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por Leonardo Amaral
Cheirando a armadilhas
Nos últimos tempos tenho pensado em qual pode ser a cara do cinema em um âmbito geral, principalmente a do cinema brasileiro. Têm me intrigado especialmente algumas estéticas e formatos de cinema feitos aqui no Brasil. A meu ver, é crescente o número de filmes ditos ‘comerciais’, principalmente muitos dos vinculados à Globo Filmes. Nada contra esse tipo de cinema; é reconhecível a importância que esses filmes têm no cenário nacional.
A maioria deles costuma levar um público razoável às salas de cinema devido à propaganda volumosa e até certo ponto maçante em grande parte da grade das Organizações Globo. Essa publicidade está no intervalo do Jornal Nacional, no merchandising ligado à novela das seis ou da sete, oito, que seja. Como a temática e muitas vezes o formato lembram o da própria novela ou seriado, o público - aquele que economicamente tem condição de ir ao cinema – acaba pagando seu ingresso e assistindo a esses filmes. O último exemplo é A grande família – o filme. O melhor exemplo é Dois Filhos de Francisco, que teve inclusive aclamações e torcida para disputa do Oscar. O tema é minuciosamente discutido na dissertação de mestrado do crítico Pedro Butcher. Nessa dissertação, ele faz uma análise de vários aspectos e fenômenos vinculados às Organizações Globo. Em uma das edições da Revista Cinética, Leonardo Mecchi e Eduardo Valente trazem o tema novamente à tona. Nesse link o texto cinético pode ser lido na íntegra, inclusive, sendo possível o acesso ao texto de Pedro Butcher.
Voltando à discussão desse texto, como mencionei: nada contra toda essa propaganda, toda essa tentativa de fazer com que a massa que assiste à novela também prestigie o cinema nacional. Entretanto, há dois perigos básicos: a formatação geral para se alcançar esse público - apela-se para muitos planos fechados, comédias muito rasteiras, decupagem básica, montagem simplista, atuações rocambolescas – e a estatística de público de filmes nacionais – essa contagem é falaciosa, pois o que pode se ver é um crescimento do público em relação a esse tipo de obra audiovisual ou, ainda pior, a um único filme, como no caso do que relata a vida dos cantores sertanejos Zezé di Camargo e Luciano. No ano de 2005 o filme foi responsável por mais da metade de todo o público do cinema nacional, graças, principalmente ao bombardeio publicitário criado em torno do mesmo. Sim, esses filmes auxiliam na conquista de um público para o nosso cinema e não, ao contrário do que se pensa, esse não pode ser o principal cinema diretamente ligado ao país. Certamente não o é, longe disso.
Na verdade a pergunta lançada sobre qual deve ser a cara do cinema nacional é, em tese, um questionamento fora de base, pois, de certa forma, não existe apenas uma, mas várias, o que de fato torna a questão impertinente. Essa pergunta mais serve como pontapé inicial para vários questionamentos e buscas para acarretar algo a se pensar, principalmente em relação ao que pretendo apresentar daqui para frente. A questão principal que tange toda a discussão é: para quem deve ser feito um filme? Se é que essa pergunta realmente possui uma resposta exata e concreta. Em tese, essa resposta também pode apresentar formas e abordagens do cinema nacional.
Antes de realmente entrar a fundo no que pretendo discutir, quero abrir alguns parênteses para certas observações. Ao longo de vários períodos da história cinematográfica nacional, foram muitos os defensores de um cinema com características acima de tudo ‘brasileiras’. De certa maneira, eles almejavam um cinema que pretendesse uma autoralidade – mesmo que não seja condizente para o período o uso do termo como esse se desenvolveu no contexto da Paris de Godard, Chabrol, Truffaut, Rohmer, Rivette, para me ater aos principais nomes da Nouvelle Vague Française. Apesar de algumas semelhanças, o Cinema Novo Brasileiro – que é uma forma questionadora do cinema nacional – guarda peculiaridades. Podemos dizer que o que Glauber Rocha propunha não fica muito longe de uma certa antropofagia cinematográfica – mais uma vez pego emprestado outro termo, agora do movimento antropofágico dos modernistas de 1922. Isso pode ser visto tanto na temática e forma fílmica glauberiana quanto nas análises e críticas escritas pelo cineasta. O tom é sempre um misto de questionamento, adoração e propostas em relação ao cinema.
