua trajetória é o mote narrativo. No entanto, os acontecimentos históricos, mais do que entornos, são motores da ação. As imagens de arquivo não entram como meras ilustrações, são verdadeiras fações documentais que dizem diretamente do objeto-foco do filme. Bellocchio faz um filme sobre Ida Dalser para falar de toda Itália e de todo um período. E ao contar um episódio histórico, o diretor adentra sem temores e fortemente a vida de uma pessoa. Bellocchio transforma a personagem em metonímia de uma nação, e faz isso usando o princípio básico do cinema, imagem e concatenação dos planos. Vincere é um épico, uma tragédia, faz uso de todos os elementos caros a mesma, sem jamais cair no exagero.
Ao assistir ao filme, sempre vem a certeza de que Marco Bellocchio sabe exatamente o que fazer com cada frame do seu filme, praticamente nada está fora do lugar.
*Visto no Festival de Cannes 2009.
Filmes Citados:
Vincere (idem, 2009 – Marco Bellocchio)







