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por Leonardo Amaral
The Time That Remains, de Elia Suleiman
por Leonardo Amaral
Elia Suleiman é um observador do cotidiano (assim como era uma de suas principais referências: Jacques Tati, do qual virão os planos conjuntos, com duração que propicia o desenvolvimento de situações). Em Intervenção Divina, o diretor já inseria - como também em seus curtas-metragens - sua persona, uma espécie de Buster Keaton palestino que insere visões sobre o que ocorre no conflito Palestina–Israel. Agora em The Time that Remains, ele parte para uma viagem ainda mais pessoal, advinda das memórias dos pais que se misturam aos fatos reais e às próprias memórias do cineasta.
Tudo tem início em 1948, com a destituição do Estado Palestino para criação e ocupação israelense – Suleiman explora as várias nuances dessa situação estranha que passa a ser vivida pelos árabes na região, minorias em sua própria terra. O que temos: uma família e sua transição pela história até os dias atuais – em cena, o pai que é obrigado a fugir de casa por conta do exército israelense, escolas judias e a formação de uma cultura israelita em território conflituoso. O filme de Suleiman, até mesmo por sua visão bastante particular dentro do cinema, remonta os relatos à sua maneira, o que quer dizer, temos a violência que ganha a tela, mas, no geral, sempre vista por um viés irônico ou, em alguns momentos, assaz cômicos.
Mais pessoal ainda que seus outros filmes (dedicado, inclusive, à memória de seus pais), The Time that Remains é uma espécie de Amarcord, um apanhado de lembranças que são reconstruídas na tela. Dentre as várias reminiscências, o eterno estado de alerta, de vigia, como, por exemplo, na repetição dos soldados que, em todas as noites, acendem suas lanternas sobre dois pescadores noturnos. A cada uma das vezes, uma aproximação daqueles que pescam com os outros que fiscalizam. Suleiman tem a capacidade e a sensibilidade de olhar para o cenário de conflito e fazer dele uma piada, uma gag, como a do tanque no meio da rua, que persegue, com o canhão, um simples cidadão que fala ao telefone. A cena, de alguma forma, diz bastante sobre o filme e a construção dentro do cinema de Suleiman: o homem fala ao telefone como se a situação fosse normal, assim como também é uma normalidade a suspeita a qualquer pessoa.
Na última parte do filme (dividido em quatro, que passa por antes do nascimento do diretor, sua infância, adolescência e fase adulta), apesar de se inserir, como de praxe, fisicamente dentro de The Time that Remains, Suleiman acaba por fazer um filme muito mais sobre sua família (em especial, a mãe). E o faz através de planos fixos, pequenos detalhes, por meio de planos que duram o suficiente para dizer muita coisa. Dentro do minimalismo suleimaniano, uma maravilha de filme sobre pessoas. A cena final (não revelada, obviamente, aqui) é das mais belas do festival.
*Visto no Festival de Cannes 2009.
Filmes Citados:
The Time that Remains (idem, 2009 – Elia Suleiman)
Intervenção Divina (Yadon Ilaheyya, 2002 – Elia Suleiman)
Amarcord (idem, 1973 – Federico Fellini)