Outra observação que necessito fazer é em relação à maneira como outro inquieto personagem enxergava e propunha o cinema brasileiro. Trata-se de Jairo Ferreira. Jairo, dentre outras coisas, defendia um cinema brasileiro dito ‘péssimo’ que contraporia a um tipo de cinema ‘comercial’, com uma espécie de carimbo de qualidade cravado em sua testa – seria como se dissesse: ei, não tenho conteúdo, nada falo, nada proponho, mas estou aqui, viu, todo bonitinho, todo certinho. A proposta de Jairo Ferreira, se vista por determinada ótica, transparece um sentido iconoclasta. Entretanto, deve ser visto principalmente como uma alternativa para um país onde inexiste qualquer tipo de indústria cinematográfica, uma nação incrustada no pólo subdesenvolvido do globo.
Após elucubrações quase cartesianas, citações de cinema novo, marginal e comercial, a base já está formada para os questionamentos posteriores. Que fique bem claro, desde já, que não quero em hora alguma fazer uma abordagem sequer parecida com a de Glauber Rocha. Seria uma pretensão desvairada de minha parte. Faço uso apenas de algumas de suas idéias para corroborar alguns desses pensamentos.
Em uma mesma semana assisti a O cheiro do ralo e a São Paulo S.A. O filme de Luís Sérgio Person foi o principal responsável por me ter feito pensar acerca de algumas nuances vistas no filme de Heitor Dhalia. O intuito não é de comparação, até porque não há algo realmente forte e semelhante a se comparar. Foi exatamente o antagonismo das duas obras que me suscitou pensar em certas armadilhas que se atrelam ao primeiro filme citado. O Cheiro traz consigo duas formas de armadilhas que se ligam a dois âmbitos: um está ligado ao público e, o principal, ao próprio cinema. São exatamente esses ‘abismos colossais’ que guiam o timão do teor dessa discussão que aborda, entre outros aspectos, a estética e abordagens vinculadas no filme. A retratação dessas nuances fílmicas trazem a discussão para uma ágora nacional ainda mais ampla.
O cheiro do ralo tem características próprias que abrem alguns paradigmas para o cinema que pode ser realizado por aqui. O filme foi realizado segundo um orçamento baixíssimo que teoricamente o colocaria como um cinema independente feito no Brasil. Entretanto, não seria independente se comparado com outros países, pois, dentre outras coisas, a equipe toda não recebeu um cachê para trabalhar. Os EUA servem de exemplo, pois lá esse tipo de filme requer uma espécie de remuneração. A própria estética do filme de Dhalia se diferencia em vários aspectos da encontrada no cenário independente de um modo geral. É evidente que o sistema e a situação são incomparáveis, e é exatamente por isso que o filme talvez possa ser caracterizado por esse tipo de formato de produção – pelo menos de acordo com o panorama existente no Brasil. Há de se convir que a maneira na qual esse trabalho audiovisual foi realizado abre um precedente interessante de como se fazer cinema no Brasil. Abre, inclusive, portas para todos aqueles que por ventura estiveram inseridos na feitura do mesmo.
O filme foi feito e devemos louvar todos que estiveram envolvidos no projeto. Porém, existe um detalhe: filmar e produzir são etapas que supostamente são ‘realizáveis’. Agora vem o mais complicado - a distribuição. Mais uma vez, dizer que O cheiro do ralo foi feito sem uso da máquina estatal – ainda a principal maneira de se fazer cinema no país – é uma meia-verdade. Para distribuir o filme foi sim necessária a participação do Estado, vide o selo da Ancine e Lei de incentivo à cultura colocados junto ao filme. Deixo claro que ninguém do filme afirmou não existir a participação estatal, pelo menos que eu tenha visto.
Pois bem, filme concretizado, filme distribuído, filme com um sucesso de público e até certo ponto de crítica – sendo inclusive exibido em Sundance. Precisamos entender nesse instante O cheiro do ralo mais como fenômeno do que simplesmente por seus elementos fílmicos e semióticos. Para tanto, existe a necessidade de se entender a estética do filme, bem como uma certa trajetória de Heitor Dhalia. Faço a opção por começar pelo diretor, pois, dessa feita, fica mais fácil e interessante observar O cheiro do ralo.
Dhalia dirigiu Nina antes de filmar O cheiro do ralo. No antecessor vemos uma obra que dialoga com Dostoiévski de uma forma, a meu ver, bastante rasteira. Nada contra ser rasteiro usando Crime e castigo ou qualquer outra literatura que seja. Pode-se, em muitas vezes, até fazer uma brincadeira ou uma sátira com essas obras – Woody Allen e os irmãos Coen já fizeram isso e o resultado foi assaz interessante. O problema é quando se tenta beber na obra e abrir um diálogo filosófico sobre ela. Utilizarei nesse texto a expressão ‘filosofia pop’, que nada mais é do que essa discussão superficial de conteúdos de ordem metafísica ou em planos racionais cartesianos. É exatamente o que existe em Nina – misturado a um caos urbano - e que surge em menor grau em O cheiro do ralo (esse faz mais o uso do nonsense). A partir do exato momento em que se tenta usar a filosofia pop em Nina é que o filme perde-se todo e acaba se tornando medíocre em sua abordagem. O mesmo acontece com o filme posterior, pois por mais que Selton Mello tente trazer o filme de volta à tona com um humor nonsense – nisso o longa muito me agrada -, ele volta a imergir muito por conta dessa sua abordagem, mas, no caso, principalmente devido à sua estética.
Ora pois, que estética tão paradigmática é essa? A resposta vem atrelada à questão do próprio público na medida em que se tenta trazê-lo para o filme – tenta-se tanto que ele acaba guardando um afeto em relação ao Lourenço de Selton. A estética é simples, com a câmera em enquadramentos que pouco ousam ou dizem muito daquilo que quer transmitir, demonstrando um receio de adentrar mais naquele universo. A abordagem e a estética almejam trazer o público para seu lado, se constituindo assim na primeira armadilha, pois nesse exato instante pode se questionar exatamente aquilo que mencionei no princípio: afinal para quem é o filme? O cheiro do ralo parece responder essa questão em favor do público. Se a resposta não é exatamente essa, me parece que Heitor Dhalia precisa resolver esse entrave.
As evidências nos deixam em uma encruzilhada: para que lado devemos seguir? Uma das argumentações está ligada intimamente à armadilha que se remete ao cinema. É interessante para o cineasta e para o seu cinema ficar nessa corda bamba em que está? O equilíbrio pode inexistir e fazer com que a queda não seja das mais agradáveis. Fica nítido que O cheiro do ralo trará bons frutos contratuais e de projetos para muitos que ali trabalharam, o que mostra que se deve sim apostar as fichas nesse tipo de iniciativa ‘independente’ – nos padrões brasileiros. A aposta de se fazer um filme com essas características dá principalmente uma liberdade de se criar e realizar a obra sem interferências externas. Logo, se esse precedente existe, é pertinente se pensar que vale a pena apostar e ousar ainda mais - pelo menos visto pela minha ótica.
Porém, pode haver o contraponto de se querer fazer um produto mais palatável e, em grande medida, atingir um número maior de pessoas. A corda é tênue e balança ainda mais, sendo preciso escolher um dos lados, jogar suas cartas. Fica a dúvida de qual o melhor barco para se zarpar. Entre o cinema comercial e São Paulo S.A., O cheiro do ralo navega mais pelas águas do primeiro. Glauber diria que o filme é de temática medida sob aspectos mercantilistas, Jairo Ferreira nem isso diria, teria o filme como meramente restrito por si só, enquanto eu vejo o filme como emblemático e ao mesmo tempo indubitável em sua mediocridade.
Filmes citados:
O cheiro do ralo (idem, 2006/Heitor Dhalia)
Nina (idem, 2004/Heitor Dhalia)
2 filhos de Francisco (idem, 2005/Breno Silveira)
A grande família – o filme (idem, 2007/Maurício Farias)
São Paulo S.A. (idem, 1965/Luís Sérgio Person)
Livro citado:
Crime e castigo (Fiódor Dostoiévsky)
Referências e textos sobre Glauber Rocha e Jairo Ferreira:
Revista cinética
Contracampo







